sexta-feira, 8 de julho de 2016


TRANSFIGURAÇÃO
                                                    Hugo Martins

            Por não ser capaz de exprimir todas as coisas - o indizível, o inefável – a linguagem abre ensanchas a que seu usuário recorra à metaforização; em outras palavras, à linguagem figurada para se aproximar o mais possível daquilo que pretende exprimir. Assim ocorre quando, por exemplo, Castro Alves, no poema O Navio Negreiro, ao enxergar o sofrimento por que passavam os negros cativos nos porões dos navios tumbeiros, brada: “Era um sonho dantesco.... Neste passo, o poeta associa o suplício do negro trasladado da África com os sofrimentos que Dante Alighieri testemunha, quando, guiado pelo poeta latino Virgílio, atravessa a instância do inferno na poema A Divina Comédia. Este poema é grávido de metáforas...
            A metaforização não é apanágio da linguagem literária. Na comunicação do dia a dia, ela está sempre presente, basta que nosso espírito estabeleça comparações e proceda a relações de contigüidade. Você nunca toma uma Bohêmia ou uma Antártica, você saboreia cerveja com referidos nomes. Quando diz que ouviu Chico Buarque, na realidade, você ouviu música de autoria desse compositor. Estar morrendo de fome ou de cansaço são metáforas tão constantes no cotidiano, que chegaram a desmetaforizar-se, a perder sua aura poética
            Quem tiver a pachorra de ouvir as músicas Apesar de Você, de Chico Buarque e Disparada, de Geraldo Vandré, verá que a palavra “você” aparece algumas vezes prenhe de metaforização. Não se trata de um pronome de tratamento, como diria o gramático. Não, na realidade a palavrinha designa a figura e a truculência do ditador e todos os males dele advindos. Para o caso específico de nossa História, fazia alusão velada a todos os Presidentes militares que governaram este país entre 1964 a 1985. Seu grau de universalidade, porém, se estende a qualquer ditador de qualquer tempo e de qualquer lugar.
            Lembra-me que, naqueles negros tempos, o desejo ufanístico dos militares gerou a criação de slogans enaltecedores do Brasil. Um deles assim dizia: “BRASIL, AME-O OU DEIXE-O.” Em outras palavras: quem não concordasse com os desmandos, a falta de respeito e o autoritarismo grosseiro, que batia e arrebentava, que arrumasse seus bregueços e daqui saísse... Um humorista da época, fazendo outra leitura da coisa, recorreu a uma metáfora genial e a frase ficou assim completada: “O ÚLTIMO A SAIR DESLIGUE AS LUZES DO AEROPORTO.” Tempos depois, outro ditador editou o seguinte slogan ufanista: O BRASIL É UM PAÍS FEITO POR NÓS”. O mesmo  humorista, demonstrando conhecer os segredos da língua, completou a sentença com essa metáfora terrivelmente deliciosa: RESTA SABER QUEM VAI DESATÁ-LOS. O demoníaco gozador apenas considerou o pronome “nós” e o leu como substantivo plural de nó... Por evidente, o humorista acrescentou mais dois processos judiciais na sua longa lista...
            Quem, a nosso ver, melhor exprimiu a incapacidade da linguagem no vão esforço de traduzir determinados estados da alma foi o poeta parnasiano Olavo Bilac no soneto Inania Verba, locução latina que, numa tradução livre, restaria “palavras impotentes”
            Transcrevamos o soneto:

INANIA VERBA
                                                                                                                     Olavo Bilac


Ah! Quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas desfeito em lodo o que te deslumbrava...


O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava;
A Forma, espessa e fria, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.


Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ah! Quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? E o céu que foge à mão que se levanta?


E a ira muda? E o asco mudo? E o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?
                                         

            Leitor, o nosso desejo de alcançar a precisão no que desejamos exprimir é tão intenso e tão próprio de nós, que, por muitas vezes, lendo determinados trechos de autores que temos à mão, com eles nos identificamos e dizemos, de nós para nós, eu tinha vontade de ter dito isto.
          Veja você mesmo. No facebook, grande parte das pessoas se compraz em copiar trechos dos outros e enviar aos amigos exprimindo algo que ela própria pensa não ser capaz de exprimir.
            É o encanto, é o feitiço de se tentar traduzir, pela linguagem, o homem e o mundo nas suas diversas nuanças.


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