FIAPOS DA MEMÓRIA - XIX
Hugo Martins
Chamava-se
Glotã. Nunca soube de onde tiraram essa alcunha. Quero acreditar seja uma
corruptela de glutão. Também chego a pensar tenha saído de algum romance ou
narrativa folhetinesca ao tempo em que ele viveu. Se tinha ascendência nobre, não
o sei. Entretanto, deixava entrever no olhar altivo e nas atitudes corajosas e
intimoratas um pendor natural para não assumir comportamentos que cheirassem à
vulgaridade e à mesmice das almas pequenas e insossas.
Costumava
estender o corpanzil no cimento frio do alpendre, numa atitude de quem se
entrega com frequência à meditação. Nada o perturbava naqueles momentos.
Mantinha a cabeçorra levantada, o olhar pregado em algum ponto fixo no qual se
concentrava, e a língua saía-lhe da bocarra num movimento contínuo de um vaivém
que lembrava o entre e sai do pistom de uma máquina em pleno funcionamento.
Enquanto se entregava a essa “técnica”, saía-lhe também da gorja um ruído
semelhante a quem se encontra a resfolgar depois de um ingente esforço. Não era policial, não era perdigueiro, não
tinha pedigree. Era simplesmente nosso cachorro, talvez um “viralatier”, amado
de todos nós. Só se viam nele atos heroicos de bravura, que ele punha às claras
como a dizer de si para si que era ele um guardião fiel e leal aos seus donos.
Glotã não era servil como sói acontecer com o canis domesticus, era servidor, isso
sim, não subserviente dado a rapapés. Penso até mesmo que, por esse prisma,
tinha ele algum parentesco com a linhagem e o modo de ser dos felinos. Era um
cão dono de uma alma linda, serena e cativante. Dormia no quintal. Não se
assemelhava a Cérbero da mitologia grega, que guardava as portas do inferno e
tinha três cabeças, Glotã só tinha uma cabeça, e sua vigilância à casa dava-nos
a paz narrada dos paraísos.
Lembro-me,
de uma feita, que, numa dada noite, Glotã dormia dentro de casa, quando, já ia
alta a noite, o silêncio foi quebrado: um bácoro, que minha mãe cevava numa
pocilga no quintal, abriu o berreiro no mundo como a protestar que alguém o
estivesse arrebatando... De fato, um ladravaz desavergonhado já atravessava o
portão do quintal, que dava para a rua e para a grande escuridão, quando minha
mãe abriu a porta da cozinha que dava para o quintal, e ordenou: “pega, Glotã!”
Este riscou carreira e, ninguém viu o que aconteceu, dentro de pouco minutos,
lá vinha nosso cão trazendo pela orelha o bácoro surripiado.
Minha mãe
mantinha no quintal duas vacas leiteiras: Pretinha e Pixuna. Todo dia, ao acordar,
a meninada levava, pendurado no dedo pela aselha, um caneco de alumínio para
tomar leite mungido, que fluía, espumoso, das tetas ubertosas daquelas. Não se
devia descer ao quintal senão para aquele fim, pois, soltas, as vacas
“açoitavam”, conforme se dizia naquele tempo para caracterizar a vaca ou o boi
que corria atrás dos incautos e os chifrava. Um certo dia, um dos irmãos desceu
os degraus da porta da cozinha e se viu no quintal. Não se sabia o que ele fora
fazer ali. O fato é que, de repente, se viu perseguido por Pretinha, que
parecia estar disposta a dar uma lição no menino sem cuidados. Os outros,
apreensivos, se viam impotentes em acudir o irmão. Súbito, Glotã se interpõe
entre nosso irmão e a fúria do animal, que parou sob o olhar dominador de nosso
cachorro e ficou a ciscar, a gingar o corpo e a balançar a cabeça com os
grandes e pontiagudos chifres. Glotã acompanhava-lhe os movimentos, fitando os
olhos de Pretinha, como se ensaiasse os passos daquela dança em que se
confrontavam disposições decisivas: uma para atacar, outra para defender e
proteger. A serenidade calculada do cão, que ameaçava segurar os ímpetos da
vaca, cravando os dentes entre as grandes narinas do bicho, ponto nevrálgico
dos bovinos, hipnotizou Pretinha, que parecia estar convencida de que qualquer
tentativa de querer alcançar o menino seria inútil ante a disposição corajosa
de nosso cão de manter incólume o moleque que, não contou pipocas, correu,
subiu os degraus e se embrenhou na cozinha. Grande alívio nos perpassou a
alma... Glotã era o “nosso herói”.
Além dessa
faceta, o cachorro também era dado a brincadeiras, a correr atrás de nós e a
fingir querer nos morder o calcanhar. Na parede do açude, corria, escavava a
areia e, muitas vezes, jogava-se na água, onde nadava com a cabeça erguida,
batendo, continuamente, para cima e para baixo, as grandes patas. Nunca
desconheceu ninguém, tampouco atacou quem quer que fosse.
Um dia, (que
dia triste!!), os olhos do nosso cãozinho começaram a perder a vivacidade. Não
mais nos fazia festas... Encostava-se nos cantos, estirava as patas dianteiras
e, entre elas, punha a cabeça de olhar posto no vácuo das imotivações. Glotã
parecia haver perdido a alegria de viver. Nossa tristeza mais se exacerbou
quando vimos nossa mãe passar uma corda no pescoço do nosso amado cão e
amarrá-lo no tronco de um pé de ciriguela que havia no quintal. À tarde, chegou
seu Chico Maricota, trazendo nas mãos uma espingarda. Um tiro rasgou a tarde.
Nos olhos, as lágrimas borbotaram. Nas almas, uma dor da ausência certa. Foi
minha primeira experiência com a morte.
Glotã foi
habitante de minha infância ao tempo em que, menino de calças curtas e pés no
chão, morava eu em Itapipoca. Entre muitos alumbramentos de então, outra dor
chacoalhou minha alma de menino, que “só sentia sem saber definir”.
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