domingo, 28 de agosto de 2016

TEXTO (com alguma impressão de leitura)
                                                Hugo Martins
Página em branco. Tortura. Esterilidade absoluta. Nenhuma ideia. Cascavilho fatos presentes, tempos idos e vividos. Nada. Lembro-me de Drummond, que, refletindo acerca de esterilidade, dizia que, muitas vezes, o poema está vivo, pronto para ser parido, mas a mão teima em não escrever. Essa “luta vã com as palavras”, a que Gustave Flaubert chamou de “angústia da forma” e Olavo Bilac, no mesmo tom, intitulou um de seus poemas – Inania Verba – em português, palavras impotentes, também atinge prosadores. O escritor português, José Maria Eça de Queirós dizia reescrever uma página cinco, seis, até dez vezes. Na melhor biografia que já se publicou sobre Machado de Assis, obra de Raimundo Magalhães Júnior, escrita em quatro volumes, tivemos notícia de que o escritor fluminense, muitas vezes, acordava para consertar uma vírgula ou fazer algum reparo no texto já escrito. Creio que essas coisas, que lembram uma saudável obsessão, não só ocorre com escritores, mas com todos aqueles que se aventuram na busca de representar as coisas do mundo com a maior fidelidade possível. Mundo e palavra mantêm união inseparável, ideia acertadamente expressa no neologismo drummondiano: “palavramundo”. Quanta poeticidade encontrada... O casamento morfossemântico, que deu certo sem a aliança do hífen... Pois bem.
Aqui estava eu, matraqueando o teclado, perambulando no mundo das ideias e preambulando o texto a ver se encontrava algum tema para desenvolver. Nada de nada. No momento em que já ia desistindo, pululou-me uma ideia pescada de uma leitura que fizera acerca de crítica e historiografia literária. Com efeito, assustei-me quando o crítico deu um tropeção na leitura de um livro de Jorge Amado. Tenho especial estima por esse baiano, que escreve na língua boa do povo, entrelaçando lirismo doce com sensualidade e telurismo. Toda sua obra tem por cenário a Bahia de capoeiristas, de malandro e prostitutas românticas; a Bahia dos coronéis, das lutas pela terra, dos jagunços e das emboscadas.
Ora o crítico afirma, descuidosamente, que o romance Gabriela, Cravo e Canela envereda pelo picaresco e pelo sensual. Não é verdade. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos, pode-se pescar uma boa dosagem de picaresco e de sensualidade a toda prova. Mas essa afirmação não deve ser aplicada àquele romance aqui referido. Na verdade, Gabriela, Cravo E Canela deve ser lido depois da leitura, por ordem, de Terras do Sem-Fim e São Jorge dos Ilhéus. Fazem parte do tema do ciclo do cacau. Se nos dois primeiros, a classe dos coronéis se encontrava no auge do prestígio e do poder; em Gabriela, Cravo e Canela, numa bela alegoria, recorrendo à mais fina expressão literária, Jorge Amado acentua a gradativa queda da instituição coronelística, da mesma forma que faz José Lins do Rego, no romance Fogo Morto. No escritor paraibano, a metáfora alegórica já se revela no título do livro. Engenho de fogo morto é o artesanal, o que só fabrica apenas rapadura, e, por injunção de novos sopros civilizatórios, cederá lugar á usina. Em Gabriela, Cravo e Canela há uma metáfora pesadíssima, anunciadora dos novos tempos: um coronel poderoso fora levado ao tribunal do júri e ali condenado por haver matado a própria amante... Em outros tempos era comum a absolvição, fundamentada no argumento de crime passional para lavar a honra... À frente dos negócios da usina, o administrador estudado, não mais o mandonismo autoritário do capitão ou do coronel de patente comprada.
 Momentos de sensualidade crua quase nenhum. O romance do turco Nacib com a cabocla Gabriela se torna na obra elemento para manter o leitor preso à narrativa, porque o ponto fulcral da obra é, exatamente, assinalar as transformações por que passa o país. Embora publicado em 1958, a obra retrata a Ilhéus dos anos 20, tempo histórico de mutações culturais e visível declínio do coronelismo e da sociedade patriarcal...
A duras penas... Se bom ou mau, saiu. Pessoalmente não gostei, não fiquei satisfeito. Vai assim mesmo. O importante é garatujar a folha de papel em diálogo com o mundo e suas variegadas nuanças.
Sigo o conselho do orador romano Cícero: “nenhum dia sem nenhuma linha”. Ou o de Drummond dado a sua filha Julieta: “escreva, escreva sempre, mesmo que não seja para publicar...”
Aí está...


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