quinta-feira, 11 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – VII
                                                                              Hugo Martins
           
Eles não viviam numa casa de orates, como na cidade de Itaguaí, onde viveu o Dr. Simão Bacamarte, “o maior médico do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, criação magistral do gênio machadiano, um certo homem de letras carioca, que parece defender    a tese humorística, mas epistemicamente válida, de que todo homem se encontra assentado na tênue e invisível linha que demarca, de um a lado, a lucidez; e, do outro, o da loucura. Estar de um lado ou de outro “é uma questão prenhe de outras questões...”
            Em Itapipoca havia muitos deles, a quem as pessoas “normais” apontavam o dedo como se aqueles fossem bodes expiatórios sobre os quais se despejavam as neuroses, frustrações, zangas e raivas cotidianas. Às vezes, serviam, também, de objetos de chistes e mangoças. Para que casa de orates? Viviam soltos nas ruas, feiras e praças a servir de motivo de divertimento para o populacho, que os incitava a dizer palavrões, a jogar pedras e a correr, como a fugir, em súbita disparada, como espicaçados por dolorosa angústia de que não podiam se desvencilhar.
            Itapipoca, como outras cidades da época, possuía seus doidos oficiais, figuras humanas encontradiças nas obras de arte, em biografias ou em páginas da grande literatura, tipos diferenciados pela maneira como encaram o mundo, reinventando-o como fazem duas outras figuras singulares: a criança e o artista. Aliás, há quem diga que o mundo só é suportável quando envolto nas luzes feéricas da ficção, do faz de conta, do era uma vez... O mundo de Alice, do Quixote, de Rubião e Quincas Borba; o mundo de Peter Pan, de Emília e o mundo de desespero eloquente e mudo de Vicent Van Gogh. Mundo de sonhos, maravilhamento e invenções, que, recebendo o influxo do pó mágico de pirlimpimpim, reveste-se, dialeticamente, das alegrias e dores do mundo.
            Um daqueles lunáticos me está bem vívido na memória: a Pinta-Cega.  Mulata meã, de braços roliços, pernas tortas de quem viveu sempre montada num barril, trazia os pés maltratados esparramados no chão. Sempre portava a mesma saia rodada estampada de flores e supinamente encardida. Os cabelos, quase pixains, invariavelmente amarrados à moda rabo-de-cavalo desajeitado, acentuavam a larga testa sob a qual, emoldurado por larga sobrancelha, um dos olhos trazia a pálpebra arriada, daí o apelido que lhe sapecaram... Queriam vê-la furiosa?  bastava algum gaiato maldoso gritar e estirar o grito: Pintaceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeega!!! Os palavrões de toda ordem vinham aos borbotões. Variavam de filho-de-puta a baitola, com as variantes veado, corno, fii di rapariga, todos enfileirados na sinfonia teatral em contraponto com gargalhadas e apupos...  Alimentava antipatia toda especial por um sujeito de nome João Barroso, que, mesmo não estando presente, era duramente verberado com aqueles palavrões cabeludos ou mimoseado com versos que traduziam ódio mortal e clara intenção de punir.  Quando alguém ousava soletrar o apelido, ela, prontamente, punha as mãos na cintura e, tal uma declamadora de teatro de alto coturno, recitava, emprestando vida plástica a cada verso proferido, assim dizendo:
                                   O negro João Barroso
                                   É um negro sem-vergonha.
                                   Eu ainda pego os ovos dele
                                   E faço assim, assim, assim...

            Quando proferia o último verso, acocorava-se e simulando segurar alguma coisa entre o dedo polegar e o dedo indicador, apertando um ao outro como quem gira uma chave, aproximava a mão ao solo e fazia vários movimentos circulares como se atritasse com o chão o objeto fictício que sustinha entre os dedos...  Aí é que as gargalhadas mais retumbavam.
            Era a apoteose tétrica de uma tragicomédia em que o ser humano era levado ao extremo da irrisão e humilhado pela maldosa e falsa projeção de quem se crê superior aos aparentemente mais frágeis, aos humilhados e ofendidos a que se refere o romancista russo criador de obra homônima. Quanto engano nisso tudo...
           
           

            

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