FIAPOS DA MEMÓRIA III
Hugo Martins
E lá vou eu
na minha jornada de tempos idos, buscando flagrar acontecimentos e pessoas que
permanecem, ainda que envoltas nas névoas do tempo, indeléveis, nas esquinas e
becos da memória. Tipos para mim imorredouros, espécies de tatuagens que até
agora permanecem nos refolhos das lembranças como negativos de velhas
fotografias envelhecidas e carcomidas pelo vírus do tempo... Mitômanos, loucos,
vaidosos, arteiros, observadores, comentadores da vida alheia, uma vasta
galeria de seres com suas peculiaridades e humana graça, todos aqui debuxados
pela maior fidelidade possível pela pena (ou dedos) de quem intenta, aqui, dar-lhes
algum sopro de vida...
Conhecia-o
das grandes rodas que se lhe faziam em torno para escutar-lhe os “causos”. Cada
qual mais escabroso... Mais tarde, já adulto e dado ao trato com a ficção literária,
comparei-o com um tipo-personagem do folclore nacional, pintado pelo povo e
eternizado na prosa eternamente clássica e estilisticamente equilibrada do
romancista alagoano Graciliano Ramos. Trata-se de Alexandre, figura central da
obra Alexandre e Outros Heróis, mais tarde levada aos programas televisivos
pelo humorista Chico Anísio, que lhe trocou o nome, apodando-o de Pantaleão.
Acentue-se que o criador de Vidas Secas, antes de começar a narrar as proezas
de Alexandre, faz ver ao leitor, numa espécie de apresentação da obra, que
todas as histórias nesta narradas pertencem ao povo. Diz ele que apenas lhe deu
feição literária. Honestidade intelectual?
Pois bem, o
Alexandre de minha infância, a quem eu costumava ouvir naquelas rodas, receberá
deste narrador o nome de Jacó. Razão: evitar ferir a suscetibilidade de seus
familiares, alguns ainda viventes de Itapipoca...
Estatura
mediana, visível magreza, trazia na cabeça velho chapéu de palha, cuja parte
posterior, sempre arrepanhada para trás, deixava à mostra a larga testa e
algumas falripas de cabelos gizados pelo tempo. No rosto ossudo e chupado, as
sobrancelhas acentuavam os olhos arregalados e desconfiados, sob os quais
grandes rugas se abriam e se espraiavam na carantonha velhusca. Sua
indumentária não mudava: era a mesma calça azul de mescla, cobrindo-lhe o
tronco uma camisa de riscado de mangas compridas. Nos pés, alpargatas de
rabicho, feitas de couro cru, não lhe escondiam os pés maltratados e encardidos,
de unhas rachadas e sujas... Sempre trazia entre os dedos um cigarro de palha
ou enrolado em papel Colomy. Vez por outra, virava o pescoço e cuspinhava antes
de iniciar aa histórias, que, aliás, eram muitas. Todas marcadas pela
imaginação fantasiosa de quem não aceita o mundo como se acha organizado. Por
isso, seu Jacó sempre se coloca como seu principal personagem... Vejamos um episódio.
Conta ele
que, vindo certa feita do açude Poço Verde, que fica a seis quilômetros de Itapipoca,
chegando à estrada de barro batido, entregou-se às reflexões no ritmo do chouto
de seu cavalinho melado, quando, de súbito, foi despertado pela advertência do
filho Abrahão: “olha, pai, o tempo tá fechando...” “É chuva muita”. Seu Jacó
segurou as rédeas na mão esquerda, empunhou o chicote na direita, esporeou o
animal, que, ao contrário do Rocinante do “cavaleiro da triste figura”, riscou
em disparada carreira. Diz seu Jacó que pegou parelha com a malsinada chuva. A
disputa só terminou quando o bravo cavalinho se abrigou, rapidamente, no copiá
da casa, enquanto a chuva passava impunemente. Seu Jacó chegou totalmente
enxuto. Só seu filho Abrahão e a garupa do cavalo estavam molhados.
Ai de quem
risse...
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