FIAPOS DA MEMÓRIA – VI
Hugo Martins
Fazer a
primeira comunhão era uma tortura. Além do temor ao fogo do inferno e dos
castigos do capeta, ideias colocadas na cabeça dos meninos por uma beata, cuja
ignorância ia do dedão do pé aos fios do cabelo maltratado, metia-nos mais medo
ainda a figura austera do padre, um senhor magro, delgado, de cabelos à
escovinha, portando óculos de grossas lentes e ostentando ar de nazista tirado
das telas de Holywood. Em qualquer situação, fosse proferindo o sermão, fosse
participando das quermesses ao lado da igreja, fosse admoestando meninos
traquinas, sua voz era firme e autoritária. Era o padre Abelardo, protótipo do
vigário formado à luz dos ensinamentos da igreja medieval, que ainda não
conhecia a doçura e a sabedoria dos predicamentos do Papa João XXIII, que
imprimiria à igreja católica maior aproximação dos fiéis ao seu pastor.
Naquele
tempo, a missa era celebrada em língua latina, com o padre de costas para a
assistência, voltado para o altar, durante toda a missa, e acolitado por um
sacristão ou dois coroinhas, coadjuvantes, que repetiam automaticamente as
palavras em língua latina sem fazer ideia do que diziam. Apenas na hora do
sermão, o vigário, alçava-se ao púlpito, colocado bem acima dos fiéis, e, dali,
proferia discurso pedagógico consentâneo com aqueles tempos ou, então,
deblaterava contra aqueles que cometiam, na ótica dele, rumorosos pecados
mortais, capitais ou veniais...
Após as
missas, novenas e trezenas, padre Abelardo saía a passear pela pracinha em
frente à igreja matriz ou deambulava pelas quermesses a ver como iam as coisas.
Muitas vezes, estacava próximo ao leilão a fim de flagrar menino danado que, em
meio à multidão, ficava dando lance... Vez por outra, um desses capetas era flagrado
pelo vigário e tinha as orelhas puxadas e levado a um lugar mais afastado, onde
o padre mostrava conhecer os pais do moleque, a quem levaria o enredo da
peraltice. E conhecia mesmo. Lembro que, já adulta, uma de minhas irmãs, já
transcorrido tanto tempo, fora por ele reconhecido num hospital aqui em
Fortaleza. Já era o monsenhor Abelardo que, embora já fluído tanto tempo, fez
ver à minha irmã que se lembrava não só dela, mas de alguns outros irmãos, de
meu pai e de minha mãe. Só muito depois é que comecei a intuir o grande
humanista que era ele. Do quanto levava a sério sua função de pastorear seu
rebanho e de como contribuir para tornar o mundo um lugar melhor.
Havia em
Itapipoca um político metido a poderoso, espécie de mandachuva da cidade.
Diziam ser ele dono da Escola Normal Rural, bem como da Maternidade Martagão
Gesteira, único hospital da cidade, em que as mulheres pariam e em que alguns
privilegiados podiam ser internados. A saúde do povo era entregue às chamadas
“enfermeiras”, espécies de curandeiras, ou às rezadeiras. Pois bem, havia entre
o político e o padre algumas dissensões, decorrentes, com certeza, de algumas
injustiças cometidas pelo primeiro, de que discordava o segundo. O trabalho
ideológico do político dava-se por um sistema de alto-falantes, que fazia as
vezes de rádio, exalçando as virtudes e bondade daquele homem que “tinha olho
na terra de cegos”: era A Voz da Comunidade. Só que o padre também tinha olhos
e bem abertos e, para combater aquele senhor e “dar voz e vez ao povo”, criou
sistema de alto-falantes idêntico, a que deu o nome de A Voz do Campanário...
Escusado ressaltar os confrontos que, vez por outra vinha à tona... Esse foi o primeiro ato grandioso do padre,
visto pela minha ótica de adulto. Daquele político nada ficou, apenas a
reputação de “muito inteligente e hábil” e seu nome, dado à praça principal da
cidade e ao estádio de futebol.
Qualquer
historiador que procurar obras beneficentes, necessárias e úteis à cidade de
Itapipoca, encontrará pelo menos as três, que foram e continuam sendo das mais
importantes para a promoção daquele povo: O Círculo Operário, O Colégio Pio XII
e o Patronato, instituições voltadas, sobremaneira, para a educação de todos...
O padre
Abelardo é, também, figura que marcou minha meninice em Itapipoca quando eu mal
havia completado 10 anos de idade. Aquela figura austera, cujo semblante
comparei a tipos-prontos de Holywood, na verdade, trazia sobre si, como diz
Exupéry, apenas “uma casca”, que escondia um algo invisível, revelado, tão só,
ao olhar do menino que se fez adulto...e , ainda, “não perdeu a sabedoria das
crianças.”
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