VIAGEM – III
Hugo Martins
Aqui
estamos, ainda, a olhar os estertores do dia, captados pelas tintas poéticas de
um hábil pintor, cujo talento em misturar, na paleta, as tinturas verbais,
fornece, na medida exata, toda a plasticidade do momento à moda impressionismo,
envolvendo o painel numa atmosfera de fugacidade e mutação... Em torno de tudo,
o mistério, o lirismo e, por fim, para o apreciador, o gozo estético, a
satisfação, a saciedade plena no embeber lírico dessa doce beleza...
Enquanto o
artista se entrega àquela labuta, dele não me afasto e não me surpreendo com a
fidelidade entre as duas paisagens, a exterior e a transposta para a tela. O
talento é patente...
Ei-la.
Seguem-se-lhe comentários do apreciador.
AGORA, PARA
ALÉM DO CERRO, O CÉU PARECE
FEITO DE UM
OURO ANCIÃO QUE O TEMPO ENEGRECEU...
A NEBLINA,
ROÇANDO O CHÃO, CICIA EM PRECE,
COMO UMA
PROCISSÃO ESPECTRAL QUE SE MOVE...
DOBRA O
SINO... SOLUÇA UM VERSO DE DIRCEU...
SOBRE A
TRISTE OURO PRETO O OURO DOS ASTRO CHOVE.
Aquele “agora” faz referência ao
segundo quarteto, momento em que a cidade é acobertada pela mortalha do crepúsculo.
A noite se avizinha. No lusco-fusco, o céu, enegrecido pelo tempo, apresenta
uma coloração mergulhada num semiescuro, pintalgado de fugidias e mortiças
manchas amarelas. Silêncio...
No último verso do primeiro terceto e
no primeiro verso do último terceto, fantasmas em procissão se movem, ciciando
preces tal a neblina quando roça o chão. Essa impressão auditiva, de singular
beleza, está sugerida pelo aproveitamento de fonemas sibilantes, encontráveis
nas palavras “roçando”, “cicia”, “prece”, “procissão”, “espectral”, “se”
(move). A leitura do texto em voz alta
deixa entrever aquele cicio das preces e do roçar da neblina no chão. Uma
espécie de ciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciiciciciicicicicicici...
Por fim, o desfecho do momento
mágico: “o sino dobra”, “um verso de Dirceu soluça”... O dobre anuncia morte do
dia e, quem sabe, do amor entre Marília e Dirceu. Dirceu é pseudônimo adotado
pelo poeta Tomaz Antônio Gonzaga, mentor da Inconfidência Mineira, poeta
árcade, cuja paixão pela jovem Maria Dorotea J. de Seixas (Marília) e cantada
em livro, é tão famosa quanto a de Abelardo por Heloísa, a de Petrarca por
Laura e a de Dante por Beatrice...
“O ouro dos astros chove sobre a
triste Ouro Preto”. É noite de céu estrelado...
A sugestão do movimento do tempo está
no título do poema, Vila Rica, e a alusão, no último verso a Ouro Preto, antiga
Vila Rica.
O pintor é o poeta parnasiano Olavo
Brás Martins dos Guimarães Bilac...
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