FIAPOS DE MEMÓRIA
Hugo Martins
1954. Tinha eu
seis anos incompletos. Meu pai morrera no dia cinco de março, deixando à
família, como dizia minha mãe, o espólio de uma casa, doze filhos, com idade
entre vinte anos, caso da filha mais velha, e nove meses, caso da filha mais
nova, bem como um pote cheio d´água. Pouca coisa me resta na lembrança desse
dia aziago. Muita gente na sala e no alpendre; no quarto contíguo, uma cama,
nela meu pai se encontrava imóvel, vestido com uma calça cáqui e estava com a
boca aberta. Acho que, depois, alguém teve o cuidado de passar-lhe um lenço sob
o queixo e amarrar este no alto da cabeça. Forma de impedir que a boca
continuasse aberta. Aquele quadro fixou-se como tatuagem macabra no meu cérebro
ainda pouco desenvolvido. Quanta a mim, proferia, chorando: “nós agora não
vamos nunca mais comer.” Era o medo de perder a mão da sobrevivência, tão
radicada na história de sociedades em que o provimento da casa tocava ao pai.
Não é isso de todo verdade, pois minha mãe tinha uma cadeira no magistério
estadual. Dava aulas na sua própria casa. Pedagogia da época.. Ao fim da tarde,
vi um féretro de cor negra sair da casa, sustentado por homens. Depois,
instalou-se o silêncio e minha solidão de menino. Minha mãe mandou para casa de
amigos os filhos pequenos. Nada mais me vem à lembrança daquele dia.
Até os meus e dez anos, morei na
cidade de Itapipoca. Cidade provinciana, suas ruas ressentiam-se de calçamento.
Ficava entre serras. Da calçada de nossa casa, avistávamos picos que mais
pareciam vulcões. Em frente à casa, costumávamos jogar futebol com bolas de
meia. Os tempos eram outros, a sociedade de consumo ainda não chegara por lá.
Nossos folguedos resumiam-se às peladas na areia aos corre-corres entre mata-pastos
e, á noite, quando não brincávamos de pega-pega, sentávamos na calçada para
ouvir histórias de trancoso e de almas doutro mundo, contadas pela maestria de
Maria Luísa do Totó, uma negra, espécie de mucama de outros tempos, que
costumava ajudar minha mãe nas tarefas caseiras. Nas férias escolares,
tomávamos banhos no açude da Nação, em cujas águas, dizia-se, habitava uma
cobra de veado, que minha imaginação emprestava tamanho incomensurável. À
noite, ouvíamos a voz do açude, que parecia gemer, como a chamar os incautos a
se aventurar nas suas águas escuras e profundas.
Lembro ter sido alfabetizado por
minha mãe. Depois, fui matriculado na escola de Dona Ângela, que ficava por
trás da igreja matriz. Na entrada da casa, um pé de bogari exalava um cheiro
adocicado, que se instalou na minha lembrança e dela não mais saiu. Toda vez
que, não importa onde, experimento aquele olor mágico, num mergulho proustiano,
revisito a escolinha de Dona Ângela. Esta era uma senhora já entrada na idade.
Sua palmatória não me metia medo. Era eu comportado e cumpria meus deveres
escolares. Assim, iniciei minha vida intelectual sem grandes transtornos.
À noite, costumava acompanhar
minha mãe. Ia com ela à casa das amigas com quem costumava conversar e trocar
romances, palavra ainda mágica para mim. Outras vezes, íamos para a pracinha em
frente à igreja matriz, onde passeavam jovens aos bandos, ensaiando tímidos
flertes... Na calçada da igreja, ouvia-se a bandinha da cidade a entoar hinos e
dobrados, sob a batuta de um senhor chamado maestro Marquim. Em tempo de festas
dos santos padroeiros, o pipocar dos foguetes me apavorava, mas eu suportava
bravamente. Ninguém sabia do meu terror. Por isso, nessas horas, estreitava-me
em minha mãe. Ali era meu porto seguro. Nas missas, ficava maravilhado com as
crianças vestidas de anjo, todos risonhos, na parte mais alta do altar. Também
me encantava o canto do coro, daquelas vozes misteriosas acompanhadas do som
soturno de um órgão que eu não via. Quando entrava na igreja, sempre olhava para
o lado direito, onde jazia uma estátua do Senhor morto, dentro de uma redoma de
vidro que, ora estava fechada, ora se encontrava aberta. Não sei por que, mas
ela me metia medo. Um dia, alguém colocou uma moeda na mão da estátua. Uma das
minhas irmãs de lá retirou a moeda de quinhentos réis, dizendo que um senhor
deitado na igreja estendera a mão e lhe dera a moeda. Minha mãe ouviu a
história cochichada e, na severidade de sua pedagogia, mandou que a filha
voltasse e colocasse de volta na mão referida a moeda ingenuamente surripiada.
Dessa época, pouco me ficou na
cachola. Só sei que vivi ali naquela cidade até os dez anos de idade. Vi
procissões, vi treinos de soldado marchando, tendo á frente um sargento de nome
Carlos, marchando garboso á frente de seus comandados sob o som de
Saudades de Minha Terra, hino cantado pelos expedicionários nas campanhas pela
Itália. Lembro-me da pracinha em frente á igreja matriz onde crianças pedalavam
as bicicletas. Eu só olhava. Nunca aprendi a pedalar uma bicicleta. Ainda hoje
disso me ressinto. Recordo uma menina loura, com uma fita no cabelo, rodopiando
pela pracinha. Eu olhava-a embevecido. Acho até mesmo que por ela desenvolvi
uma paixão platônica. Ela me ignorava sem saber que meu coração ficava aos
pulos quando ela passava por mim. Interessante que o tempo transcorreu, e a
imagem daquela menina nunca saiu dos meus arquivos mentais. Esse foi um tempo
de que restaram esgarçados fiapos na memória. Hoje tento relembrar outros
episódios. Não adianta, tudo se foi...
Nenhum comentário:
Postar um comentário