REENCONTROS
Hugo Martins
Hugo Martins
Hoje à tarde, deambulando pelo bosque Moreira Campos, do Curso de Letras, aguardando o início da aula de língua latina, degustava, em pé, junto à banquinha em torno da qual havia outras pessoas, um copo delicioso de um café “preto como o diabo, quente como o inferno e doce como o amor”. As comparações aspeadas, advirto, não são minhas, mas do teatrólogo Joracy Camargo. Faço a ressalva porque alguém pode ver na coisa alguma manifestação de preconceito. Sim, porque se se tivesse usado “branco como o diabo”, fugiria àquela pecha. Muito engraçado. Pois bem, tomava eu meu quotidiano e vespertino cafezinho, quando sinto nas costas uma leve batida, acompanhada de uma espécie de apelo “e aí, Hugão”? Conheci-o pelo tom forte da voz e pela pancadinha com gosto de amigável carícia. Virei-me, lá estava ele, sorriso emoldurado pelos bastos bigodes e aquele olhar sereno de quem faz pouco caso das mesmices do dia-a-dia. Há tempos não via meu estimado amigo Ridendo Sic. Com ele sempre aprendo alguma coisa, venha ou não esta “alguma coisa” vestida da ironia que lhe é peculiar.
Afastamo-nos e saímos caminhando rumo a um barzinho próximo, ali na Av. Treze de Maio, onde se pode beber uma boa cerveja gelada. E saímos a comentar o que vai pelo mundo. A conversa tinha que tocar num ponto fulcral: a literatura. Por coincidência das grandes, havíamos praticado a releitura de uma obra francesa e sobre ela tecemos alguns comentários. Deixando de lado o tema maior da obra, a questão da essencialidade do amor, Ridendo ressaltou que o livrinho, embora grande, virou moda entre pessoas que adoram que saibamos que elas gostam de lar, mesmo que não leiam porríssima nenhuma. Achei graça. E ele disse: “sim, Hugão, o Pequeno Príncipe virou piada quando alguém criou a história de que, quando uma dada miss disso ou daquilo, do Ceará, do Brasil ou do caralho, era entrevistada e lhe faziam a pergunta sobre sua obra literária preferida, fatalmente, respondia, na sua doce obtusidade: “o Pequeno Príncipe.” Continuou: “ora, nos anos setenta, um também francês, Maurice Druon, publicou O Menino de Dedo Verde, obra com gosto de otimismo barato, em que, em conflitos bélicos, ocorria a lógica dos canhões e vinha um tal menino a fazer dos dedos uma arma e disparar não projéteis, mas flores... Uma gracinha. As misses logo, logo, adotaram a moda de citar a tal romance...” O homem estava endiabrado. Deixei-o falar à vontade...Depois de outros comentários banais, sobretudo sobre as palhaçadas no teatro de nossas casas legislativas, logo mudamos a temática. Foi aí que aproveitei a deixa e pedi sua opinião sobre uma palavrinha antipática, hoje de largo uso, por conta das intragáveis olimpíadas, a tal “paralimpíada”. “Bastardia, subserviência, tola invencionice sem nenhum fundamento a não ser “entregar a alma ao estrangeiro”, render-se à sabujice diante daquele a quem o sujeito se julga inferior,” Eu disse: “homem, seja mais claro.” Ele não me fez esperar. “Hugão, é sabido que os doze deuses gregos habitam o Monte Olimpo e não O monte Limpo. A palavra Olimpíadas foi criada em alusão aos jogos em homenagem a Zeus, deus maior do Monte Olimpo, e não do Monte Limpo. Do ponto de vista da ciência filológica, não filosófica, duas vogais iguais que se entrechocam provocam o fenômeno da crase, como, por exemplo, em português, a palavra DOR é o resultado de um processo de mutação mórfica por que passou a palavra latina DOLOR, que evolui para a forma DOOR, com a queda do grafema L; depois, as duas vogais se fundem, resultando no termo vernáculo DOR. No caso do aborto “paralimpíada”, não poderia ocorrer o mesmo fenômeno, pois as vogais que se entrechocam são o A da preposição PARA e o O da palavra olimpíada. Não é possível a crase entre vogais diferentes. É aceitável a queda do A. Daí teríamos uma forma mais consentânea com a lógica da ordem natural das coisas, a grafia de PAROLIMPÍADA, forma perfeitamente aceitável e mais estética do ponto de vista gráfico.” Continuou em seu raciocínio lógico, não mais filológica, mas filosófico. “O problema é que foi parida de alguma cabeça quase estéril uma forma bastarda do étimo inglês “paralympic” e cruzaram com para(plegic, somado a (o)lympics , e, impunemente, suprimiram, repito, sem fundamento, o grafema O de OLÍMPICO, resultando o monstrengo gráfico que aí está.” Tudo isso é resultado de uma tentativa hipócrita de convencer o mundo de que o “humanismo”, o “amor ao próximo” e outras balelas da retórica vazia devem estar em evidência. E eu concordo com humanismo, com o amor ao próximo, deixando que os deficientes por natureza participem, à luz do pensamento do mestre Aristóteles, como desiguais sendo tratados igualmente, sem alardes, sobretudo de países em que o desrespeito aos direitos humanos é uma tônica sobejamente estampada nos noticiários que, mesmo desvirtuados, não têm como negar as evidências. Portanto, companheiro Hugão, o que não é admissível é emprestar, numa metáfora infeliz, “deficiências” filológicas às palavras. Elas, que refletem o mundo; elas que levantam o pálio dos humanitarismos estudados a fim de pôr em evidência “a vida como ela é.” Que o estrangeiro não meta o bedelho onde não deve.”
Ficou acertado que retomaríamos nossos encontros, interrompidos por algum tempo por injunções das traquinagens da vida, que tece encontros e reencontros que valem a pena. Sobretudo quando há coincidências de reflexões...
Afastamo-nos e saímos caminhando rumo a um barzinho próximo, ali na Av. Treze de Maio, onde se pode beber uma boa cerveja gelada. E saímos a comentar o que vai pelo mundo. A conversa tinha que tocar num ponto fulcral: a literatura. Por coincidência das grandes, havíamos praticado a releitura de uma obra francesa e sobre ela tecemos alguns comentários. Deixando de lado o tema maior da obra, a questão da essencialidade do amor, Ridendo ressaltou que o livrinho, embora grande, virou moda entre pessoas que adoram que saibamos que elas gostam de lar, mesmo que não leiam porríssima nenhuma. Achei graça. E ele disse: “sim, Hugão, o Pequeno Príncipe virou piada quando alguém criou a história de que, quando uma dada miss disso ou daquilo, do Ceará, do Brasil ou do caralho, era entrevistada e lhe faziam a pergunta sobre sua obra literária preferida, fatalmente, respondia, na sua doce obtusidade: “o Pequeno Príncipe.” Continuou: “ora, nos anos setenta, um também francês, Maurice Druon, publicou O Menino de Dedo Verde, obra com gosto de otimismo barato, em que, em conflitos bélicos, ocorria a lógica dos canhões e vinha um tal menino a fazer dos dedos uma arma e disparar não projéteis, mas flores... Uma gracinha. As misses logo, logo, adotaram a moda de citar a tal romance...” O homem estava endiabrado. Deixei-o falar à vontade...Depois de outros comentários banais, sobretudo sobre as palhaçadas no teatro de nossas casas legislativas, logo mudamos a temática. Foi aí que aproveitei a deixa e pedi sua opinião sobre uma palavrinha antipática, hoje de largo uso, por conta das intragáveis olimpíadas, a tal “paralimpíada”. “Bastardia, subserviência, tola invencionice sem nenhum fundamento a não ser “entregar a alma ao estrangeiro”, render-se à sabujice diante daquele a quem o sujeito se julga inferior,” Eu disse: “homem, seja mais claro.” Ele não me fez esperar. “Hugão, é sabido que os doze deuses gregos habitam o Monte Olimpo e não O monte Limpo. A palavra Olimpíadas foi criada em alusão aos jogos em homenagem a Zeus, deus maior do Monte Olimpo, e não do Monte Limpo. Do ponto de vista da ciência filológica, não filosófica, duas vogais iguais que se entrechocam provocam o fenômeno da crase, como, por exemplo, em português, a palavra DOR é o resultado de um processo de mutação mórfica por que passou a palavra latina DOLOR, que evolui para a forma DOOR, com a queda do grafema L; depois, as duas vogais se fundem, resultando no termo vernáculo DOR. No caso do aborto “paralimpíada”, não poderia ocorrer o mesmo fenômeno, pois as vogais que se entrechocam são o A da preposição PARA e o O da palavra olimpíada. Não é possível a crase entre vogais diferentes. É aceitável a queda do A. Daí teríamos uma forma mais consentânea com a lógica da ordem natural das coisas, a grafia de PAROLIMPÍADA, forma perfeitamente aceitável e mais estética do ponto de vista gráfico.” Continuou em seu raciocínio lógico, não mais filológica, mas filosófico. “O problema é que foi parida de alguma cabeça quase estéril uma forma bastarda do étimo inglês “paralympic” e cruzaram com para(plegic, somado a (o)lympics , e, impunemente, suprimiram, repito, sem fundamento, o grafema O de OLÍMPICO, resultando o monstrengo gráfico que aí está.” Tudo isso é resultado de uma tentativa hipócrita de convencer o mundo de que o “humanismo”, o “amor ao próximo” e outras balelas da retórica vazia devem estar em evidência. E eu concordo com humanismo, com o amor ao próximo, deixando que os deficientes por natureza participem, à luz do pensamento do mestre Aristóteles, como desiguais sendo tratados igualmente, sem alardes, sobretudo de países em que o desrespeito aos direitos humanos é uma tônica sobejamente estampada nos noticiários que, mesmo desvirtuados, não têm como negar as evidências. Portanto, companheiro Hugão, o que não é admissível é emprestar, numa metáfora infeliz, “deficiências” filológicas às palavras. Elas, que refletem o mundo; elas que levantam o pálio dos humanitarismos estudados a fim de pôr em evidência “a vida como ela é.” Que o estrangeiro não meta o bedelho onde não deve.”
Ficou acertado que retomaríamos nossos encontros, interrompidos por algum tempo por injunções das traquinagens da vida, que tece encontros e reencontros que valem a pena. Sobretudo quando há coincidências de reflexões...
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