quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – VI
                                                         Hugo Martins

            Fazer a primeira comunhão era uma tortura. Além do temor ao fogo do inferno e dos castigos do capeta, ideias colocadas na cabeça dos meninos por uma beata, cuja ignorância ia do dedão do pé aos fios do cabelo maltratado, metia-nos mais medo ainda a figura austera do padre, um senhor magro, delgado, de cabelos à escovinha, portando óculos de grossas lentes e ostentando ar de nazista tirado das telas de Holywood. Em qualquer situação, fosse proferindo o sermão, fosse participando das quermesses ao lado da igreja, fosse admoestando meninos traquinas, sua voz era firme e autoritária. Era o padre Abelardo, protótipo do vigário formado à luz dos ensinamentos da igreja medieval, que ainda não conhecia a doçura e a sabedoria dos predicamentos do Papa João XXIII, que imprimiria à igreja católica maior aproximação dos fiéis ao seu pastor.
            Naquele tempo, a missa era celebrada em língua latina, com o padre de costas para a assistência, voltado para o altar, durante toda a missa, e acolitado por um sacristão ou dois coroinhas, coadjuvantes, que repetiam automaticamente as palavras em língua latina sem fazer ideia do que diziam. Apenas na hora do sermão, o vigário, alçava-se ao púlpito, colocado bem acima dos fiéis, e, dali, proferia discurso pedagógico consentâneo com aqueles tempos ou, então, deblaterava contra aqueles que cometiam, na ótica dele, rumorosos pecados mortais, capitais ou veniais...
            Após as missas, novenas e trezenas, padre Abelardo saía a passear pela pracinha em frente à igreja matriz ou deambulava pelas quermesses a ver como iam as coisas. Muitas vezes, estacava próximo ao leilão a fim de flagrar menino danado que, em meio à multidão, ficava dando lance... Vez por outra, um desses capetas era flagrado pelo vigário e tinha as orelhas puxadas e levado a um lugar mais afastado, onde o padre mostrava conhecer os pais do moleque, a quem levaria o enredo da peraltice. E conhecia mesmo. Lembro que, já adulta, uma de minhas irmãs, já transcorrido tanto tempo, fora por ele reconhecido num hospital aqui em Fortaleza. Já era o monsenhor Abelardo que, embora já fluído tanto tempo, fez ver à minha irmã que se lembrava não só dela, mas de alguns outros irmãos, de meu pai e de minha mãe. Só muito depois é que comecei a intuir o grande humanista que era ele. Do quanto levava a sério sua função de pastorear seu rebanho e de como contribuir para tornar o mundo um lugar melhor.
            Havia em Itapipoca um político metido a poderoso, espécie de mandachuva da cidade. Diziam ser ele dono da Escola Normal Rural, bem como da Maternidade Martagão Gesteira, único hospital da cidade, em que as mulheres pariam e em que alguns privilegiados podiam ser internados. A saúde do povo era entregue às chamadas “enfermeiras”, espécies de curandeiras, ou às rezadeiras. Pois bem, havia entre o político e o padre algumas dissensões, decorrentes, com certeza, de algumas injustiças cometidas pelo primeiro, de que discordava o segundo. O trabalho ideológico do político dava-se por um sistema de alto-falantes, que fazia as vezes de rádio, exalçando as virtudes e bondade daquele homem que “tinha olho na terra de cegos”: era A Voz da Comunidade. Só que o padre também tinha olhos e bem abertos e, para combater aquele senhor e “dar voz e vez ao povo”, criou sistema de alto-falantes idêntico, a que deu o nome de A Voz do Campanário... Escusado ressaltar os confrontos que, vez por outra vinha à tona...  Esse foi o primeiro ato grandioso do padre, visto pela minha ótica de adulto. Daquele político nada ficou, apenas a reputação de “muito inteligente e hábil” e seu nome, dado à praça principal da cidade e ao estádio de futebol.
            Qualquer historiador que procurar obras beneficentes, necessárias e úteis à cidade de Itapipoca, encontrará pelo menos as três, que foram e continuam sendo das mais importantes para a promoção daquele povo: O Círculo Operário, O Colégio Pio XII e o Patronato, instituições voltadas, sobremaneira, para a educação de todos...
            O padre Abelardo é, também, figura que marcou minha meninice em Itapipoca quando eu mal havia completado 10 anos de idade. Aquela figura austera, cujo semblante comparei a tipos-prontos de Holywood, na verdade, trazia sobre si, como diz Exupéry, apenas “uma casca”, que escondia um algo invisível, revelado, tão só, ao olhar do menino que se fez adulto...e , ainda, “não perdeu a sabedoria das crianças.”

            

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