quinta-feira, 4 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA III
                                                                      Hugo Martins
            E lá vou eu na minha jornada de tempos idos, buscando flagrar acontecimentos e pessoas que permanecem, ainda que envoltas nas névoas do tempo, indeléveis, nas esquinas e becos da memória. Tipos para mim imorredouros, espécies de tatuagens que até agora permanecem nos refolhos das lembranças como negativos de velhas fotografias envelhecidas e carcomidas pelo vírus do tempo... Mitômanos, loucos, vaidosos, arteiros, observadores, comentadores da vida alheia, uma vasta galeria de seres com suas peculiaridades e humana graça, todos aqui debuxados pela maior fidelidade possível pela pena (ou dedos) de quem intenta, aqui, dar-lhes algum sopro de vida...
            Conhecia-o das grandes rodas que se lhe faziam em torno para escutar-lhe os “causos”. Cada qual mais escabroso... Mais tarde, já adulto e dado ao trato com a ficção literária, comparei-o com um tipo-personagem do folclore nacional, pintado pelo povo e eternizado na prosa eternamente clássica e estilisticamente equilibrada do romancista alagoano Graciliano Ramos. Trata-se de Alexandre, figura central da obra Alexandre e Outros Heróis, mais tarde levada aos programas televisivos pelo humorista Chico Anísio, que lhe trocou o nome, apodando-o de Pantaleão. Acentue-se que o criador de Vidas Secas, antes de começar a narrar as proezas de Alexandre, faz ver ao leitor, numa espécie de apresentação da obra, que todas as histórias nesta narradas pertencem ao povo. Diz ele que apenas lhe deu feição literária. Honestidade intelectual?
            Pois bem, o Alexandre de minha infância, a quem eu costumava ouvir naquelas rodas, receberá deste narrador o nome de Jacó. Razão: evitar ferir a suscetibilidade de seus familiares, alguns ainda viventes de Itapipoca...
            Estatura mediana, visível magreza, trazia na cabeça velho chapéu de palha, cuja parte posterior, sempre arrepanhada para trás, deixava à mostra a larga testa e algumas falripas de cabelos gizados pelo tempo. No rosto ossudo e chupado, as sobrancelhas acentuavam os olhos arregalados e desconfiados, sob os quais grandes rugas se abriam e se espraiavam na carantonha velhusca. Sua indumentária não mudava: era a mesma calça azul de mescla, cobrindo-lhe o tronco uma camisa de riscado de mangas compridas. Nos pés, alpargatas de rabicho, feitas de couro cru, não lhe escondiam os pés maltratados e encardidos, de unhas rachadas e sujas... Sempre trazia entre os dedos um cigarro de palha ou enrolado em papel Colomy. Vez por outra, virava o pescoço e cuspinhava antes de iniciar aa histórias, que, aliás, eram muitas. Todas marcadas pela imaginação fantasiosa de quem não aceita o mundo como se acha organizado. Por isso, seu Jacó sempre se coloca como seu principal personagem... Vejamos um episódio.
            Conta ele que, vindo certa feita do açude Poço Verde, que fica a seis quilômetros de Itapipoca, chegando à estrada de barro batido, entregou-se às reflexões no ritmo do chouto de seu cavalinho melado, quando, de súbito, foi despertado pela advertência do filho Abrahão: “olha, pai, o tempo tá fechando...” “É chuva muita”. Seu Jacó segurou as rédeas na mão esquerda, empunhou o chicote na direita, esporeou o animal, que, ao contrário do Rocinante do “cavaleiro da triste figura”, riscou em disparada carreira. Diz seu Jacó que pegou parelha com a malsinada chuva. A disputa só terminou quando o bravo cavalinho se abrigou, rapidamente, no copiá da casa, enquanto a chuva passava impunemente. Seu Jacó chegou totalmente enxuto. Só seu filho Abrahão e a garupa do cavalo estavam molhados.
            Ai de quem risse...
           
             
           

            

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