VIAGEM – II
Hugo Martins
Lido o
primeiro quarteto do poema, em que se tem a visão de uma cidade sendo
amortalhada pelo crepúsculo, bom lembrar que se trata, conforme dissemos, de um
dos quadros no painel de um quadro maior, a que se somam outros dois. O que se
apresenta agora se reduz ao segundo quarteto, que transcreveremos logo a
seguir, ajuntando-se-lhe os comentários e digressões pertinentes e consentâneos
com a visão do comentarista. A descrição do momento só finda no segundo
terceto. Diríamos que cada bloco de versos, a estrofe, corresponde a uma
pincelada do artista. Continuo ao seu lado, verificando a coerência pictórica
entre o quadro e a paisagem física e espiritual que nele se imprime. Eis o
quadro.
O
ÂNGELUS PLANGE AO LONGE EM DOLOROSO DOBRE.
O
ÚLTIMO OURO DO SOL MORRE NA CERRAÇÃO.
E
AUSTERO, AMORTALHANDO A URBE GLORIOSA E POBRE,
O
CREPÚSCULO CAI COMO UMA EXTREMA-UNÇÃO.
No étimo
grego e latino, a palavra ângelus significa mensageiro, núncio, que a igreja
católica traduz por anjo e empresta a este as virtudes dos deuses pagãos
Hermes/Mercúrio, com uma diferença, estes têm os pés e capacete alados; os
anjos possuem asas. Os primeiros são apenas mensageiros dos deuses, os últimos,
além dessa incumbência, assumem o papel de protetores...
Na cultura
nacional, é comum usar a locução “hora do ângelus” como anunciadora do final do
dia, de regra, a hora do lusco-fusco. Nessa hora, as rádios e outros aparelhos
tocavam a Ave, Maria com a música do compositor alemão Franz Schubert ou do
francês Charles Gounod. O porquê da “hora do ângelus”, historicamente, está na
Bíblia Sagrada. Para nós, importa tal hora como anunciadora do fim do dia e o
começo da noite.
Na verdade,
não é o ângelus que plange (bate, dobra), mas os sinos, anunciando o ângelus...
o emprego do adjetivo doloroso explica-se pelo fato de que os sinos batem em
repiques ou dobre. Repique anuncia alegria; dobre, morte, tristeza.
Efetivamente, o dia está a morrer, daí a sugestão semântica do emprego daquele
adjetivo. Lembremos de “dobre de finados”, locução que aparece num soneto de
Machado de Assis, no poema Desfecho, em que, retratando as dores e angústias de
Prometeu, acorrentado ao monte Cáucaso, sob a ameaça da grande águia que lhe
devora o fígado, vê “o desfilar dos séculos que vão com um dobre de finados”,
Machado põe, às claras, em belíssima intuição, a marcha inexorável do tempo,
que flui indiferente às dores e sofrimentos, às alegrias e ilusões do homem...
Essa
ideia de morte se entremostra, mais vivamente, nos três versos seguintes por
meio de palavras carregadas de sugerências latentes: “morre”, “amortalhando”
(cuja raiz é mort), “crepúsculo” e “extrema-unção”, sacramento ofertado àqueles
que estão à espera da “indesejada das gentes”, cuja vinda está decretada. O
verbo “cair” também tem, no ambiente semântico, visível força, sobretudo porque
faz parte de uma comparação, isto é, ele cai como se anunciasse a morte certa e
irretorquível do dia. Os adjetivos “gloriosa” e “pobre” modificam o substantivo
URBE, palavra de origem latina (urbs, urbis), que significa cidade. Parece a
nós que se o poeta tivesse usado o termo cidade no lugar de urbe (mais
adequada), a gravidade e sublimidade do momento (daí o predicativo austero) se
esfacelariam na vulgaridade e insensibilidade de poetas menores. Não é o caso
de nosso pintor...
Os dois primeiros versos já se estruturam na ordem direta.
Quanto aos dois últimos, poderiam ser assim arrumados: o crepúsculo cai austero
e amortalha a urbe gloriosa e pobre como uma extrema-unção...
Voltaremos
Nenhum comentário:
Postar um comentário