TEXTO (com alguma impressão de
leitura)
Hugo Martins
Página em branco. Tortura.
Esterilidade absoluta. Nenhuma ideia. Cascavilho fatos presentes, tempos idos e
vividos. Nada. Lembro-me de Drummond, que, refletindo acerca de esterilidade,
dizia que, muitas vezes, o poema está vivo, pronto para ser parido, mas a mão
teima em não escrever. Essa “luta vã com as palavras”, a que Gustave Flaubert
chamou de “angústia da forma” e Olavo Bilac, no mesmo tom, intitulou um de seus
poemas – Inania Verba – em português, palavras impotentes, também atinge
prosadores. O escritor português, José Maria Eça de Queirós dizia reescrever
uma página cinco, seis, até dez vezes. Na melhor biografia que já se publicou
sobre Machado de Assis, obra de Raimundo Magalhães Júnior, escrita em quatro
volumes, tivemos notícia de que o escritor fluminense, muitas vezes, acordava
para consertar uma vírgula ou fazer algum reparo no texto já escrito. Creio que
essas coisas, que lembram uma saudável obsessão, não só ocorre com escritores,
mas com todos aqueles que se aventuram na busca de representar as coisas do
mundo com a maior fidelidade possível. Mundo e palavra mantêm união
inseparável, ideia acertadamente expressa no neologismo drummondiano: “palavramundo”.
Quanta poeticidade encontrada... O casamento morfossemântico, que deu certo sem
a aliança do hífen... Pois bem.
Aqui estava eu, matraqueando o
teclado, perambulando no mundo das ideias e preambulando o texto a ver se
encontrava algum tema para desenvolver. Nada de nada. No momento em que já ia
desistindo, pululou-me uma ideia pescada de uma leitura que fizera acerca de
crítica e historiografia literária. Com efeito, assustei-me quando o crítico
deu um tropeção na leitura de um livro de Jorge Amado. Tenho especial estima
por esse baiano, que escreve na língua boa do povo, entrelaçando lirismo doce
com sensualidade e telurismo. Toda sua obra tem por cenário a Bahia de
capoeiristas, de malandro e prostitutas românticas; a Bahia dos coronéis, das
lutas pela terra, dos jagunços e das emboscadas.
Ora o crítico afirma,
descuidosamente, que o romance Gabriela, Cravo e Canela envereda pelo picaresco
e pelo sensual. Não é verdade. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos, pode-se pescar
uma boa dosagem de picaresco e de sensualidade a toda prova. Mas essa afirmação
não deve ser aplicada àquele romance aqui referido. Na verdade, Gabriela, Cravo
E Canela deve ser lido depois da leitura, por ordem, de Terras do Sem-Fim e São
Jorge dos Ilhéus. Fazem parte do tema do ciclo do cacau. Se nos dois primeiros,
a classe dos coronéis se encontrava no auge do prestígio e do poder; em
Gabriela, Cravo e Canela, numa bela alegoria, recorrendo à mais fina expressão literária,
Jorge Amado acentua a gradativa queda da instituição coronelística, da mesma
forma que faz José Lins do Rego, no romance Fogo Morto. No escritor paraibano,
a metáfora alegórica já se revela no título do livro. Engenho de fogo morto é o
artesanal, o que só fabrica apenas rapadura, e, por injunção de novos sopros civilizatórios,
cederá lugar á usina. Em Gabriela, Cravo e Canela há uma metáfora pesadíssima,
anunciadora dos novos tempos: um coronel poderoso fora levado ao tribunal do
júri e ali condenado por haver matado a própria amante... Em outros tempos era
comum a absolvição, fundamentada no argumento de crime passional para lavar a
honra... À frente dos negócios da usina, o administrador estudado, não mais o
mandonismo autoritário do capitão ou do coronel de patente comprada.
Momentos de sensualidade crua quase nenhum. O
romance do turco Nacib com a cabocla Gabriela se torna na obra elemento para
manter o leitor preso à narrativa, porque o ponto fulcral da obra é,
exatamente, assinalar as transformações por que passa o país. Embora publicado
em 1958, a obra retrata a Ilhéus dos anos 20, tempo histórico de mutações
culturais e visível declínio do coronelismo e da sociedade patriarcal...
A duras penas... Se bom ou mau, saiu.
Pessoalmente não gostei, não fiquei satisfeito. Vai assim mesmo. O importante é
garatujar a folha de papel em diálogo com o mundo e suas variegadas nuanças.
Sigo o conselho do orador romano
Cícero: “nenhum dia sem nenhuma linha”. Ou o de Drummond dado a sua filha
Julieta: “escreva, escreva sempre, mesmo que não seja para publicar...”
Aí está...
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