FIAPOS DA MEMÓRIA – VII
Hugo Martins
Eles não viviam numa casa de orates,
como na cidade de Itaguaí, onde viveu o Dr. Simão Bacamarte, “o maior médico do
Brasil, de Portugal e das Espanhas”, criação magistral do gênio machadiano, um
certo homem de letras carioca, que parece defender a tese humorística, mas epistemicamente
válida, de que todo homem se encontra assentado na tênue e invisível linha que
demarca, de um a lado, a lucidez; e, do outro, o da loucura. Estar de um lado
ou de outro “é uma questão prenhe de outras questões...”
Em Itapipoca
havia muitos deles, a quem as pessoas “normais” apontavam o dedo como se
aqueles fossem bodes expiatórios sobre os quais se despejavam as neuroses,
frustrações, zangas e raivas cotidianas. Às vezes, serviam, também, de objetos
de chistes e mangoças. Para que casa de orates? Viviam soltos nas ruas, feiras
e praças a servir de motivo de divertimento para o populacho, que os incitava a
dizer palavrões, a jogar pedras e a correr, como a fugir, em súbita disparada,
como espicaçados por dolorosa angústia de que não podiam se desvencilhar.
Itapipoca,
como outras cidades da época, possuía seus doidos oficiais, figuras humanas
encontradiças nas obras de arte, em biografias ou em páginas da grande
literatura, tipos diferenciados pela maneira como encaram o mundo,
reinventando-o como fazem duas outras figuras singulares: a criança e o
artista. Aliás, há quem diga que o mundo só é suportável quando envolto nas
luzes feéricas da ficção, do faz de conta, do era uma vez... O mundo de Alice,
do Quixote, de Rubião e Quincas Borba; o mundo de Peter Pan, de Emília e o
mundo de desespero eloquente e mudo de Vicent Van Gogh. Mundo de sonhos,
maravilhamento e invenções, que, recebendo o influxo do pó mágico de
pirlimpimpim, reveste-se, dialeticamente, das alegrias e dores do mundo.
Um daqueles
lunáticos me está bem vívido na memória: a Pinta-Cega. Mulata meã, de braços roliços, pernas tortas
de quem viveu sempre montada num barril, trazia os pés maltratados esparramados
no chão. Sempre portava a mesma saia rodada estampada de flores e supinamente
encardida. Os cabelos, quase pixains, invariavelmente amarrados à moda
rabo-de-cavalo desajeitado, acentuavam a larga testa sob a qual, emoldurado por
larga sobrancelha, um dos olhos trazia a pálpebra arriada, daí o apelido que
lhe sapecaram... Queriam vê-la furiosa?
bastava algum gaiato maldoso gritar e estirar o grito:
Pintaceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeega!!! Os palavrões de toda ordem vinham aos
borbotões. Variavam de filho-de-puta a baitola, com as variantes veado, corno,
fii di rapariga, todos enfileirados na sinfonia teatral em contraponto com
gargalhadas e apupos... Alimentava
antipatia toda especial por um sujeito de nome João Barroso, que, mesmo não
estando presente, era duramente verberado com aqueles palavrões cabeludos ou
mimoseado com versos que traduziam ódio mortal e clara intenção de punir. Quando alguém ousava soletrar o apelido, ela,
prontamente, punha as mãos na cintura e, tal uma declamadora de teatro de alto
coturno, recitava, emprestando vida plástica a cada verso proferido, assim
dizendo:
O
negro João Barroso
É
um negro sem-vergonha.
Eu
ainda pego os ovos dele
E
faço assim, assim, assim...
Quando
proferia o último verso, acocorava-se e simulando segurar alguma coisa entre o
dedo polegar e o dedo indicador, apertando um ao outro como quem gira uma chave,
aproximava a mão ao solo e fazia vários movimentos circulares como se atritasse
com o chão o objeto fictício que sustinha entre os dedos... Aí é que as gargalhadas mais retumbavam.
Era a
apoteose tétrica de uma tragicomédia em que o ser humano era levado ao extremo
da irrisão e humilhado pela maldosa e falsa projeção de quem se crê superior
aos aparentemente mais frágeis, aos humilhados e ofendidos a que se refere o
romancista russo criador de obra homônima. Quanto engano nisso tudo...
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