terça-feira, 16 de outubro de 2012


Em que estou pensando? Em abandonar minha profissão de professor. Este não é ofício lucrativo, pois se ministro aulas há quarenta anos, do curso médio à  universidade, e até hoje nada amealhei, só encontro uma saída: vestir um paletó, construir discursos melosos, colocá-los sob o braço e tratar de fundar uma dessas igrejas, que, após a promulgação da Constituição de 1988, vão surgindo a cada esquina desse país de tanta gente fervorosa. Parece que não me será difícil, basta amontoar um magote de fiéis e prometer a eles o reino dos céus. Como fazer isso?

Em primeiro lugar, temos de estar convencidos da existência de gente que não encontra dentro de si mesma uma razão para viver e, rendida ao seu vazio existencial, entregam, sem esforço, sua alma doente a qualquer espertalhão que sabe costurar balelas convincentes para eleger apenas “eleitos” ao paraíso. É bom reforçar que aquele que não ouvir as palavras do pregador não ganhará o reino dos céus. 

Em segundo lugar, abrir um arsenal de palavras mágicas para atingir o coração dos fiéis. Por exemplo: “caros fiéis, vós que tendes a alma amargurada e o espírito combalido pelos insistentes apelos da vida mundana, vinde a esta casa de Deus e nela permanecei, pois, só aqui, encontrareis a paz e a bonança que o dinheiro não proporciona.” Aqui podeis orar e meditar e ser ouvido pelo senhor, que nada vos negará.... É suficiente, porém, pagar o dízimo para que nossa função de pregador se mantenha e esta casa permaneça de pé para a alegria e a satisfação de nosso salvador.” Não tenham dúvidas,leitores, após essa lenga-lenga, logo se formará um grande cortejo de fiéis, abrindo, pressurosos, suas carteiras e despejando seu parco dinheirinho sobre o altar para maior glória e a festiva alegria do abnegado pastor.

Em terceiro lugar, temos de tratar de escrever livros de orações e conselhos e, também, abrir uma conta bancária onde será, certamente, depositado o dinheirinho dos confiantes compradores. De regra, o conteúdo dos livretos terá sempre uma marca: ajudar os fiéis a sair das dificuldades financeiras e outros apertinhos próprios do cotidiano. Assim, desfilarão pela obra frases de todo jaez, sempre com o lembrete: tende fé e o senhor vos ouvirá. Vamos ensaiar algumas: “irmão na fé, não vos deixeis abater pelas pequenas derrotas do cotidiano, Deus é fiel e não permitirá que pequenos incidentes arquitetados pelo “inimigo” (dizem ser o demônio) perturbem a tranquilidade que vós encontrastes na oração.” Ou, então: “Por que temer o amanhã, se vós o construís num presente recamado por orações?” Lembrai que o senhor ensinou aos incréus que toda tempestade pode ser domada. Basta recorrer à fé que “move montanhas.” Vamos bolar outra frase dessa natureza. “Meus irmãos na fé, escutai sempre o que diz o senhor quando orardes; Ele não se engana nem engana. Qualquer prece saída do coração, estando ungida de sinceridade e fervor, a ele chegará e, cedo, vós tereis a resposta que vós esperáveis. Segurai na mão de Deus. Levantai os corações ao alto; confiai e orai, pois nada vos acontecerá, pois o senhor é vigilante, onisciente e onipresente...”

Importante: nenhuma frase deve dispensar o uso da 2ª pessoa do plural. Impressiona, transpira autoridade e dá importância ao pregador ainda que nada signifiquem. Tem o mesmo efeito que o discurso verborrágico de rábulas e advogados pretensiosos. Funciona e convence mesmo grávida de sofismas.

Por fim, é esperar e consultar diariamente a conta bancária. Nela está toda a paz, toda a ventura, todo o bem-estar, toda a bonança do pregador. Os fiéis são os pastores, e tudo lhes faltará, inclusive a capacidade de reconhecer que a paz que procuram está dentro de suas alminhas tolas. Quanto ao pregador... “nada a declarar”, como diria Armando Falcão, pois não se discute o “óbvio ululante”, como diria o anjo pornográfico.

Noutra oportunidade, darei o nome da igreja que pretendo fundar, sua organização, seus bispos e ajudantes.  Espero que não me deixem na mão. Também quero me arrumar...

Depois de tudo no seu lugar, vou pensar se vale a pena dar aulas. Se compensa ajudar a estudantada a pensar. Sei não...

Como fecho, convido todos os professores a fazerem parte desse empreendimento...

A propósito, lembro aqui uma letra do cancioneiro popular que dizia:

                        “Camelô, na conversa,

                        Ele vende algodão por veludo.

                        Está provado, porque, neste mundo,

                        Tem bobo pra tudo.”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


 


PARECER (contra a patifaria pedagógica)


                                                                                                 Hugo Martins

 

            Chegaram às mãos do subscritor três simpáticos requerimentos da lavra de alunos do Curso Médio. Dois deles perseguem o direito a fazer recuperação, calcando a pretensão na PORTARIA nº 178/GDC, de 18 de março de 2005. O outro não vem esteado em dispositivo legal nenhum. Os três soaram a este parecerista como o ato único de uma ópera-bufa mal ensaiada, em face da desfaçatez de que estão imbuídos. O autor deste parecer não é crítico teatral, mas, por força das circunstâncias, vai aqui ensaiar sê-lo, pelas razões a seguir escandidas.

 

            Senhor Diretor de Ensino, entendemos que o ensino-aprendizagem “da última flor do Lácio” não se deve reduzir ao repasse de áridos preceitos gramatiqueiros, coadjuvados pelas indefectíveis exceções, apanágio de quem não intui honestamente a importância de que se deve revestir o ensino da língua e, por isso, recorre àqueles expedientes para escamotear sua incompetência ou exercer sobre o espírito flébil do alunado uma espécie  de terror, incutindo naquelas pobres almas a idéia bastarda de que o idioma português é muito difícil e outras idéias mentirosas afins. Ora, é sabido que, sobretudo em bodegas pedagógicas particulares, esta visão do ensino do idioma português já se tornou lugar comum, repetido em ceca e meca. Aliás, parafraseando Lauro de Oliveira Lima, o professor de língua portuguesa, no Brasil, é como o cão de Pavlov, mal ouve a sineta, começa a salivar gramática. Enquanto isso, o essencial no ensino desse belo idioma não freqüenta a sala de aula. O aluno lê mal, escreve sofrivelmente, fala tropeçando em balbucios, apóia-se em muletas verbais e chavões batidos e rebatidos, sem falar na antológica incapacidade de interpretar o que lê, escuta ou vê. Em outras palavras, o ensino centrado na gramática pela gramática é inócuo, mentiroso, desonesto e fere os brios intelectuais de quem ousa pensar neste País de descerebrados.

 

            Senhor Diretor, o pensador José Ortega y Gasset dizia, numa espécie de lapidar parêmia: “eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Em outras palavras, o espanhol cuidava em dizer que homem se define no tempo histórico que vivencia. Paciente desse eterno devir, vítima do tempo e das vicissitudes que deste advêm, há de compreender o habitat em que passeia sua alma na busca incessante de um sentido para a sua existência. Nesse momento, é que se torna mais verdadeiro e legítimo o “Cogito, ergo sum” cartesiano. Nesse diapasão, a existência do homem não pode ser apenas um passivo estar no mundo, pois, assim, não passaria ele de um títere desajeitado, agente e paciente de todas as circunstâncias, mas desorientado, sem norte, vazio e sem vida...

 

            A familiaridade com o modo de ser da língua, suas riqueza e variedade lexicais, seus multifacetados torneios sintáticos, suas possibilidades semântico-expressivas formam um rico arsenal para que o homem cada vez mais se revele ao mundo e revele a si mesmo esse mesmo mundo. A linguagem, com especialidade a que se manifesta pela palavra, é a grande razão do binômio homem e mundo. Os gregos chamavam a Deus de LOGOS; os latinos chamavam-NO o VERBO. Basta ler o primeiro parágrafo do Evangelho segundo São João. O próprio livro que enfeixa e revela os ensinamentos divinos é chamado metaforicamente A PALAVRA. Nessa linha de raciocínio, o pensador francês Pierre Teillard Chardin escreveu uma obra magistral a que intitulou O HOMEM, O MUNDO E DEUS. Quer dizer, a compreensão do transcendente, do metafísico, do divino sempre se dará pela palavra, a “palavramundo” drummondiana, neologismo criado pelo poeta de Itabira para dizer, como ele dizia, que toda palavra está grávida de mundo.

 

            É por essa senda que o professor intenta ciceronear seus alunos. Ensaia conduzi-los, sem que eles se dêem conta das urzes e pedras do caminho. Aos poucos, vão abrindo suas próprias veredas, lendo, escrevendo, falando, interpretando e internalizando comportamentos lingüísticos, distantes da ortodoxia bem comportada e da gravidade cretina dos gramatiqueiros de linguagem e pedagogia insípidas. Aos educandos basta o praticar o ato comunicativo em suas quatro possibilidades, assim como os pássaros, que voam, e os peixes, que nadam, sem necessitar aprender aquilo para que se revelam, de berço, vocacionados. Sim, Senhor Diretor, nossos jovens estão necessitando estudar língua portuguesa não memorizando regras absurdas e as exceções das exceções das exceções. Basta colocar nas mãos deles o essencial para a aprendizagem desse belo, rico e saboroso idioma, assunto de que nos ocuparemos a seguir.

 

            Prezado Diretor, iniciadas as atividades letivas, já na primeira aula, este parecerista elabora, com a turma, uma espécie de código silencioso, de cujos dispositivos faz-se uma espécie de contrato, de modo que direitos e deveres ficam explicitados. Trata-se de uma espécie de roteiro deontológico.

            Em primeiro lugar, apresentado o programa, fica acertado que não haverá aulas de gramática traduzidas em cantilenas monocórdias das regrinhas e exceções. Não. A gramática da língua será vista naturalmente por meio das atividades em que se prioriza o fundamental: falar, ler, escrever e ouvir. Tendo sempre em mente a competência lingüística do falante, aquela a que se refere Noam Chomsky, busca-se simplesmente e tão-só exercitar o desempenho lingüístico do aluno. Deixa-se de lado todo e qualquer preconceito em relação à idéia maniqueísta erro e acerto. Interessa-nos que o falante vivencie as diversas normas e registros de uma mesma língua. Para isso, muito se encarece a convivência com o texto literário, pois este é, sem dúvida, uma espécie de supranorma, que enfeixa todos os falares possíveis e prováveis de um idioma. A propósito, conforme Chomsky, todos nós conhecemos a língua portuguesa, isto é, usamo-la como instrumento de comunicação no dia-a-dia. Tanto é que letrados e iletrados  se comunicam sem problema alguma. Isto é competência. Claro que se devem relevar os acidentes grau de cultura e quejandos. Agora, não há negar que cada falante utiliza a língua portuguesa, imprimindo a ela um desempenho determinado por fatores extralingüísticos. Isto é desempenho ou performance.

 

            Em segundo lugar, certo de que o professor nada ensina, pois o cérebro do educando não é uma tabula rasa, oca e sem vida, procura-se desenvolver atividades por meio das quais o aluno exercite aqueles potenciais retro-referidos: o falar, o ler, o escrever e o ouvir. De que modo?

 

            Partimos da premissa de que todo professor “ensina” língua portuguesa. Com efeito, quando ministra suas aulas, certamente fá-lo recorrendo à norma padrão-culta, aquela que se encontra em toda situação comunicativa em que há um mínimo de solenidade e maior nível de abstração. Inclusive o professor de língua portuguesa também “ensina” português.

 

            Se alguma diferença existe entre uns e outros, é que os últimos apenas devem dispor de aparato pedagógico mais rico para explicar, com técnica mais apurada, este ou aquele fato lingüístico.

 

            Por essa razão, o professor de língua portuguesa, no seu mister, perseguindo o objetivo de tornar o aluno mais proficiente na utilização de seu idioma, há de criar condições para que o atingimento desse escopo seja uma realidade sem que o aluno seja coagido a memorizar regrinhas sensaboronas e sem nenhuma utilidade.

 

            O modo mais eficiente tem em mira aquelas potencialidades. Assim, desenvolve-se em sala de aula e em casa atividades em que aquelas potencialidades já referidas estejam sempre em jogo.

 

            Colocado o texto à apreciação da turma, lido, relido, feito o levantamento do vocabulário, comentadas as idéias nele presentes e aquelas por ele suscitadas, propõe-se a tarefa doméstica que, à luz do programa, leva o aluno a reescrever o texto, escrevendo frases, parágrafos e outros textos, utilizando o vocabulário do texto lido em sala de aula.

 

Paralelamente, o aluno procede à leitura de uma obra literária, prévia e amplamente motivada. Afasta-se a ficha de leitura convencional proposta pela editora. A nosso ver, tal fichinha sufoca o gosto pela leitura da obra. Feito isso, propomos três ou quatro questões básicas: levantamento do vocabulário, pelo menos quarenta palavras; redação de frases ou parágrafos com as palavras retro-referidas; resumo da obra; e, por fim, redação de um texto em que se enfoca o problema humano entrevisto na obra.

 

Por outro lado, a historiografia da literatura brasileira é trazida à baila por imposição do cumprimento do programa. Durante as exposições, o professor sempre demonstra preocupação com mostrar aos alunos que aquilo não é, na exata acepção da palavra, ensino de literatura. Não se ensina nem se aprende literatura, vivencia-se. Isso se dá com a leitura da obra...

 

Ao fim e ao cabo, a nosso aviso, o professor de língua portuguesa cumpre satisfatoriamente seu papel quando forma um leitor. Explicando: formar o leitor é despertar no alunado o gosto da leitura, fazendo ver a ele o prazer que nela se encontra, o entusiasmo pelo aprender gratuitamente, o desvendar de novos mundos, o que vai na alma humana... Enfim, a convivência com o texto, sobretudo o literário, é uma forma de pensar o mundo, de filosofar, de buscar respostas, de empreender a catarse aristotélica, a depuração do espírito e sintonizar este com as harmonias e desarmonias do universo. Cremos mesmo na idéia de que o formar o leitor é despertar o homem bom, ético e virtuoso e, por conseqüência, é empreender a eliminação do cafajeste, do cretino e do inescrupuloso...

 

Senhor Diretor, no ano letivo que se foi, perseguimos a mesma prática pedagógica de outros anos. Nessa empreitada, levamos a efeito não avaliações ortodoxas e comportadas de provinhas e examezinhos burocráticas... Não. Preferimos cobrar cumprimento de dever, pois estamos convencidos de que não se avalia, ao pé da letra, o nível de aprendizado da língua materna pelo aluno. À medida que evoluímos intelectualmente, vamos progredindo também no desempenho lingüístico, sobretudo na recorrência à norma-padrão culta. Assim é que, passada a tarefa, de regra de caráter doméstico, concede-se ao aluno tempo considerável para que ele desenvolva aquele trabalho. No momento da entrega do trabalho, o professor verifica quem fez ou quem não fez a tarefa. Ao primeiro, concede-se uma cruz, sinal positivo de cumprimento de dever; ao segundo, coloca-se no diário um traço horizontal, que denuncia não-cumprimento de dever. Ao final da etapa ou do semestre, a nota do aluno é concedida de conformidade com a feitura ou não da tarefa. Sintomático: somam-se cruzes e traços horizontais. Daí surge a média da etapa. Elementar, meu caro Diretor, como diria Sherlock Holmes, personagem do romancista inglês Conan Doyle...

 

Magnânimo Diretor, o durante o ano letivo que findou, levamos a efeito 21 (vinte e uma) avaliações: na primeira etapa, 4 (quatro) ; na segunda, 5 (cinco) ; na terceira, 6 ( seis ) e, na última, 6 (seis).

 

A PORTARIA nº 176/GDG, de 18 de março de 2005 diz, in verbis: “No Ensino Médio, independentemente do número de aulas, deverá haver, no mínimo, duas avaliações por etapa”. Ora, o professor que se apegar ferrenhamente ao dispositivo transcrito fará, por ano, apenas OITO AVALIAÇÕES. Em nossa disciplina, durante o ano letivo de 2005, fizemos VINTE E UMA AVALIAÇÕES. Não se exige do bom intérprete, ante o exposto nenhum mergulho hermenêutico mais profundo para chegar à conclusão de que os alunos tiveram, durante toda a jornada pedagógica, amplas chances de proceder à sua recuperação. Basta uma continha simples de subtração. Simples: SUBTRAINDO-SE OITO DE VINTE E UM, CHEGA-SE A TREZE. Dividindo este resultando por quatro, tiveram os alunos três oportunidades para recuperar o que desejavam recuperar... Com um bônus de mais uma oportunidade...

 

Perseguem direito a recuperação os seguintes cidadãos, todos alunos do Curso Médio, turma C, turno manhã: PERI, BRÁS CUBAS, VIRGÍNIA WOLF( nomes fictícios). Vejamos caso a caso.

O aluno Peri, na primeira etapa letiva, não fez nenhuma das tarefas letivas; na segunda etapa, fez três das cinco tarefas levadas a efeito; na terceira, das seis, fez quatro e na última etapa, das seis fez duas. Quer dizer, das VINTE UMA OPORTUNIDADES, o senhor Peri optou por fazer apenas nove. A ausência do senhor Peri é cristalinamente notável. Em nossas aulas, faltou apenas SETENTA E UMA VEZES. Sem contar as furtivas escapadelas que, pensava ele, o professor não percebia.

 

O aluno Brás Cubas, na primeira etapa, fez três das quatro tarefas: na segunda, de cinco, fez três: na terceira, de seis, fez duas; e, na última, de seis, fez duas. Em outras palavras, DAS VINTE E UMA, o senhor Brás Cubas fez menos da metade do que dele se exigiu. Em nossas aulas, o senhor Brás Cubas faltou apenas SESSENTA E QUATRO VEZES. Era o que se costuma chamar um eterno ausente. Não me lembra nem mesmo sua fisionomia.

 

A aluna Virgínia Wolf, na primeira etapa letiva, fez três das quatro tarefas: na segunda etapa, das cinco, não fez uma tarefa sequer; na terceira, de seis, também não fez nenhuma; e, na quarta etapa, de seis, fez quatro. A senhorita Virgínia Wolf ostenta apenas SESSENTA E SETE faltas nas nossas aulas de língua portuguesa.

 

Senhor Diretor, este parecerista não entende educação com ausência de responsabilidade, tampouco com a visão ética macunaímica, em que o indivíduo pensa em passar a perna no outro ou confia num secular apadrinhamento próprio da cultura brasileira ou, mesmo, num entibiamento desavergonhado das forças morais. Havemos de, como professores, afastar-nos da concepção bastarda de que a educação deva render-se à mera repetição de conceitos batidos ou à mentira convencional do “formar bons cidadãos”... Palavrório inútil que cheira a preguiça mental e servilismo barato a pedagogias importadas e repetidas numa cantilena monocórdia de fazer inveja a qualquer papagaio bem adestrado. Nossos alunos devem ser chamados à ordem. Cumprir o dever não é nenhum favor que se faça a ninguém. É, antes, contribuir para que o mundo se torne um lugar melhor. Não existe nada mais irrespirável que os ares da corrupção, da mentira, da falta de vergonha...

 

A pedagogia brasileira vê a recuperação como uma espécie de UTI em que o indivíduo recobra suas forças vitais por intermédio de dosagens homeopáticas de remedinhos, ministrados por examezinhos de que resulta a satisfação cretina do aluno por haver ludibriado alguém e a si mesmo, coadjuvada pelo adjetivozinho pespegado ao professor amedrontado e subserviente: “aquele professor é legal, é gente boa, é gente fina” e outras que tais...

 

É talvez por força dessa pedagogia irresponsável, em que falta mais austeridade, mais severidade e mais seriedade, que nosso País, este paraíso de corruptos, figura como aquele que pior prepara seus cidadãos. Em todo e qualquer levantamento que se faça para auscultar o desempenho de nossos alunos, em termos mundiais, estes sempre ocupam as últimas posições.

 

             Por fim, Senhor Diretor de Ensino, a atividade intelectual não é apanágio de todos. É, com certeza, algo não democrático. Fica para poucos, os que buscam sondar com mais profundidade o que vai pelo mundo. Ela é enfadonha para quem não vê nela nenhum atrativo; ela é desaconselhável para quem nela enxerga uma forma de encher as burras. Ela é, talvez, o único caminho para que evitemos que os maus, os negligentes, os corruptos e os detentores de mau caráter se assenhoreiem do mundo, e sejamos obrigados a nos render àquilo que parece ser a ordem natural das coisas.

 

Pelo exposto, é que este parecerista é contrário a conceder direito a quem não cumpre deveres agregados àquele direito. Aliás, compactuar com patifaria pedagógica é insurgir-se contra os princípios maiores da pedagogia. Seria, como arrotam os pedagogos, pelo óbvio, UMA PRÁTICA ANTIPEDAGÓGICA.

 

Eis o parecer. A instituição faça o que melhor lhe parece.