quinta-feira, 18 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA- XIV
                                     Hugo Martins
            Hoje à tarde, procedia à declinação do artigo na língua grega quando a cabeça começou a devanear em busca de assunto para a confecção deste texto. Espicaçado, cavouquei os meandros das lembranças quando, de súbito, saltaram-me, dos escaninhos do bestunto, historietas que ouvia, quando menino, sobre algumas figuras singulares da cidade de Itapipoca. Não as presenciei, ninguém me contou. Como fazem parte de uma espécie de anedotário local, repasso-as como faziam, outrora, os rapsodos. Estes sempre acrescentavam algo a mais nas narrativas que transmitiam. Isso faço também, em obediência à sabedoria popular que diz:” quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto.” É nessa atmosfera de quase ficção que aqui as exponho. Vamos a elas.
            O hotel da Nana Barroso, senhora de exageradas ancas e generosos seios, ficava no centro da cidade. Com meia dúzia de janelas dando para rua principal, sua entrada situava-se numa rua secundária, em cujo centro duas tamareiras abriam suas palmas ao sopro do vento. Na outra esquina, o bar do Chico da Bomba escancarava suas portas por onde se viam homens acomodados nas mesas, virando copos de cerveja ou jogando carteado. A reputação do hotel era reconhecida e comentada. A comida era farta, os quartos amplos e ventilados, e a delicadeza da proprietária se pintava em seu rosto gordo e risonho.
            Por lá trabalhava um garçom de nome Bruno. De estatura baixa e magreza visível, seu Bruno, costumeiramente, vestia, à moda farda, calça azul-escuro e camisa branca de mangas curtas. Os sapatos eram pretos e engraxados no capricho. O espírito galhofeiro do povo dizia que o garçom “jogava pedra com a mão esquerda”. Vi-o algumas vezes e achava seus trejeitos meio forçados. As mãos, levadas à altura do peito, estiradas como a mostrar as unhas para alguém, mais acentuavam sua natureza de maricas. A voz era fina como um si menor soprado numa flauta. Não esboçava um só gesto que não negasse sua condição de quem vivia arrependido e decepcionado por ter nascido homem. Condição humana causadora de sofrimento que seu Bruno enfrentava com denodo e destemor. Não criava problema com ninguém. Um dia, hospedou-se no hotel um sujeito de má catadura e de pouca conversa. Dizia-se que se tratava de antigo coronel da Guarda Nacional, que fora à cidade resolver problemas cartoriais.
            Certa feita, achava-se o tal coronel sentado a uma mesa perto da janela a chupar grosso charuto e a ler um jornal. De vez em quando tossia e alisava os bastos bigodões. Passado algum tempo, o homem chama um dos garçons. Lá estava Seu Bruno, em pé, solícito, guardanapo no braço, para atender o freguês.
            - Pois não, senhor!
            O coronelão olhou desconfiado para aquela figura com ar de subserviente e perguntou:
            - Que o senhor tem pra gente comer?
            Seu Bruno perfilou-se, encostou as duas mãos nos peitos, dobrou-se em direção ao rosto do cliente e disse com simplicidade:
            - Fora eu, tem arroz, feijão, carne bovina, carne suína...
SEGUNDO ATO.
            Do outro lado da rua, havia uma pensão em que se hospedava o juiz de direito da cidade. A delicadeza do doutor era conhecida, expressa, sobretudo, em sua fala mansa e melíflua. Morigerado em tudo, sempre vestia terno claro e não tirava a gravata nem mesmo para almoçar. Em sua mansidão, havia um traço de personalidade que poucos conheciam: era antologicamente espirituoso. Um dia, hora do almoço, dirigiu-se à dona da pensão e pediu-lhe que mandasse a cozinheira fritar dois ovos. Isto feito, a cozinheira olha para o juiz e pergunta: “Doutor Fulano de Tal, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que ele respondeu: “Não, minha senhora, só uso talco ROSS...

TERCEIRO ATO.

            Nas festas religiosas, a de São Sebastião e a de Nossa Senhora das Mercês, montavam-se as quermesses. Brincava-se no carrossel, na roda-gigante; ia-se tentar a sorte no tiro ao alvo ou jogar argolas para fisgar garrafas de bebida ou carteiras de cigarros, que eram dispostas no chão, sobre uma lona, separadas do público por uma corda disposta, em forma de quadrado, à maneira ringue... Grandes gramofones tocavam músicas a pedido ou em forma de oferenda, como, por exemplo: “atenção, senhorita de vestido estampado de flores azuis, alguém de iniciais ABMS oferece esta página musical a você...” Em meio à gente, moçoilas procuravam conquistar adeptos para o partido azul ou para o partido vermelho. Escolhido um ou outro, o votante fixava na blusa um alfinete enfiado num pequeno laço com a com a cor do partido escolhido.
            Nas barracas, de tudo se vendia: bolo de milho, bolo de batata, bolo de grude, café, cerveja e até mesmo uma cachacinha da boa. Pois bem, um sujeito conhecido por Mambica era a gaiatice em pessoa...Trabalhava ele numa dessas barracas. Era o responsável por vender bebidas alcoólicas. Se alguém encostava, ele já ia enchendo o copo, dizendo: “pronto, freguês.” Este olhava para ele e dizia não ter pedido nenhuma bebida. Mambica, então, pegava do copo, olhava, de novo, para o cliente e dizia: “Ah, não quer não? Pois a casa quer...” E tibungo: tomava de uma só tragada aquilo que para ele era o néctar dos deuses do Olimpo. Nessa brincadeira, tomava porres e mais porres... Passada a semana dos festejos, era desfazer as barracas e esperar a próxima festa. Ora, Mambica trabalhara cinco dias e, por isso, ao fim de tudo reclamou seu pro labore ao dono da barraca. Este olhou bem fundo nos olhos do malandro e aduziu: “Meu amigo, nada lhe devo. Fazendo as contas, vi que você bebeu todo o lucro...
            Voilà...

           



























           FIAPOS DA MEMÓRIA- XIV
                                     Hugo Martins
            Hoje à tarde, procedia à declinação do artigo na língua grega quando a cabeça começou a devanear em busca de assunto para a confecção deste texto. Espicaçado, cavouquei os meandros das lembranças quando, de súbito, saltaram-me, dos escaninhos do bestunto, historietas que ouvia, quando menino, sobre algumas figuras singulares da cidade de Itapipoca. Não as presenciei, ninguém me contou. Como fazem parte de uma espécie de anedotário local, repasso-as como faziam, outrora, os rapsodos. Estes sempre acrescentavam algo a mais nas narrativas que transmitiam. Isso faço também, em obediência à sabedoria popular que diz:” quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto.” É nessa atmosfera de quase ficção que aqui as exponho. Vamos a elas.
            O hotel da Nana Barroso, senhora de exageradas ancas e generosos seios, ficava no centro da cidade. Com meia dúzia de janelas dando para rua principal, sua entrada situava-se numa rua secundária, em cujo centro duas tamareiras abriam suas palmas ao sopro do vento. Na outra esquina, o bar do Chico da Bomba escancarava suas portas por onde se viam homens acomodados nas mesas, virando copos de cerveja ou jogando carteado. A reputação do hotel era reconhecida e comentada. A comida era farta, os quartos amplos e ventilados, e a delicadeza da proprietária se pintava em seu rosto gordo e risonho.
            Por lá trabalhava um garçom de nome Bruno. De estatura baixa e magreza visível, seu Bruno, costumeiramente, vestia, à moda farda, calça azul-escuro e camisa branca de mangas curtas. Os sapatos eram pretos e engraxados no capricho. O espírito galhofeiro do povo dizia que o garçom “jogava pedra com a mão esquerda”. Vi-o algumas vezes e achava seus trejeitos meio forçados. As mãos, levadas à altura do peito, estiradas como a mostrar as unhas para alguém, mais acentuavam sua natureza de maricas. A voz era fina como um si menor soprado numa flauta. Não esboçava um só gesto que não negasse sua condição de quem vivia arrependido e decepcionado por ter nascido homem. Condição humana causadora de sofrimento que seu Bruno enfrentava com denodo e destemor. Não criava problema com ninguém. Um dia, hospedou-se no hotel um sujeito de má catadura e de pouca conversa. Dizia-se que se tratava de antigo coronel da Guarda Nacional, que fora à cidade resolver problemas cartoriais.
            Certa feita, achava-se o tal coronel sentado a uma mesa perto da janela a chupar grosso charuto e a ler um jornal. De vez em quando tossia e alisava os bastos bigodões. Passado algum tempo, o homem chama um dos garçons. Lá estava Seu Bruno, em pé, solícito, guardanapo no braço, para atender o freguês.
            - Pois não, senhor!
            O coronelão olhou desconfiado para aquela figura com ar de subserviente e perguntou:
            - Que o senhor tem pra gente comer?
            Seu Bruno perfilou-se, encostou as duas mãos nos peitos, dobrou-se em direção ao rosto do cliente e disse com simplicidade:
            - Fora eu, tem arroz, feijão, carne bovina, carne suína...
SEGUNDO ATO.
            Do outro lado da rua, havia uma pensão em que se hospedava o juiz de direito da cidade. A delicadeza do doutor era conhecida, expressa, sobretudo, em sua fala mansa e melíflua. Morigerado em tudo, sempre vestia terno claro e não tirava a gravata nem mesmo para almoçar. Em sua mansidão, havia um traço de personalidade que poucos conheciam: era antologicamente espirituoso. Um dia, hora do almoço, dirigiu-se à dona da pensão e pediu-lhe que mandasse a cozinheira fritar dois ovos. Isto feito, a cozinheira olha para o juiz e pergunta: “Doutor Fulano de Tal, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que ele respondeu: “Não, minha senhora, só uso talco ROSS...

TERCEIRO ATO.

            Nas festas religiosas, a de São Sebastião e a de Nossa Senhora das Mercês, montavam-se as quermesses. Brincava-se no carrossel, na roda-gigante; ia-se tentar a sorte no tiro ao alvo ou jogar argolas para fisgar garrafas de bebida ou carteiras de cigarros, que eram dispostas no chão, sobre uma lona, separadas do público por uma corda disposta, em forma de quadrado, à maneira ringue... Grandes gramofones tocavam músicas a pedido ou em forma de oferenda, como, por exemplo: “atenção, senhorita de vestido estampado de flores azuis, alguém de iniciais ABMS oferece esta página musical a você...” Em meio à gente, moçoilas procuravam conquistar adeptos para o partido azul ou para o partido vermelho. Escolhido um ou outro, o votante fixava na blusa um alfinete enfiado num pequeno laço com a com a cor do partido escolhido.
            Nas barracas, de tudo se vendia: bolo de milho, bolo de batata, bolo de grude, café, cerveja e até mesmo uma cachacinha da boa. Pois bem, um sujeito conhecido por Mambica era a gaiatice em pessoa...Trabalhava ele numa dessas barracas. Era o responsável por vender bebidas alcoólicas. Se alguém encostava, ele já ia enchendo o copo, dizendo: “pronto, freguês.” Este olhava para ele e dizia não ter pedido nenhuma bebida. Mambica, então, pegava do copo, olhava, de novo, para o cliente e dizia: “Ah, não quer não? Pois a casa quer...” E tibungo: tomava de uma só tragada aquilo que para ele era o néctar dos deuses do Olimpo. Nessa brincadeira, tomava porres e mais porres... Passada a semana dos festejos, era desfazer as barracas e esperar a próxima festa. Ora, Mambica trabalhara cinco dias e, por isso, ao fim de tudo reclamou seu pro labore ao dono da barraca. Este olhou bem fundo nos olhos do malandro e aduziu: “Meu amigo, nada lhe devo. Fazendo as contas, vi que você bebeu todo o lucro...
            Voilà...

           


























            

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