FIAPOS DA MEMÓRIA – IV
Hugo Martins
Esqueceu-me
dizer que se ajuntava ao nome do senhor Jacó o aposto “faz tudo”. Afinal era
ele, nos seus sonhos, devaneios e impulsos, cavaleiro intimorato, disposto a
enfrentar qualquer desafio desde que seu nome e sua fama tivessem que ser decantadas
nas cordas febris de algum trovador tresloucado ou algum menestrel sonhador.
Não seria difícil a estes desvendar temas e vasculhar assuntos em que a figura
do senhor Jacó Faz Tudo se avantajasse em proezas épicas, dignas de se
revelarem até mesmo nas canções de gesta em que sua bravura e seu destemor
fossem o sinal revelador de um herói dos novos tempos... Quando as histórias e
“causos” eclodiam de seu espírito bravateiro, o mundo se transmutava, e quem
fizesse parte da assistência fulminada por seus relatos se rendia à grandeza e
à heroicidade de tão simpático histrião. Ainda assim, nenhuma gargalhada
desdenhosa era permitida, tampouco algum risinho malandro ou cético poderia
ostentar pouco caso à seriedade de narrador tão singular. Os “causos” eram
muitos, e a arte com que eram apresentados enveredava pelos meandros da
aceitabilidade coletiva de quem se divertia com narrativas tão inverossímeis.
Mas a maldade humana, sádica e impenetrável em suas imutáveis nuanças
psicológicas, revelava-se paciente, ponderável e condescendente com a
simpática, tolerável e aceitável alienação, desde que do outro. E desse modo,
seu Jacó Faz Tudo ia alimentando sua vaidade de mitômano, mergulhado na vã ilusão
de que estaria agradando àqueles que dele, silenciosa e malvadamente,
mofavam... O importante era ser feliz, e dar-se ares de grande importância a si
mesmo era a forma mais plausível que este “cavaleiro de triste figura”
aquietava seu ego sequioso por glórias e famas que se esgarçavam e sumiam na
atmosfera feérica dos cérebros doentios... Ainda assim, seus “causos”, tisnados
de mistura épico-lírica, agradavam e faziam ir os circunstantes, que ficavam
convencidos de que eram sãos da bola, afinal o homem avalia seu equilíbrio
colocando seu comportamento e suas visões de mundo em confronto com o outro.
Mas deixemos essa mania de psicologismo barato e ouçamos
outra narrativa da lavra de seu Jacó Faz Tudo. Estamos aqui para isso. Estamos
em Itapipoca. Estamos na feira, cenário ideal para se dar vazão a toda espécie
de ímpetos narrativos. Burburinho de gente, vozerio e pregões, mistura de
odores de toda sorte, brincadeiras e chistes numa manhã ensolarada de um sábado
amarelo. Seu Jacó Faz Tudo sentado num velho escabelo, manejando o cutelo,
picava fumo de rolo na palma da mão. Algumas pessoas se acercaram e por ali
foram ficando. Alimentavam a certeza de que o rapsodo caboclo se preparava para
tecer mais uma narrativa... Os minutos
corriam e, dentro em pouco, seu Jacó já soltava largas baforadas... Depois de
algum tempo, a “assistência” ia tomando forma, seu Jacó pigarreou, e alguém
perguntou se “não haveria alguma história a ser contada”... Seu Jacó permanecia
sentado no seu tamborete, fleumático e pouco preocupado com o que ia pelo mundo,
voltado tão só para a satisfação de chupar seguidas vezes o “pé-duro”, mas
também antegozando os efeitos que a história do dia iria provocar no espírito
das pessoas. Jogou fora a bagana, temperou a garganta, olhou os ouvintes e
abriu as comportas da imaginação.
Começou por
dizer que tinha grande gosto em caçar marrecas, aqueles anatídeos de pequeno
porte que se deixam ficar na água de açudes e lagoas como cisnes matutos,
boiando placidamente... “Pois bem,” dizia o velho contador de histórias, “a
semana passada, preparei espingarda, pólvora e chumbinho e me danei para o
açude da Nação em companhia de meu filho Abrahão... Este me servia de
adjutório, pois era ele que ia recolhendo as marrecas que eu abatia. Não que eu
matasse as bichinhas, não, apenas atirava por sobre suas cabecinhas de maneira
que elas desmaiassem... Isso feito, meu filho as apanhava, amarrava-lhe as pernas
e pendurava-as numa embira da palma de ouricuri, que trazia à moda cinto
amarrada na cintura. Dia bom... A cada disparo, eram três a quatro marrecas
desmaiadas na parte rasa do açude. Abrahão não contava pipoca e continuava sua
faina de pendurar as aves no cós... Daquele lado, já não havia mais o que
fazer. Afastei-me alguns passos e avistei por trás de uma grande moita outro
amontoado de marrecas. Abaixei-me, apoiei o cabo da espingardinha no ombro e
mandei fogo... Tiro e queda: mais marrequinhas desmaiadas. Satisfeito, virei-me
para meu filho, esperando que corresse a apanhar as avezinhas e não o vi...
Ouvi um grito vindo do alto dos céus. Era meu filho, Ícaro involuntário, sendo
levado pelas marrecas que haviam acordado... Gritava ele: “pai, que faço eu?”.
Gritei: “meu filho, é o jeito ir quebrando o pescoço de cada uma para que você
possa aterrissar. Momento contínuo, tomei o caminho de casa, entrei de roldão,
não dei ouvidos a ninguém e me botei para o quintal. Pouco depois, graças ao
bom Deus, meu filho querido ia colocando os pés no chão...”
Um gaiato
gritou do meio do povaréu: “seu Jacó, e quando o senhor acordou?
O velho rebateu: “eu voltei a comer tua
mãe, cabra safado!!”
A gargalhada geral estrondou e o pano
caiu...
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