SONHO
SINGULAR
Hugo Martins
Hoje
tive um sonho pra lá de esquisito. É como se alguém tivesse ido a Monteiro
Lobato, pedido uma pitada de pó de pirlimpimpim à boneca Emília e me houvesse,
impunemente, jogado aos olhos. De repente, vejo-me no Rio de Janeiro, não o dos
tempos atuais, mas o dos tempos idos, à época em que bondes, faetontes e
tílburis cortavam a cidade, as mulheres desfilavam de vestido longo, leque e
sombrinha, enquanto os homens, envolvidos na gravidade dos ternos, de mistura
com a severidade da barba, do pincenê e da corrente do relógio atravessando, de
um bolso a outro, o ventre encoberto pelo colete. Na Rua do Ouvidor, as pessoas
se encontravam, as vaidades desfilavam, e a cidade respirava suas
acontecências. Vejo, então, saindo de uma loja de bricabraques, um senhor de
cabelos e barbas gizados pelo tempo. Pareceu-me familiar: ar aristocrata,
olhar, a um tempo, franco e perscrutador, caminhava em direção a uma livraria
nas proximidades. Caminhava de braços dados com uma mulher de feições
senhoriais, de saias longas plissadas, blusa preta de mangas compridas, de
longos cabelos pretos, penteados para trás em forma de trunfa, rosto limpo e
colo ebúrneo. Não tive coragem de abordá-los. Esperei-os entrar na livraria e
dela saírem... Logo depois, tratei de
entrar na livraria e perguntar ao livreiro quem era aquele casal. O senhor
olhou-me e perguntou-me se eu morava no Rio de Janeiro. Quando disse que não, o
senhor, atrás do balcão, não estranhou a pergunta e tratou de me falar do homem
e da mulher que tanto encanto me provocou.
- Aquela senhora é portuguesa da
cidade do Porto, dona de invejável cultura humanística, bagagem de que, muitas
vezes, se serve para orientar as leituras do marido e corrigir-lhe os textos.
Trata-se de Dona Carolina Augusta Xavier de Novaes. Vive com ele há mais de
trinta anos e tem, indiretamente, alguma participação na obra do marido.
Deixei
o homem soltar a língua:
- Ele, ainda menino, foi tipógrafo,
profissão que lhe colou como sinete fatal, pois tinha de ser homem de letras,
como é, e dos maiores. Aos vinte e cinco anos, já era jornalista de nomeada e,
pode-se dizer, apropriadamente, era o verdadeiro polígrafo, pois militou em
quase todos os gêneros literários. Publicou: romances, contos, crônicas,
poesia, teatro, crítica literária e epistolografia (arte de escrever cartas). É
escritor cuja preocupação é marcadamente voltada para a análise psicológica do
personagem, não com a postura de um clínico ou terapeuta buscando soluções para
as dores da alma, mas, antes, buscando deslindar os nós, os entraves, as
máscaras, a mesquinhez, a hipocrisia e tudo aquilo que faz do homem um joguete
do destino. Tal característica, muito presente nos romances ditos realistas e nos
contos, também se entremostra com tinturas mais brandas em todo o resto de sua
criação literária. Assim, a matéria tempo, o jogo frívolo da vaidade, a traição
de princípios, o individualismo exacerbado, os amores tangidos pelo mero
interesse e outras antivirtudes que fazem do homem um animal mentiroso e
dissimulado, misturado no cadinho de uma linguagem límpida, enxuta e
sobriamente correta, fazem desse senhor um homem de letras, cuja análise do
homem e do mundo ombreia com as mesmas sutilezas literárias de Flaubert e
Fiódor Dostoiévski...
O homem continuou:
- Ali vai ele com sua sisudez
pesada. Por trás daquela gravidade e do pouco riso, está um homem grávido de
sensibilidade estuante, que parece ter guardado todo seu amor só para aquela
mulher... Ela tinha tanta certeza do ardente amor que o marido por ela sentia
que, dizem os biógrafos, alimentava o desejo de que ele morresse primeiro, pois
sabia que seu sofrimento (dele) seria insuportável. E tinha razão. Ela morre em
1904. Desde, então, Machado de Assis enfrentou um martírio. Dizem que ia ao
túmulo de Carolina toda semana, e sempre levava um grande buquê de rosas que
punha sobre a lápide. E definhou, definhou... Os problemas com a saúde se
acentuaram, e veio a falecer em 1908.
- Deixou para ela um soneto, que, ao
aviso do poeta Manuel Bandeira, é uma das páginas mais melancólicas da
literatura brasileira. Trata-se do poema A CAROLINA, em que Machado deixa como
que registrado que a morte da esposa também foi, para ele, também, sua própria
morte.
Despertei do sonho. Mesmo que não
costume lembrar sonhos, este se me revelou com uma nitidez que nem Machado
explica, tampouco Freud.
Tratei de transcrever o soneto.
Ei-lo, explícito e sem enfeites:
A CAROLINA
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que
descansas dessa longa vida,
Aqui venho e
virei, pobre querida,
Trazer-te o
coração do companheiro.
Pulsa-lhe
aquele afeto verdadeiro
Que, a
despeito de toda humana lida,
Fez a nossa
existência apetecida
E num recanto
pôs o mundo inteiro.
Trago-te
flores, - restos arrancados
Da terra que
nos viu passar unidos
E ora mortos
nos deixa e separados.
Que eu, se
tenho nos olhos malferidos
Pensamentos
de vida formulados,
São
pensamentos idos e vividos.
O poema traduz um compromisso. Um
reconhecimento prazeroso. Uma oferenda, uma certeza e, por fim, reconhecida e
irremediável perda. O tema grande se encontra no primeiro terceto: a morte na
alma.
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