domingo, 21 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA – XVII
                                 Hugo Martins

            Nas férias escolares, minha mãe costumava enviar a mim e meu irmão José Élmer para a casa de meu avô, em Paracuru, ou para o distrito de Jardim, para a casa de nossa tia Iolanda. Nosso transporte era um caminhão de um primo. Íamos no alto da carga. Era divertido por causa das molecagens que fazíamos. Costumávamos levar conosco canudos da folha do mamoeiro. Púnhamos na boca alguns grãos vermelhos de jiriquiti, tomávamos do canudo e soprávamos com força em direção às pessoas, sobretudo, meninos. No alto da carga, estávamos resguardados de qualquer revanche. Muitas vezes, para quebrar a monotonia da viagem, brincávamos de contar jumentos. Cada um de nós escolhia um lado da estrada. Até um determinado destino, ganhava o jogo quem tivesse contado mais jumentos. Isso, hoje, como se dizia num antigo programa humorístico de rede televisiva, causa-me frouxos de risos
            A casa de meu avô, aquela a que íamos, já não existe. Mas está viva em minha memória, eternamente suspensa no ar, como a casa do avô de Manuel Bandeira... Casa grande, de móveis rústicos, baús com redes brancas com cheiro de guardados, quartos amplos, santuário e o quarto dos mortos, onde ficavam as fotos de membros da família que já se tinham ido dessa para uma pior. Em torno, amplos alpendres em que se armavam redes de corda em grande profusão e de onde se observavam as pessoas passando para a praia. Do quintal, com imenso coqueiral, assentado num altiplano, víamos a partida e a chegada das jangadas. Momento mágico, momento feiticeiro, encantador, plenificação estética na alma romântica do menino, que tudo sentia e nada racionalizava... Por isso, único
            Vovô Barroso era homem de hábitos severos, voz portentosa, de timbre grave. Quando chegávamos e lhe pedíamos a bênção, perguntava: “que vieram fazer? Trouxeram rede? Se mijarem na rede, no outro dia sairão com ela na cabeça e vão pedir esmolas nas casas assim dizendo: “uma esmolinha pelo amor de São Vicente para um pobre inocente que mija na rede e não sente.” Toda vez ele dizia isso. Passados os anos, e refletindo sobre o episódio, via por trás daquilo uma carrada de ternura que o velho não ousava demonstrar. Sua educação fora muito severa. Homem não tinha que mostrar certos sentimentos. Podia revelar fraqueza de ânimo. Coisas do tempo, coisas da História...
 Meu avô está na galeria das pessoas a quem queria e quero bem. Admirava-o como homem público que era, no bom sentido da palavra, e o reverenciava, em silêncio, pelos dotes intelectuais de que era portador. Mostrava-se leitor infatigável e redator de estilo límpido, claro e elegante. De sua visão de mundo e formação humanística, haurida no seminário (quase se ordena), repassou para todos nós alguns valores positivos acerca da vida que, até hoje, ponho em prática. Tudo espontaneamente, sem grande esforço e sem a preocupação de impressionar a quem quer que seja. Honestidade de princípios e de intenções é valor marcante que me veio pelo acervo herdado da austeridade espiritual de meu avô. Aqui, no quarto em que redijo, o retrato do velho está aqui à minha frente. Enquanto tanjo o teclado, da moldura desse retrato, vovô olha para mim e vejo nos seus expressivos olhos verdes a mesma gravidade de quando era vivo. No momento não me admoesta, continua a fitar-me, e sinto, nisso tudo, uma espécie de escusa de não ter deixado fluir a ternura que lhe transbordava o coração...
Passávamos a manhã na praia. Regressávamos na hora do almoço. Não podia haver atrasos. Vovô sentava-se na cabeceira. Os demais comensais tomavam assento em seguida. O velho proferia breve oração em agradecimento pela refeição. Só depois desse ritual, cada um se servia. O prato principal era peixe, pelo óbvio. Sobremesa: doce de mamão ou doce de mamão com coco. Após, os adultos iam tirar uma pestana; a meninada, primos da terra, eu e meu irmão, ficávamos no alpendre deitados nas redes de corda a conversar e achar graça. De vez em quando, a voz de seu Tonho troava: “parem de conversa besta ou vão conversar em outro lugar. Deixem-me descansar...” Continha-se o riso e, um a um, deixávamos o alpendre. À tarde descíamos para a praia. Correr, tomar banho de mar e jogar bola era o programa. Chegada a noite, “jantados”, reunião na pracinha atrás da igreja. De vez em quando, a meninada dava uma volta na calçada da igreja para flagrar casais de namorados, no escurinho indevassável, a trocar, supunha-se, carícias mais ousadas... Ás dez, as luzes da cidade se apagavam, tínhamos que voltar mais cedo. A porta já estava encostada, entrávamos pé ante pé e atirávamo-nos no fundo da rede branca e cheirosa e dormíamos ao som do quebrar surdo e cadenciado das ondas do mar...
Tempo bom, o das férias na casa de meu avô. Tempo marcado fundamente na alma, que, vez por outra, espreita os escaninhos do passado remoto, tão presente nas lembranças do menino de calças curtas e suspensórios, morando, ainda, em Itapipoca.



           
           
           


            

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