FIAPOS DA MEMÓRIA- XIV
Hugo Martins
Hoje à
tarde, procedia à declinação do artigo na língua grega quando a cabeça começou
a devanear em busca de assunto para a confecção deste texto. Espicaçado,
cavouquei os meandros das lembranças quando, de súbito, saltaram-me, dos
escaninhos do bestunto, historietas que ouvia, quando menino, sobre algumas
figuras singulares da cidade de Itapipoca. Não as presenciei, ninguém me
contou. Como fazem parte de uma espécie de anedotário local, repasso-as como
faziam, outrora, os rapsodos. Estes sempre acrescentavam algo a mais nas
narrativas que transmitiam. Isso faço também, em obediência à sabedoria popular
que diz:” quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto.” É nessa
atmosfera de quase ficção que aqui as exponho. Vamos a elas.
O hotel da
Nana Barroso, senhora de exageradas ancas e generosos seios, ficava no centro
da cidade. Com meia dúzia de janelas dando para rua principal, sua entrada
situava-se numa rua secundária, em cujo centro duas tamareiras abriam suas
palmas ao sopro do vento. Na outra esquina, o bar do Chico da Bomba escancarava
suas portas por onde se viam homens acomodados nas mesas, virando copos de
cerveja ou jogando carteado. A reputação do hotel era reconhecida e comentada.
A comida era farta, os quartos amplos e ventilados, e a delicadeza da
proprietária se pintava em seu rosto gordo e risonho.
Por lá
trabalhava um garçom de nome Bruno. De estatura baixa e magreza visível, seu
Bruno, costumeiramente, vestia, à moda farda, calça azul-escuro e camisa branca
de mangas curtas. Os sapatos eram pretos e engraxados no capricho. O espírito
galhofeiro do povo dizia que o garçom “jogava pedra com a mão esquerda”. Vi-o
algumas vezes e achava seus trejeitos meio forçados. As mãos, levadas à altura
do peito, estiradas como a mostrar as unhas para alguém, mais acentuavam sua natureza
de maricas. A voz era fina como um si menor soprado numa flauta. Não esboçava
um só gesto que não negasse sua condição de quem vivia arrependido e
decepcionado por ter nascido homem. Condição humana causadora de sofrimento que
seu Bruno enfrentava com denodo e destemor. Não criava problema com ninguém. Um
dia, hospedou-se no hotel um sujeito de má catadura e de pouca conversa.
Dizia-se que se tratava de antigo coronel da Guarda Nacional, que fora à cidade
resolver problemas cartoriais.
Certa feita,
achava-se o tal coronel sentado a uma mesa perto da janela a chupar grosso
charuto e a ler um jornal. De vez em quando tossia e alisava os bastos bigodões.
Passado algum tempo, o homem chama um dos garçons. Lá estava Seu Bruno, em pé,
solícito, guardanapo no braço, para atender o freguês.
- Pois não,
senhor!
O coronelão
olhou desconfiado para aquela figura com ar de subserviente e perguntou:
- Que o senhor
tem pra gente comer?
Seu Bruno
perfilou-se, encostou as duas mãos nos peitos, dobrou-se em direção ao rosto do
cliente e disse com simplicidade:
- Fora eu,
tem arroz, feijão, carne bovina, carne suína...
SEGUNDO ATO.
Do outro
lado da rua, havia uma pensão em que se hospedava o juiz de direito da cidade.
A delicadeza do doutor era conhecida, expressa, sobretudo, em sua fala mansa e
melíflua. Morigerado em tudo, sempre vestia terno claro e não tirava a gravata
nem mesmo para almoçar. Em sua mansidão, havia um traço de personalidade que
poucos conheciam: era antologicamente espirituoso. Um dia, hora do almoço,
dirigiu-se à dona da pensão e pediu-lhe que mandasse a cozinheira fritar dois
ovos. Isto feito, a cozinheira olha para o juiz e pergunta: “Doutor Fulano de
Tal, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que ele respondeu: “Não, minha
senhora, só uso talco ROSS...
TERCEIRO ATO.
Nas festas
religiosas, a de São Sebastião e a de Nossa Senhora das Mercês, montavam-se as
quermesses. Brincava-se no carrossel, na roda-gigante; ia-se tentar a sorte no
tiro ao alvo ou jogar argolas para fisgar garrafas de bebida ou carteiras de
cigarros, que eram dispostas no chão, sobre uma lona, separadas do público por
uma corda disposta, em forma de quadrado, à maneira ringue... Grandes
gramofones tocavam músicas a pedido ou em forma de oferenda, como, por exemplo:
“atenção, senhorita de vestido estampado de flores azuis, alguém de iniciais
ABMS oferece esta página musical a você...” Em meio à gente, moçoilas procuravam
conquistar adeptos para o partido azul ou para o partido vermelho. Escolhido um
ou outro, o votante fixava na blusa um alfinete enfiado num pequeno laço com a
com a cor do partido escolhido.
Nas
barracas, de tudo se vendia: bolo de milho, bolo de batata, bolo de grude,
café, cerveja e até mesmo uma cachacinha da boa. Pois bem, um sujeito conhecido
por Mambica era a gaiatice em pessoa...Trabalhava ele numa dessas barracas. Era
o responsável por vender bebidas alcoólicas. Se alguém encostava, ele já ia enchendo
o copo, dizendo: “pronto, freguês.” Este olhava para ele e dizia não ter pedido
nenhuma bebida. Mambica, então, pegava do copo, olhava, de novo, para o cliente
e dizia: “Ah, não quer não? Pois a casa quer...” E tibungo: tomava de uma só
tragada aquilo que para ele era o néctar dos deuses do Olimpo. Nessa
brincadeira, tomava porres e mais porres... Passada a semana dos festejos, era
desfazer as barracas e esperar a próxima festa. Ora, Mambica trabalhara cinco
dias e, por isso, ao fim de tudo reclamou seu pro labore ao dono da barraca.
Este olhou bem fundo nos olhos do malandro e aduziu: “Meu amigo, nada lhe devo.
Fazendo as contas, vi que você bebeu todo o lucro...
Voilà...
FIAPOS DA MEMÓRIA- XIV
Hugo Martins
Hoje à
tarde, procedia à declinação do artigo na língua grega quando a cabeça começou
a devanear em busca de assunto para a confecção deste texto. Espicaçado,
cavouquei os meandros das lembranças quando, de súbito, saltaram-me, dos
escaninhos do bestunto, historietas que ouvia, quando menino, sobre algumas
figuras singulares da cidade de Itapipoca. Não as presenciei, ninguém me
contou. Como fazem parte de uma espécie de anedotário local, repasso-as como
faziam, outrora, os rapsodos. Estes sempre acrescentavam algo a mais nas
narrativas que transmitiam. Isso faço também, em obediência à sabedoria popular
que diz:” quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto.” É nessa
atmosfera de quase ficção que aqui as exponho. Vamos a elas.
O hotel da
Nana Barroso, senhora de exageradas ancas e generosos seios, ficava no centro
da cidade. Com meia dúzia de janelas dando para rua principal, sua entrada
situava-se numa rua secundária, em cujo centro duas tamareiras abriam suas
palmas ao sopro do vento. Na outra esquina, o bar do Chico da Bomba escancarava
suas portas por onde se viam homens acomodados nas mesas, virando copos de
cerveja ou jogando carteado. A reputação do hotel era reconhecida e comentada.
A comida era farta, os quartos amplos e ventilados, e a delicadeza da
proprietária se pintava em seu rosto gordo e risonho.
Por lá
trabalhava um garçom de nome Bruno. De estatura baixa e magreza visível, seu
Bruno, costumeiramente, vestia, à moda farda, calça azul-escuro e camisa branca
de mangas curtas. Os sapatos eram pretos e engraxados no capricho. O espírito
galhofeiro do povo dizia que o garçom “jogava pedra com a mão esquerda”. Vi-o
algumas vezes e achava seus trejeitos meio forçados. As mãos, levadas à altura
do peito, estiradas como a mostrar as unhas para alguém, mais acentuavam sua natureza
de maricas. A voz era fina como um si menor soprado numa flauta. Não esboçava
um só gesto que não negasse sua condição de quem vivia arrependido e
decepcionado por ter nascido homem. Condição humana causadora de sofrimento que
seu Bruno enfrentava com denodo e destemor. Não criava problema com ninguém. Um
dia, hospedou-se no hotel um sujeito de má catadura e de pouca conversa.
Dizia-se que se tratava de antigo coronel da Guarda Nacional, que fora à cidade
resolver problemas cartoriais.
Certa feita,
achava-se o tal coronel sentado a uma mesa perto da janela a chupar grosso
charuto e a ler um jornal. De vez em quando tossia e alisava os bastos bigodões.
Passado algum tempo, o homem chama um dos garçons. Lá estava Seu Bruno, em pé,
solícito, guardanapo no braço, para atender o freguês.
- Pois não,
senhor!
O coronelão
olhou desconfiado para aquela figura com ar de subserviente e perguntou:
- Que o senhor
tem pra gente comer?
Seu Bruno
perfilou-se, encostou as duas mãos nos peitos, dobrou-se em direção ao rosto do
cliente e disse com simplicidade:
- Fora eu,
tem arroz, feijão, carne bovina, carne suína...
SEGUNDO ATO.
Do outro
lado da rua, havia uma pensão em que se hospedava o juiz de direito da cidade.
A delicadeza do doutor era conhecida, expressa, sobretudo, em sua fala mansa e
melíflua. Morigerado em tudo, sempre vestia terno claro e não tirava a gravata
nem mesmo para almoçar. Em sua mansidão, havia um traço de personalidade que
poucos conheciam: era antologicamente espirituoso. Um dia, hora do almoço,
dirigiu-se à dona da pensão e pediu-lhe que mandasse a cozinheira fritar dois
ovos. Isto feito, a cozinheira olha para o juiz e pergunta: “Doutor Fulano de
Tal, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que ele respondeu: “Não, minha
senhora, só uso talco ROSS...
TERCEIRO ATO.
Nas festas
religiosas, a de São Sebastião e a de Nossa Senhora das Mercês, montavam-se as
quermesses. Brincava-se no carrossel, na roda-gigante; ia-se tentar a sorte no
tiro ao alvo ou jogar argolas para fisgar garrafas de bebida ou carteiras de
cigarros, que eram dispostas no chão, sobre uma lona, separadas do público por
uma corda disposta, em forma de quadrado, à maneira ringue... Grandes
gramofones tocavam músicas a pedido ou em forma de oferenda, como, por exemplo:
“atenção, senhorita de vestido estampado de flores azuis, alguém de iniciais
ABMS oferece esta página musical a você...” Em meio à gente, moçoilas procuravam
conquistar adeptos para o partido azul ou para o partido vermelho. Escolhido um
ou outro, o votante fixava na blusa um alfinete enfiado num pequeno laço com a
com a cor do partido escolhido.
Nas
barracas, de tudo se vendia: bolo de milho, bolo de batata, bolo de grude,
café, cerveja e até mesmo uma cachacinha da boa. Pois bem, um sujeito conhecido
por Mambica era a gaiatice em pessoa...Trabalhava ele numa dessas barracas. Era
o responsável por vender bebidas alcoólicas. Se alguém encostava, ele já ia enchendo
o copo, dizendo: “pronto, freguês.” Este olhava para ele e dizia não ter pedido
nenhuma bebida. Mambica, então, pegava do copo, olhava, de novo, para o cliente
e dizia: “Ah, não quer não? Pois a casa quer...” E tibungo: tomava de uma só
tragada aquilo que para ele era o néctar dos deuses do Olimpo. Nessa
brincadeira, tomava porres e mais porres... Passada a semana dos festejos, era
desfazer as barracas e esperar a próxima festa. Ora, Mambica trabalhara cinco
dias e, por isso, ao fim de tudo reclamou seu pro labore ao dono da barraca.
Este olhou bem fundo nos olhos do malandro e aduziu: “Meu amigo, nada lhe devo.
Fazendo as contas, vi que você bebeu todo o lucro...
Voilà...
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