terça-feira, 9 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA - V
                                                           Hugo Martins

            O só nome dele provocava arrepios. Era tido como homem mau, portador de muitos crimes nas costas. Tipo negroide, alto, voz grave, sempre de calças e camisa azuis, com grandes óculos de sol, espécie de máscara que lhe escondia os olhos frios e quase sem expressão. Assim o vi quando era eu adulto. No tempo de minha infância, ele não passava, para mim, de um homem valente e disposto a matar quem se lhe opunha ou era seu inimigo.  Delicado, atenciosos, a todos recebia com boas-vindas, sorrisos e muita simpatia. Seu bar era reduto de todo itapipoquense que desejasse comer uma suculenta panelada ou um pedaço de carne de carneiro assada na brasa, servidos juntamente com cerveja gelada. Em conversa com ele, não era difícil ver o facínora, o sicário, cuja alma aparentava uma serenidade intraduzível, que escondia total indiferença com a vida do outro. Nunca tirava as armas do cós: uma peixeira e um revólver. Exercia a profissão de marchante. Mantinha, no mercado público da cidade, um box em que vendia todo tipo de carne...
            Eram muitas as histórias que se contavam dele. Dizia-se que, por ser protegido por família influente, a lei não o alcançava. Sempre se safava de alguma maneira e nunca foi preso. Não mexia com ninguém, mas cultivava uma ética cabocla de quem não teme quem quer que seja. Certa feita, um sujeito valentão, de nome Agobar, disse poucas e boas com ele e o desafiou para uma briga. Não brigava usando os punhos. Ou a bala cantava ou a peixeira sangrava ou lanhava. Uma ocasião, encontrou o tal Agobar bêbado e dormindo a sono solto numa calçada. Era madrugada. Didi Bezerra por ele passou, acordou-o e disse-lhe que não queria conversa com ele naquele estado. Lembrou-lhe que podia desafiá-lo ou dizer a ele todos os desaforos, mas não em estado de embriaguez, que ele não atirava em indefesos ou dorminhocos... Desde esse dia, acabaram-se as dissenções, nenhum problema mais surgiu entre os dois.
            Certa feita, correu na cidade, notícia dando conta de que um motorista de ônibus de uma empresa local teria dito que “em Itapipoca não tinha homem”. A coisa chegou aos ouvidos do sicário. À tarde, dirigiu-se este ao centro da cidade, conversou com algumas pessoas, sentou-se em uma banqueta na calçada da agência de ônibus... O ônibus do horário ia encostando na calçada. A porta se abriu, saltaram os passageiros e, por fim, o motorista. Quando este se dirigia para o interior da agência, Didi sacou de um revólver, disse ao coitado do pai de família que “em Itapipoca tinha homem, sim” e, sem dó ou piedade, sapecou-lhe três balaços nos peitos. Morte imediata. Se foi a julgamento não me lembra. Nunca tive notícia de ele ter sido preso alguma vez. A não ser no último crime que cometeu...
            Era homem de muitos casos amorosos. Quando se referia a alguma das mulheres dele, chamava-as de filial. Matriz era a que estava morando e com ele dormindo no mesmo teto. Num dia aziago, foi visitar uma de suas cortesãs e com ela encetou uma discussão. Resultado: deu vário tiros na mulher, que morreu na hora, e quatro tiros nas costas do filho da mulher, que não resultou em morte. Na sessão do júri, o garoto foi convidado a tirar a blusa e mostrar a cicatriz dos quatro balaços. O assassino foi condenado a vinte quatro anos de prisão. Eram outros os tempos. A Constituição de 1988 já vigia. Os coronéis de baraço e cutelo já não existiam. Didi foi levado ao presídio, onde teve morte natural...
            Natureza selvagem, ignorante e totalmente destituído de piedade, Didi deixou de ser mito para o povo de Itapipoca, que, simplesmente o temia. Seu passamento foi um alívio para muita gente.
            Tinha eu nove anos quando, pela primeira, vez ouvi falar na reputação desse ser. Faz parte da galeria de tipos característicos da cidade de Itapipoca ao tempo em que era eu menino de calças curtas e suspensórios... 

            

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