terça-feira, 23 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA - XIX
                                                    Hugo Martins
           
            Chamava-se Glotã. Nunca soube de onde tiraram essa alcunha. Quero acreditar seja uma corruptela de glutão. Também chego a pensar tenha saído de algum romance ou narrativa folhetinesca ao tempo em que ele viveu. Se tinha ascendência nobre, não o sei. Entretanto, deixava entrever no olhar altivo e nas atitudes corajosas e intimoratas um pendor natural para não assumir comportamentos que cheirassem à vulgaridade e à mesmice das almas pequenas e insossas.
            Costumava estender o corpanzil no cimento frio do alpendre, numa atitude de quem se entrega com frequência à meditação. Nada o perturbava naqueles momentos. Mantinha a cabeçorra levantada, o olhar pregado em algum ponto fixo no qual se concentrava, e a língua saía-lhe da bocarra num movimento contínuo de um vaivém que lembrava o entre e sai do pistom de uma máquina em pleno funcionamento. Enquanto se entregava a essa “técnica”, saía-lhe também da gorja um ruído semelhante a quem se encontra a resfolgar depois de um ingente esforço.  Não era policial, não era perdigueiro, não tinha pedigree. Era simplesmente nosso cachorro, talvez um “viralatier”, amado de todos nós. Só se viam nele atos heroicos de bravura, que ele punha às claras como a dizer de si para si que era ele um guardião fiel e leal aos seus donos. Glotã não era servil como sói acontecer com o canis domesticus, era servidor, isso sim, não subserviente dado a rapapés. Penso até mesmo que, por esse prisma, tinha ele algum parentesco com a linhagem e o modo de ser dos felinos. Era um cão dono de uma alma linda, serena e cativante. Dormia no quintal. Não se assemelhava a Cérbero da mitologia grega, que guardava as portas do inferno e tinha três cabeças, Glotã só tinha uma cabeça, e sua vigilância à casa dava-nos a paz narrada dos paraísos.
            Lembro-me, de uma feita, que, numa dada noite, Glotã dormia dentro de casa, quando, já ia alta a noite, o silêncio foi quebrado: um bácoro, que minha mãe cevava numa pocilga no quintal, abriu o berreiro no mundo como a protestar que alguém o estivesse arrebatando... De fato, um ladravaz desavergonhado já atravessava o portão do quintal, que dava para a rua e para a grande escuridão, quando minha mãe abriu a porta da cozinha que dava para o quintal, e ordenou: “pega, Glotã!” Este riscou carreira e, ninguém viu o que aconteceu, dentro de pouco minutos, lá vinha nosso cão trazendo pela orelha o bácoro surripiado.
            Minha mãe mantinha no quintal duas vacas leiteiras: Pretinha e Pixuna. Todo dia, ao acordar, a meninada levava, pendurado no dedo pela aselha, um caneco de alumínio para tomar leite mungido, que fluía, espumoso, das tetas ubertosas daquelas. Não se devia descer ao quintal senão para aquele fim, pois, soltas, as vacas “açoitavam”, conforme se dizia naquele tempo para caracterizar a vaca ou o boi que corria atrás dos incautos e os chifrava. Um certo dia, um dos irmãos desceu os degraus da porta da cozinha e se viu no quintal. Não se sabia o que ele fora fazer ali. O fato é que, de repente, se viu perseguido por Pretinha, que parecia estar disposta a dar uma lição no menino sem cuidados. Os outros, apreensivos, se viam impotentes em acudir o irmão. Súbito, Glotã se interpõe entre nosso irmão e a fúria do animal, que parou sob o olhar dominador de nosso cachorro e ficou a ciscar, a gingar o corpo e a balançar a cabeça com os grandes e pontiagudos chifres. Glotã acompanhava-lhe os movimentos, fitando os olhos de Pretinha, como se ensaiasse os passos daquela dança em que se confrontavam disposições decisivas: uma para atacar, outra para defender e proteger. A serenidade calculada do cão, que ameaçava segurar os ímpetos da vaca, cravando os dentes entre as grandes narinas do bicho, ponto nevrálgico dos bovinos, hipnotizou Pretinha, que parecia estar convencida de que qualquer tentativa de querer alcançar o menino seria inútil ante a disposição corajosa de nosso cão de manter incólume o moleque que, não contou pipocas, correu, subiu os degraus e se embrenhou na cozinha. Grande alívio nos perpassou a alma... Glotã era o “nosso herói”.
            Além dessa faceta, o cachorro também era dado a brincadeiras, a correr atrás de nós e a fingir querer nos morder o calcanhar. Na parede do açude, corria, escavava a areia e, muitas vezes, jogava-se na água, onde nadava com a cabeça erguida, batendo, continuamente, para cima e para baixo, as grandes patas. Nunca desconheceu ninguém, tampouco atacou quem quer que fosse.
            Um dia, (que dia triste!!), os olhos do nosso cãozinho começaram a perder a vivacidade. Não mais nos fazia festas... Encostava-se nos cantos, estirava as patas dianteiras e, entre elas, punha a cabeça de olhar posto no vácuo das imotivações. Glotã parecia haver perdido a alegria de viver. Nossa tristeza mais se exacerbou quando vimos nossa mãe passar uma corda no pescoço do nosso amado cão e amarrá-lo no tronco de um pé de ciriguela que havia no quintal. À tarde, chegou seu Chico Maricota, trazendo nas mãos uma espingarda. Um tiro rasgou a tarde. Nos olhos, as lágrimas borbotaram. Nas almas, uma dor da ausência certa. Foi minha primeira experiência com a morte.
            Glotã foi habitante de minha infância ao tempo em que, menino de calças curtas e pés no chão, morava eu em Itapipoca. Entre muitos alumbramentos de então, outra dor chacoalhou minha alma de menino, que “só sentia sem saber definir”.
           
           
           


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