sexta-feira, 12 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA - VIII
                                              Hugo Martins
            A voz fina contrastava com a estatura. Aquela lembrava o timbre acutíssimo dos cantores eunucos, os quais eram castrados, não para servir de guarda nos haréns, coisa comum na cultura oriental, mas para manter a voz fina de menino, que contrasta com o timbre grave dos que fazem parte do coro de cantores do canto gregoriano. Não se sabe por que a voz de Zezim do Mucambo deu motivo a que o povo o apelidasse de Tralalá. Quem quisesse vê-lo furioso de jogar pedras e recitar uma montanha de palavrões o chamasse por essa alcunha odiosa. Negro retinto, descendente de escravos, era um varapau, nome que bem designa a pessoa alta e magra. Zezim media, a olho nu, um metro e noventa a dois metros de altura. Delgado como um manequim dos tempos modernos, talvez obtivesse algum êxito em passarelas da moda depois de passar pela alquimia das maquilagens e das encenações da gestualidade comercial no desfilar. Embora ostentasse o que se costuma chamar porte elegante natural, Zezim jamais chegaria àquela condição de boneco de passarela, pois sua indumentária era outra, cujas características o jogavam no rol dos ridículos e dos loucos. Pelos critérios da Psiquiatria, era ele um louco. Literalmente, um louco de pedra.
            Vivia de pés descalços e nu da cintura para cima. Cobria-lhe a nudez um saco de estopa ou de qualquer tecido grosseiro. Abria-lhe dois buracos no fundo, onde enfiava as pernas e o puxava até a altura da cintura. Aqui, cingia a boca do saco com uma corda à moda cinto. Vinha pouco à cidade, geralmente aos sábados, dia de feira grande. Era homem de poucas palavras, e seu semblante fechado metia medo às crianças. Passar pela feira ou pelo mercado a esta contíguo era para ele uma temeridade, pois a maldade do povo, pressentindo a presença do pobre homem, ensaiava um coro de tralalás e tralalás e tralalás, que, não é difícil intuir, deveria provocar em sua alma irresistível e torturante angústia. Para desse sofrimento se livrar só lhe restavam duas alternativas: o desfilar de palavrões de toda ordem como sói acontecer aos loucos de aldeias quando se veem atormentados; ou lançar mão de pedras e arremessá-las em direção do local de onde partiam os insultos. Em seguida, ele punha as mãos em concha sobre as oiças e saía correndo rumo ao açude onde procurava paz e sossego. Era ali o seu retiro.
            Embora corressem muitas histórias escabrosas envolvendo a figura de Zezim, algumas impublicáveis, entrego o tributo narrativo à imaginação criativa e perversa do poviléu. Zezim era gente que inspirava imensa piedade. Tinha eu por ele um certo respeito silencioso, misto de temor e impotência por não poder protegê-lo... Habita ele minhas lembranças, figurando no elenco de loucos que deambulavam pelas ruas de Itapipoca no tempo de minha infância.
            Debuxar o portrait de Frei Sabugo. Zé Galdino, Antonio Mandioca, Ovídio e Cangalha é malhar em ferro frio e gastar tinta em vão. A todos conheci nas ruas e praças. Tenho gravado na retina a maneira de ser de cada um. Não são muito diferentes.  Fazem parte do time de Zezim e Pinta-Cega: lunáticos sobre quem a sociedade despeja suas neuroses e a eles dispensa tratamento, empanturrando-lhes de drogas, isolando-os em prisões de altos muros ou deles se servindo para cevar o próprio sadismo.
               Uma coisa é certa: aquela turma, hoje, seria imbatível na difícil arte de caçar Pokémons. Por outro lado, é possível, também, que o cérebro de cada um poderia sofrer preocupantes reveses...  É a valha questão da relatividade de tudo. Hoje seriam considerados normais pela ciência dos estudiosos da alma humana (não se estranhe o adjetivo, Aristóteles atribuía alma aos irracionais, ao reino vegetal e ao reino mineral).
               Que não se tire a razão Dr. Simão Bacamarte, no conto O Alquimista, que se antecipou às modernas teses da Psiquiatria dos tempos hodiernos...
           

            

Nenhum comentário:

Postar um comentário