segunda-feira, 29 de agosto de 2016

SONHO SINGULAR
                                              Hugo Martins
Hoje tive um sonho pra lá de esquisito. É como se alguém tivesse ido a Monteiro Lobato, pedido uma pitada de pó de pirlimpimpim à boneca Emília e me houvesse, impunemente, jogado aos olhos. De repente, vejo-me no Rio de Janeiro, não o dos tempos atuais, mas o dos tempos idos, à época em que bondes, faetontes e tílburis cortavam a cidade, as mulheres desfilavam de vestido longo, leque e sombrinha, enquanto os homens, envolvidos na gravidade dos ternos, de mistura com a severidade da barba, do pincenê e da corrente do relógio atravessando, de um bolso a outro, o ventre encoberto pelo colete. Na Rua do Ouvidor, as pessoas se encontravam, as vaidades desfilavam, e a cidade respirava suas acontecências. Vejo, então, saindo de uma loja de bricabraques, um senhor de cabelos e barbas gizados pelo tempo. Pareceu-me familiar: ar aristocrata, olhar, a um tempo, franco e perscrutador, caminhava em direção a uma livraria nas proximidades. Caminhava de braços dados com uma mulher de feições senhoriais, de saias longas plissadas, blusa preta de mangas compridas, de longos cabelos pretos, penteados para trás em forma de trunfa, rosto limpo e colo ebúrneo. Não tive coragem de abordá-los. Esperei-os entrar na livraria e dela saírem...  Logo depois, tratei de entrar na livraria e perguntar ao livreiro quem era aquele casal. O senhor olhou-me e perguntou-me se eu morava no Rio de Janeiro. Quando disse que não, o senhor, atrás do balcão, não estranhou a pergunta e tratou de me falar do homem e da mulher que tanto encanto me provocou.
            - Aquela senhora é portuguesa da cidade do Porto, dona de invejável cultura humanística, bagagem de que, muitas vezes, se serve para orientar as leituras do marido e corrigir-lhe os textos. Trata-se de Dona Carolina Augusta Xavier de Novaes. Vive com ele há mais de trinta anos e tem, indiretamente, alguma participação na obra do marido.
Deixei o homem soltar a língua:
            - Ele, ainda menino, foi tipógrafo, profissão que lhe colou como sinete fatal, pois tinha de ser homem de letras, como é, e dos maiores. Aos vinte e cinco anos, já era jornalista de nomeada e, pode-se dizer, apropriadamente, era o verdadeiro polígrafo, pois militou em quase todos os gêneros literários. Publicou: romances, contos, crônicas, poesia, teatro, crítica literária e epistolografia (arte de escrever cartas). É escritor cuja preocupação é marcadamente voltada para a análise psicológica do personagem, não com a postura de um clínico ou terapeuta buscando soluções para as dores da alma, mas, antes, buscando deslindar os nós, os entraves, as máscaras, a mesquinhez, a hipocrisia e tudo aquilo que faz do homem um joguete do destino. Tal característica, muito presente nos romances ditos realistas e nos contos, também se entremostra com tinturas mais brandas em todo o resto de sua criação literária. Assim, a matéria tempo, o jogo frívolo da vaidade, a traição de princípios, o individualismo exacerbado, os amores tangidos pelo mero interesse e outras antivirtudes que fazem do homem um animal mentiroso e dissimulado, misturado no cadinho de uma linguagem límpida, enxuta e sobriamente correta, fazem desse senhor um homem de letras, cuja análise do homem e do mundo ombreia com as mesmas sutilezas literárias de Flaubert e Fiódor Dostoiévski...
            O homem continuou:
            - Ali vai ele com sua sisudez pesada. Por trás daquela gravidade e do pouco riso, está um homem grávido de sensibilidade estuante, que parece ter guardado todo seu amor só para aquela mulher... Ela tinha tanta certeza do ardente amor que o marido por ela sentia que, dizem os biógrafos, alimentava o desejo de que ele morresse primeiro, pois sabia que seu sofrimento (dele) seria insuportável. E tinha razão. Ela morre em 1904. Desde, então, Machado de Assis enfrentou um martírio. Dizem que ia ao túmulo de Carolina toda semana, e sempre levava um grande buquê de rosas que punha sobre a lápide. E definhou, definhou... Os problemas com a saúde se acentuaram, e veio a falecer em 1908.
            - Deixou para ela um soneto, que, ao aviso do poeta Manuel Bandeira, é uma das páginas mais melancólicas da literatura brasileira. Trata-se do poema A CAROLINA, em que Machado deixa como que registrado que a morte da esposa também foi, para ele, também, sua própria morte.
            Despertei do sonho. Mesmo que não costume lembrar sonhos, este se me revelou com uma nitidez que nem Machado explica, tampouco Freud.
            Tratei de transcrever o soneto. Ei-lo, explícito e sem enfeites:

                                                     A CAROLINA    
                                    Querida, ao pé do leito derradeiro
                                   Em que descansas dessa longa vida,
                                   Aqui venho e virei, pobre querida,
                                   Trazer-te o coração do companheiro.

                                   Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
                                   Que, a despeito de toda humana lida,
                                   Fez a nossa existência apetecida
                                   E num recanto pôs o mundo inteiro.

                                   Trago-te flores, - restos arrancados
                                   Da terra que nos viu passar unidos
                                   E ora mortos nos deixa e separados.

                                   Que eu, se tenho nos olhos malferidos
                                   Pensamentos de vida formulados,
                                   São pensamentos idos e vividos.

            O poema traduz um compromisso. Um reconhecimento prazeroso. Uma oferenda, uma certeza e, por fim, reconhecida e irremediável perda. O tema grande se encontra no primeiro terceto: a morte na alma.
           

                                  
           



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