FIAPOS DA MEMÓRIA - V
Hugo Martins
O só nome
dele provocava arrepios. Era tido como homem mau, portador de muitos crimes nas
costas. Tipo negroide, alto, voz grave, sempre de calças e camisa azuis, com
grandes óculos de sol, espécie de máscara que lhe escondia os olhos frios e
quase sem expressão. Assim o vi quando era eu adulto. No tempo de minha
infância, ele não passava, para mim, de um homem valente e disposto a matar
quem se lhe opunha ou era seu inimigo. Delicado, atenciosos, a todos recebia com
boas-vindas, sorrisos e muita simpatia. Seu bar era reduto de todo
itapipoquense que desejasse comer uma suculenta panelada ou um pedaço de carne
de carneiro assada na brasa, servidos juntamente com cerveja gelada. Em
conversa com ele, não era difícil ver o facínora, o sicário, cuja alma aparentava
uma serenidade intraduzível, que escondia total indiferença com a vida do
outro. Nunca tirava as armas do cós: uma peixeira e um revólver. Exercia a
profissão de marchante. Mantinha, no mercado público da cidade, um box em que
vendia todo tipo de carne...
Eram muitas
as histórias que se contavam dele. Dizia-se que, por ser protegido por família
influente, a lei não o alcançava. Sempre se safava de alguma maneira e nunca
foi preso. Não mexia com ninguém, mas cultivava uma ética cabocla de quem não
teme quem quer que seja. Certa feita, um sujeito valentão, de nome Agobar, disse
poucas e boas com ele e o desafiou para uma briga. Não brigava usando os
punhos. Ou a bala cantava ou a peixeira sangrava ou lanhava. Uma ocasião,
encontrou o tal Agobar bêbado e dormindo a sono solto numa calçada. Era
madrugada. Didi Bezerra por ele passou, acordou-o e disse-lhe que não queria
conversa com ele naquele estado. Lembrou-lhe que podia desafiá-lo ou dizer a
ele todos os desaforos, mas não em estado de embriaguez, que ele não atirava em
indefesos ou dorminhocos... Desde esse dia, acabaram-se as dissenções, nenhum
problema mais surgiu entre os dois.
Certa feita,
correu na cidade, notícia dando conta de que um motorista de ônibus de uma
empresa local teria dito que “em Itapipoca não tinha homem”. A coisa chegou aos
ouvidos do sicário. À tarde, dirigiu-se este ao centro da cidade, conversou com
algumas pessoas, sentou-se em uma banqueta na calçada da agência de ônibus... O
ônibus do horário ia encostando na calçada. A porta se abriu, saltaram os
passageiros e, por fim, o motorista. Quando este se dirigia para o interior da
agência, Didi sacou de um revólver, disse ao coitado do pai de família que “em
Itapipoca tinha homem, sim” e, sem dó ou piedade, sapecou-lhe três balaços nos
peitos. Morte imediata. Se foi a julgamento não me lembra. Nunca tive notícia
de ele ter sido preso alguma vez. A não ser no último crime que cometeu...
Era homem de
muitos casos amorosos. Quando se referia a alguma das mulheres dele, chamava-as
de filial. Matriz era a que estava morando e com ele dormindo no mesmo teto.
Num dia aziago, foi visitar uma de suas cortesãs e com ela encetou uma
discussão. Resultado: deu vário tiros na mulher, que morreu na hora, e quatro
tiros nas costas do filho da mulher, que não resultou em morte. Na sessão do
júri, o garoto foi convidado a tirar a blusa e mostrar a cicatriz dos quatro
balaços. O assassino foi condenado a vinte quatro anos de prisão. Eram outros
os tempos. A Constituição de 1988 já vigia. Os coronéis de baraço e cutelo já
não existiam. Didi foi levado ao presídio, onde teve morte natural...
Natureza
selvagem, ignorante e totalmente destituído de piedade, Didi deixou de ser mito
para o povo de Itapipoca, que, simplesmente o temia. Seu passamento foi um alívio
para muita gente.
Tinha eu
nove anos quando, pela primeira, vez ouvi falar na reputação desse ser. Faz
parte da galeria de tipos característicos da cidade de Itapipoca ao tempo em
que era eu menino de calças curtas e suspensórios...
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