terça-feira, 2 de agosto de 2016

FIAPOS DE MEMÓRIA
                                              Hugo Martins


1954. Tinha eu seis anos incompletos. Meu pai morrera no dia cinco de março, deixando à família, como dizia minha mãe, o espólio de uma casa, doze filhos, com idade entre vinte anos, caso da filha mais velha, e nove meses, caso da filha mais nova, bem como um pote cheio d´água. Pouca coisa me resta na lembrança desse dia aziago. Muita gente na sala e no alpendre; no quarto contíguo, uma cama, nela meu pai se encontrava imóvel, vestido com uma calça cáqui e estava com a boca aberta. Acho que, depois, alguém teve o cuidado de passar-lhe um lenço sob o queixo e amarrar este no alto da cabeça. Forma de impedir que a boca continuasse aberta. Aquele quadro fixou-se como tatuagem macabra no meu cérebro ainda pouco desenvolvido. Quanta a mim, proferia, chorando: “nós agora não vamos nunca mais comer.” Era o medo de perder a mão da sobrevivência, tão radicada na história de sociedades em que o provimento da casa tocava ao pai. Não é isso de todo verdade, pois minha mãe tinha uma cadeira no magistério estadual. Dava aulas na sua própria casa. Pedagogia da época.. Ao fim da tarde, vi um féretro de cor negra sair da casa, sustentado por homens. Depois, instalou-se o silêncio e minha solidão de menino. Minha mãe mandou para casa de amigos os filhos pequenos. Nada mais me vem à lembrança daquele dia.

Até os meus e dez anos, morei na cidade de Itapipoca. Cidade provinciana, suas ruas ressentiam-se de calçamento. Ficava entre serras. Da calçada de nossa casa, avistávamos picos que mais pareciam vulcões. Em frente à casa, costumávamos jogar futebol com bolas de meia. Os tempos eram outros, a sociedade de consumo ainda não chegara por lá. Nossos folguedos resumiam-se às peladas na areia aos corre-corres entre mata-pastos e, á noite, quando não brincávamos de pega-pega, sentávamos na calçada para ouvir histórias de trancoso e de almas doutro mundo, contadas pela maestria de Maria Luísa do Totó, uma negra, espécie de mucama de outros tempos, que costumava ajudar minha mãe nas tarefas caseiras. Nas férias escolares, tomávamos banhos no açude da Nação, em cujas águas, dizia-se, habitava uma cobra de veado, que minha imaginação emprestava tamanho incomensurável. À noite, ouvíamos a voz do açude, que parecia gemer, como a chamar os incautos a se aventurar nas suas águas escuras e profundas.

Lembro ter sido alfabetizado por minha mãe. Depois, fui matriculado na escola de Dona Ângela, que ficava por trás da igreja matriz. Na entrada da casa, um pé de bogari exalava um cheiro adocicado, que se instalou na minha lembrança e dela não mais saiu. Toda vez que, não importa onde, experimento aquele olor mágico, num mergulho proustiano, revisito a escolinha de Dona Ângela. Esta era uma senhora já entrada na idade. Sua palmatória não me metia medo. Era eu comportado e cumpria meus deveres escolares. Assim, iniciei minha vida intelectual sem grandes transtornos.
À noite, costumava acompanhar minha mãe. Ia com ela à casa das amigas com quem costumava conversar e trocar romances, palavra ainda mágica para mim. Outras vezes, íamos para a pracinha em frente à igreja matriz, onde passeavam jovens aos bandos, ensaiando tímidos flertes... Na calçada da igreja, ouvia-se a bandinha da cidade a entoar hinos e dobrados, sob a batuta de um senhor chamado maestro Marquim. Em tempo de festas dos santos padroeiros, o pipocar dos foguetes me apavorava, mas eu suportava bravamente. Ninguém sabia do meu terror. Por isso, nessas horas, estreitava-me em minha mãe. Ali era meu porto seguro. Nas missas, ficava maravilhado com as crianças vestidas de anjo, todos risonhos, na parte mais alta do altar. Também me encantava o canto do coro, daquelas vozes misteriosas acompanhadas do som soturno de um órgão que eu não via. Quando entrava na igreja, sempre olhava para o lado direito, onde jazia uma estátua do Senhor morto, dentro de uma redoma de vidro que, ora estava fechada, ora se encontrava aberta. Não sei por que, mas ela me metia medo. Um dia, alguém colocou uma moeda na mão da estátua. Uma das minhas irmãs de lá retirou a moeda de quinhentos réis, dizendo que um senhor deitado na igreja estendera a mão e lhe dera a moeda. Minha mãe ouviu a história cochichada e, na severidade de sua pedagogia, mandou que a filha voltasse e colocasse de volta na mão referida a moeda ingenuamente surripiada.
Dessa época, pouco me ficou na cachola. Só sei que vivi ali naquela cidade até os dez anos de idade. Vi procissões, vi treinos de soldado marchando, tendo á frente um sargento de nome Carlos, marchando garboso á frente de seus comandados sob o   som de Saudades de Minha Terra, hino cantado pelos expedicionários nas campanhas pela Itália. Lembro-me da pracinha em frente á igreja matriz onde crianças pedalavam as bicicletas. Eu só olhava. Nunca aprendi a pedalar uma bicicleta. Ainda hoje disso me ressinto. Recordo uma menina loura, com uma fita no cabelo, rodopiando pela pracinha. Eu olhava-a embevecido. Acho até mesmo que por ela desenvolvi uma paixão platônica. Ela me ignorava sem saber que meu coração ficava aos pulos quando ela passava por mim. Interessante que o tempo transcorreu, e a imagem daquela menina nunca saiu dos meus arquivos mentais. Esse foi um tempo de que restaram esgarçados fiapos na memória. Hoje tento relembrar outros episódios. Não adianta, tudo se foi...



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