FIAPOS DA MEMÓRIA - VIII
Hugo Martins
A voz fina
contrastava com a estatura. Aquela lembrava o timbre acutíssimo dos cantores
eunucos, os quais eram castrados, não para servir de guarda nos haréns, coisa
comum na cultura oriental, mas para manter a voz fina de menino, que contrasta
com o timbre grave dos que fazem parte do coro de cantores do canto gregoriano.
Não se sabe por que a voz de Zezim do Mucambo deu motivo a que o povo o
apelidasse de Tralalá. Quem quisesse vê-lo furioso de jogar pedras e recitar
uma montanha de palavrões o chamasse por essa alcunha odiosa. Negro retinto,
descendente de escravos, era um varapau, nome que bem designa a pessoa alta e
magra. Zezim media, a olho nu, um metro e noventa a dois metros de altura.
Delgado como um manequim dos tempos modernos, talvez obtivesse algum êxito em
passarelas da moda depois de passar pela alquimia das maquilagens e das
encenações da gestualidade comercial no desfilar. Embora ostentasse o que se
costuma chamar porte elegante natural, Zezim jamais chegaria àquela condição de
boneco de passarela, pois sua indumentária era outra, cujas características o
jogavam no rol dos ridículos e dos loucos. Pelos critérios da Psiquiatria, era
ele um louco. Literalmente, um louco de pedra.
Vivia de pés
descalços e nu da cintura para cima. Cobria-lhe a nudez um saco de estopa ou de
qualquer tecido grosseiro. Abria-lhe dois buracos no fundo, onde enfiava as
pernas e o puxava até a altura da cintura. Aqui, cingia a boca do saco com uma
corda à moda cinto. Vinha pouco à cidade, geralmente aos sábados, dia de feira
grande. Era homem de poucas palavras, e seu semblante fechado metia medo às
crianças. Passar pela feira ou pelo mercado a esta contíguo era para ele uma
temeridade, pois a maldade do povo, pressentindo a presença do pobre homem,
ensaiava um coro de tralalás e tralalás e tralalás, que, não é difícil intuir,
deveria provocar em sua alma irresistível e torturante angústia. Para desse
sofrimento se livrar só lhe restavam duas alternativas: o desfilar de palavrões
de toda ordem como sói acontecer aos loucos de aldeias quando se veem
atormentados; ou lançar mão de pedras e arremessá-las em direção do local de
onde partiam os insultos. Em seguida, ele punha as mãos em concha sobre as
oiças e saía correndo rumo ao açude onde procurava paz e sossego. Era ali o seu
retiro.
Embora
corressem muitas histórias escabrosas envolvendo a figura de Zezim, algumas
impublicáveis, entrego o tributo narrativo à imaginação criativa e perversa do poviléu.
Zezim era gente que inspirava imensa piedade. Tinha eu por ele um certo
respeito silencioso, misto de temor e impotência por não poder protegê-lo... Habita
ele minhas lembranças, figurando no elenco de loucos que deambulavam pelas ruas
de Itapipoca no tempo de minha infância.
Debuxar o
portrait de Frei Sabugo. Zé Galdino, Antonio Mandioca, Ovídio e Cangalha é
malhar em ferro frio e gastar tinta em vão. A todos conheci nas ruas e praças.
Tenho gravado na retina a maneira de ser de cada um. Não são muito
diferentes. Fazem parte do time de Zezim
e Pinta-Cega: lunáticos sobre quem a sociedade despeja suas neuroses e a eles
dispensa tratamento, empanturrando-lhes de drogas, isolando-os em prisões de
altos muros ou deles se servindo para cevar o próprio sadismo.
Uma coisa é certa: aquela turma, hoje, seria
imbatível na difícil arte de caçar Pokémons. Por outro lado, é possível,
também, que o cérebro de cada um poderia sofrer preocupantes reveses... É a valha questão da relatividade de tudo.
Hoje seriam considerados normais pela ciência dos estudiosos da alma humana
(não se estranhe o adjetivo, Aristóteles atribuía alma aos irracionais, ao
reino vegetal e ao reino mineral).
Que não se tire a razão Dr. Simão Bacamarte,
no conto O Alquimista, que se antecipou às modernas teses da Psiquiatria dos
tempos hodiernos...
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