ENTÃO
É NATAL...
Hugo Martins
Nestes tempos de Natal,
em que a solidariedade humana mais se acentua nos espíritos desarmados dos
homens, cedi, ontem, a um impulso imperdoável a que não costumo fazer qualquer
concessão: deixei-me vencer pela impulsão do consumismo frívolo e inconsequente.
Abri a bolsa de parcos recursos e danei-me a comprar. Não sei se obedecia ao
desejo de preencher algum vazio interior ou buscava dar vaza ao prazer anódino
de gastar por gastar com o fim de mitigar minhas dores existenciais. Não desejo
pensar nisso. O que está feito está feito. Pois bem...
Pois bem, as tais
mercadorias que adquiri talvez sejam, de fato, necessárias, pois nada
acrescentam à atmosfera desses tempos de desencanto. Nada acrescentam ao homem
moderno. Constituem matéria sem nenhuma serventia. Não sei por que algumas
pessoas curtem esse tipo de coisa. Aventurei-me para ver no que ia dar.
Vejamos: cuidei de adquirir o que se segue. Perdoem-me se fui leviano, e minhas
preferências não tenham se coadunado com a ordem do dia. Vou arriscar, enumerando
as mercadorias adquiridas, frutos da minha insensatez. Peço condescendência,
sem suplicar perdão, pois continuo buscando dar ouvidos à minha voz interior...
Eis o que comprei, gastando, pasmem, R$ 69,00 (sessenta e nove) reais. É muito
dinheiro pra tão pouco...
Memorial do Convento, de
José Saramago; Foucault em 90 minutos; Sartre em 90 minutos; Crépuscule des
idoles, de um tal Nietzsche; Vies e doctrines des philosophes de l Antiquité,
de um tal Diógenes Laércio; David Hume em 90 minutos; Kierkegaard em 90
minutos. Só gentinha sem nenhuma expressividade, sem nenhuma importância para
esses tempos imediatistas. De todo modo, vou arriscar-me a fruir esse povinho.
Depois, quem sabe, a sensatez não me socorra e eu tenha que voltar ao rebanho?
Questão de tempo, questão
prenhe de questões... Afinal o Natal é uma festa profundamente cristã. Dizem os
comerciantes e os iniciados na arte de persuadir os tolos.
Pois não é que caí nessa
esparrela... Que hei de fazer? Enfronhar-me na leitura daqueles sujeitos. Não
sei se a empreitada vale a pena.
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