FIAPOS DA MEMÓRIA – XII
Hugo Martins
Hora
melancólica o cair da tarde. Ainda mais se acentuava a tristeza do menino com o
contraponto longínquo da orquestra do mugir de bois, o badalar de chocalhos e o
dolente dobre de sinos. Nessas horas, era comum o menino contemplativo estar
sentado no muro que contornava a casa. A cidade estava em festa. Havia missas,
leilões e desfile do tiro-de-guerra ao som de dobrados marciais, que nunca
saíram da lembrança do menino. Lá ia o sargento Carlos, à frente da tropa em
formação, na cadência do Saudades da Minha Terra. A cidadezinha ficava envolta
na quase hora crepuscular, numa espécie de claro-escuro vacilante, hora a que
se costuma chamar de lusco-fusco. O momento dos festejos se aproximava. O
menino saltou do muro e fez menção de entrar. Susteve o passo e ficou a ouvir,
ao longe, murmúrios, gritarias e apupos. Tentou localizar de onde partia aquele
alarido. Vinha das bandas do açude. Correu para lá. E o que viu? Um sujeito de
largas calças listradas, cara pintada de amarelo em que se acentuavam os lábios
extremamente grossos que serviam de moldura ao sorriso do homem. Na cabeça, nem
um só fio de cabelo, e o nariz, redondo e avantajado, emprestava ainda maior
graça ao sujeito. Vinha este montado ao contrário num jegue, puxado por um
menino com cara de Tom Sawyer: a cabeça voltada para a traseira do
animal... Na mão, um gramofone de zinco
em cuja boca ele gritava: “Hoje tem espetáculo?” Uma multidão de meninos
politonava: “Tem, sim, senhor”! O palhaço soltava outra pergunta: “Às sete
horas da noite”! A meninada gritava: “É, sim, senhor!” E o palhaço fechava:
“Arroja, negada!” Da gorja da meninada, saía, numa espécie de disputa, o maior
grito possível, que, aos outros somado, resultava num
IUUUUUURRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRUUUUUU! E o palhaço cantava: “ e o palhaço o que
é”? E a negada fazia o coro: “é ladrão de mulher.” Todos que participavam daquela publicidade
circense, entrariam, de graça, no espetáculo desde que trouxessem no braço a
marca com dada tintura feita pelo palhaço.
Quando
o circo chegava, a cidade parecia se transmutar. A criançada entrava em
polvorosa e nada se comentava senão os números que seriam apresentados. É bem
verdade, que o circo não tinha o teto de empanada. Mesmo assim, o povo e a
meninada se divertia, sobretudo com a apresentação de uma jovem dançarina e o
palhaço, que trazia nas costas a fama de “dizer imoralidades” ou recorrer a
alguma gestualidade que lembrasse, como diz o povo, “alguma putaria”... As famílias,
muito preocupadas com a moral e os bons costumes, foram ao delegado e pediram
que contivesse os excessos do tal palhaço. Realmente foi este advertido, que
não se metesse a besta, respeitasse a tradição da família e outros babados. O
que bem denotava o puritanismo afrescalhado e o desrespeito à liberdade de
pensamento. Enfim, era a detestável censura que castra, também, manifestações
artísticas advindas do espírito moleque do povo.
Já
fazia algum tempo que o show começara. À meninada nada mais interessava senão a
apresentação da jovem bailarina e as histórias e estripulias do palhaço. O
coração do menino batia no peito num tucotuco angustiante. O homem de fraque e
cartola tomou do megafone e, ao som do rufar dos tambores, anunciou: “senhoras
e senhores, o Circo Garça Real tem a honra e o orgulho de apresentar, para a
alegria de todos, a graça e o encanto da bailarina espanhola Sandileusa
Garrido...” Enquanto as palmas e gritos
estrugiam, uma graciosa lolita de longos cabelos e corpo bem torneado, de
braços abertos e trejeitos de odalisca, vestindo um maiô encoberto por um tênue
véu, entra no picadeiro, empunhando um pistom dourado. Silêncio. A jovencita
cruza as pernas e flexiona o tronco numa espécie de reverência ao público. Mais
silêncio ainda. Logo quebrado por
afinados acordes. Executava vários números. O que mais encantava era um que
lembrava o início de uma tourada. A multidão ouvia embevecida, diga-se, não só
a execução musical mas também admirava a plástica escultural daquela ninfeta de
olhos felinamente verdes... Após, a
canhestra charanga enche o ar de ruidosa alegria e, para o gáudio da garotada,
entram os palhaços, dão cambalhotas, caem no chão e teatralizam cenas em que
sobressaem situações de franca ridicularia. Ecoam risadas, palmas em meio a
comentários. As histórias do palhaço
fecham o espetáculo. Entra ele com falso ar de abatimento. Aqui ali se ouvem
pitadas de risos. Algo de surpreendente estava por acontecer. Mas não. No meio
do picadeiro, ele começa a contar piadas e “causos”. Ninguém achava graça.
Estavam todos como estátuas, no rosto um ar de frustração. Não sabiam do drama
do pobre palhaço. Afinal fora amordaçado, e toda sua espontaneidade “fora pras
cucuias...” “Assim não dá, assim não pode”, pensou o artista. E refletiu:
“afinal, qual a tarefa de um palhaço?” Não era difícil chegar a uma conclusão:
“estou aqui para fazer rir o povo.” Fez outra tentativa. Perguntou: “Vocês
sabem o que o palito de fósforo disse para a caixa?” Ele mesmo respondeu:
“Minha filha, toda vez que dou uma encostadinha em você, perco a cabeça.”
Ninguém riu. O palhaço, ainda preso às palavras do delegado, chutou o balde.
Olhou fixamente a assistência, colocou em forma de gancho os dedos polegares no
suspensório, esticou-os para frente, baixou a cabeça, olhou para dentro das
grandes e frouxas calças estampadas e exclamou, estirando a vogal tônica: “É A
PEQUEEEEEEEEEEEEENA!!!!”. O circo quase veio abaixo. E o palhaço? Só dormiu na
delegacia, e a vida continuou.
Cenas
de minha infância quando vivia em Itapipoca nos meus tenros nove anos de idade.
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