FIAPOS DA MEMÓRIA – X
Hugo Martins
Ensaiei
fuçar os arquivos da memória a ver se por lá encontrava alguém ou algum fato
que me servisse, um ou outro, de pasto para garatujar a folha em branco (no
momento, indiferente e inerte) nessa faina a que me entreguei de recuperar um
tempo de há muito ido e doído e fixá-lo em forma de retrato bafejado pela marca
indelével dos momentos fugidios, esfumaçados como pinturas impressionistas. Nos
dias anteriores, sentava-me à mesa e batia cadenciadamente no teclado à medida
que as ideias iam assumindo lume próprio. Hoje ninguém ou coisa alguma me vem à
mente. Por isso, agora, recorro à técnica de escrever no estilo palavra puxa
palavra na esperança de que o assunto, num átimo, tome corpo. Epa! Pronto! Libertei-me da angústia, ele apareceu, e,
agora mesmo, vejo, com nitidez, sua figura romântica rodeada de pessoas que lhe
admiravam a arte. Vicente Cego ponteava a viola e, com voz marcadamente lamentosa,
enchia o ar de tristeza embora a manhã estivesse grávida de sol radiante, e as
pessoas, que passavam presas a preocupações, pareciam dar gracias a la vida.
Algumas não resistiam, juntavam-se à roda em torno do cego cantador.
O caminho do
mercado para minha casa era longo. Lá vinha o menino de calças curtas e
suspensórios, arrastando as apragatas de rabicho. Trazia pendurados numa embira
dois quilos de carne há pouco comprados. Eram para o almoço. Longo era o
caminho entre o mercado e sua casa e, entre um e outro, estava Vicente Cego. Dali,
na calçada da igreja matriz, partiam acordes de viola acompanhando a voz
melancólica. O menino não resistiu. Estacou e deixou-se ficar embalado por
Sertaneja, Ontem ao Luar, A Deusa da Minha Rua... Terminada a execução de uma
música, o cego fazia uma pausa para ouvir o tilintar que lhe caía na bacia. O
menino ficou a olhar admirado para o cego. Chapelão na cabeça bem torneada e os
indefectíveis óculos escuros. Bem apessoado, vestido com o esmero dos matutos
daquele tempo, Vicente era homem de altura mediana. Vestia calças e camisa de
mescla, esta enfiada no cós. Basta cabeleira e bigodes de ponta torcida,
lembrava o cantor cubano Bievenido Granda. Depois de breve intervalo, dedilhou
o bordão e a prima em busca de um tom. A voz saiu cheia, entre grave e aguda,
misto de tenor com soprano... “O maior golpe do mundo/ Que tive na minha vida/
Foi quando com nove anos/ Perdi minha mãe querida/ Morreu queimada no
fogo/Morte triste dolorida/Que fez a minha mãezinha/Dar o adeus da
despedida...” Era o sucesso do compositor gaúcho Teixeirinha. Coração de luto.
Para o povo, Churrasco de Mãe. Muitos dos presentes enchiam os olhos d´água...
E o menino ali, extasiado com a performance do cego cantador.
Já ia alto o
sol. O menino, com a carne pendurada no dedo, sentou-se numa pedra próxima, não
tirava os olhos do cego. De repente, sentiu uma lanhada fina no espinhaço. Era
uma cipoada que levara da mãe, que ainda o segurou pelas orelhas e saiu
arrastando-o para casa. O almoço naquele dia ia sair atrasado. Ainda deu para
ouvir “Passei frio, passei fome/ Por este mundo perdido...” O menino se sentiu
injustiçado por ter sido interrompido no sublime momento da contemplação
artística, marcada pela voz inesquecível daquele cego feiticeiro e pelo som
dolente de violão que chora...
Vicente Cego
ainda mora nos escaninhos da minha mente. Faz parte do meu universo mágico ao tempo
em que tinha eu nove anos de idade...
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