PARECER (contra a patifaria pedagógica)
Hugo
Martins
Chegaram às mãos do subscritor três simpáticos requerimentos da lavra
de alunos do Curso Médio. Dois deles perseguem o direito a fazer recuperação,
calcando a pretensão na PORTARIA nº 178/GDC, de 18 de março de 2005. O outro
não vem esteado em dispositivo legal nenhum. Os três soaram a este parecerista
como o ato único de uma ópera-bufa mal ensaiada, em face da desfaçatez de que
estão imbuídos. O autor deste parecer não é crítico teatral, mas, por força das
circunstâncias, vai aqui ensaiar sê-lo, pelas razões a seguir escandidas.
Senhor Diretor de Ensino, entendemos
que o ensino-aprendizagem “da última flor do Lácio” não se deve reduzir ao
repasse de áridos preceitos gramatiqueiros, coadjuvados pelas indefectíveis
exceções, apanágio de quem não intui honestamente a importância de que se deve
revestir o ensino da língua e, por isso, recorre àqueles expedientes para
escamotear sua incompetência ou exercer sobre o espírito flébil do alunado uma
espécie de terror, incutindo naquelas
pobres almas a idéia bastarda de que o idioma português é muito difícil e
outras idéias mentirosas afins. Ora, é sabido que, sobretudo em bodegas
pedagógicas particulares, esta visão do ensino do idioma português já se tornou
lugar comum, repetido em ceca e meca. Aliás, parafraseando Lauro de Oliveira
Lima, o professor de língua portuguesa, no Brasil, é como o cão de Pavlov, mal
ouve a sineta, começa a salivar gramática. Enquanto isso, o essencial no ensino
desse belo idioma não freqüenta a sala de aula. O aluno lê mal, escreve
sofrivelmente, fala tropeçando em balbucios, apóia-se em muletas verbais e chavões
batidos e rebatidos, sem falar na antológica incapacidade de interpretar o que
lê, escuta ou vê. Em outras palavras, o ensino centrado na gramática pela
gramática é inócuo, mentiroso, desonesto e fere os brios intelectuais de quem
ousa pensar neste País de descerebrados.
Senhor Diretor, o pensador José
Ortega y Gasset dizia, numa espécie de lapidar parêmia: “eu sou eu e as minhas
circunstâncias”. Em outras palavras, o espanhol cuidava em dizer que homem se
define no tempo histórico que vivencia. Paciente desse eterno devir, vítima do
tempo e das vicissitudes que deste advêm, há de compreender o habitat em
que passeia sua alma na busca incessante de um sentido para a sua existência.
Nesse momento, é que se torna mais verdadeiro e legítimo o “Cogito, ergo sum”
cartesiano. Nesse diapasão, a existência do homem não pode ser apenas um
passivo estar no mundo, pois, assim, não passaria ele de um títere desajeitado,
agente e paciente de todas as circunstâncias, mas desorientado, sem norte,
vazio e sem vida...
A familiaridade com o modo de ser da
língua, suas riqueza e variedade lexicais, seus multifacetados torneios
sintáticos, suas possibilidades semântico-expressivas formam um rico arsenal
para que o homem cada vez mais se revele ao mundo e revele a si mesmo esse
mesmo mundo. A linguagem, com especialidade a que se manifesta pela palavra, é
a grande razão do binômio homem e mundo. Os gregos chamavam a Deus de LOGOS; os latinos chamavam-NO o VERBO. Basta ler o primeiro parágrafo do
Evangelho segundo São João. O próprio livro que enfeixa e revela os
ensinamentos divinos é chamado metaforicamente A PALAVRA. Nessa linha de
raciocínio, o pensador francês Pierre Teillard Chardin escreveu uma obra
magistral a que intitulou O HOMEM, O MUNDO E DEUS. Quer dizer, a compreensão
do transcendente, do metafísico, do divino sempre se dará pela palavra, a
“palavramundo” drummondiana, neologismo criado pelo poeta de Itabira para
dizer, como ele dizia, que toda palavra está grávida de mundo.
É por essa senda que o professor intenta
ciceronear seus alunos. Ensaia conduzi-los, sem que eles se dêem conta das
urzes e pedras do caminho. Aos poucos, vão abrindo suas próprias veredas,
lendo, escrevendo, falando, interpretando e internalizando comportamentos
lingüísticos, distantes da ortodoxia bem comportada e da gravidade cretina dos
gramatiqueiros de linguagem e pedagogia insípidas. Aos educandos basta o
praticar o ato comunicativo em suas quatro possibilidades, assim como os
pássaros, que voam, e os peixes, que nadam, sem necessitar aprender aquilo para
que se revelam, de berço, vocacionados. Sim, Senhor Diretor, nossos jovens
estão necessitando estudar língua portuguesa não memorizando regras absurdas e
as exceções das exceções das exceções. Basta colocar nas mãos deles o essencial
para a aprendizagem desse belo, rico e saboroso idioma, assunto de que nos
ocuparemos a seguir.
Prezado Diretor, iniciadas as
atividades letivas, já na primeira aula, este parecerista elabora, com a turma,
uma espécie de código silencioso, de cujos dispositivos faz-se uma espécie de
contrato, de modo que direitos e deveres ficam explicitados. Trata-se de uma
espécie de roteiro deontológico.
Em primeiro lugar, apresentado o
programa, fica acertado que não haverá aulas de gramática traduzidas em
cantilenas monocórdias das regrinhas e exceções. Não. A gramática da língua
será vista naturalmente por meio das atividades em que se prioriza o
fundamental: falar, ler, escrever e ouvir. Tendo sempre em mente a
competência lingüística do falante, aquela a que se refere Noam Chomsky,
busca-se simplesmente e tão-só exercitar o desempenho lingüístico do aluno.
Deixa-se de lado todo e qualquer preconceito em relação à idéia maniqueísta
erro e acerto. Interessa-nos que o falante vivencie as diversas normas e
registros de uma mesma língua. Para isso, muito se encarece a convivência com o
texto literário, pois este é, sem dúvida, uma espécie de supranorma, que
enfeixa todos os falares possíveis e prováveis de um idioma. A propósito,
conforme Chomsky, todos nós conhecemos a língua portuguesa, isto é, usamo-la
como instrumento de comunicação no dia-a-dia. Tanto é que letrados e
iletrados se comunicam sem problema
alguma. Isto é competência. Claro que se devem relevar os acidentes grau de
cultura e quejandos. Agora, não há negar que cada falante utiliza a língua
portuguesa, imprimindo a ela um desempenho determinado por fatores
extralingüísticos. Isto é desempenho ou performance.
Em segundo lugar, certo de que o
professor nada ensina, pois o cérebro do educando não é uma tabula rasa, oca e
sem vida, procura-se desenvolver atividades por meio das quais o aluno exercite
aqueles potenciais retro-referidos: o falar, o ler, o escrever e o ouvir.
De que modo?
Partimos da premissa de que todo professor “ensina”
língua portuguesa. Com efeito, quando ministra suas aulas, certamente fá-lo
recorrendo à norma padrão-culta, aquela que se encontra em toda situação
comunicativa em que há um mínimo de solenidade e maior nível de abstração.
Inclusive o professor de língua portuguesa também “ensina” português.
Se alguma diferença existe entre uns
e outros, é que os últimos apenas devem dispor de aparato pedagógico mais rico
para explicar, com técnica mais apurada, este ou aquele fato lingüístico.
Por essa razão, o professor de
língua portuguesa, no seu mister, perseguindo o objetivo de tornar o aluno mais
proficiente na utilização de seu idioma, há de criar condições para que o
atingimento desse escopo seja uma realidade sem que o aluno seja coagido a
memorizar regrinhas sensaboronas e sem nenhuma utilidade.
O modo mais eficiente tem em mira
aquelas potencialidades. Assim, desenvolve-se em sala de aula e em casa
atividades em que aquelas potencialidades já referidas estejam sempre em jogo.
Colocado o texto à apreciação da
turma, lido, relido, feito o levantamento do vocabulário, comentadas as idéias
nele presentes e aquelas por ele suscitadas, propõe-se a tarefa doméstica que,
à luz do programa, leva o aluno a reescrever o texto, escrevendo frases,
parágrafos e outros textos, utilizando o vocabulário do texto lido em sala de
aula.
Paralelamente, o aluno procede à leitura de uma obra
literária, prévia e amplamente motivada. Afasta-se a ficha de leitura
convencional proposta pela editora. A nosso ver, tal fichinha sufoca o gosto
pela leitura da obra. Feito isso, propomos três ou quatro questões básicas:
levantamento do vocabulário, pelo menos quarenta palavras; redação de frases ou
parágrafos com as palavras retro-referidas; resumo da obra; e, por fim, redação
de um texto em que se enfoca o problema humano entrevisto na obra.
Por outro lado, a historiografia da literatura
brasileira é trazida à baila por imposição do cumprimento do programa. Durante
as exposições, o professor sempre demonstra preocupação com mostrar aos alunos
que aquilo não é, na exata acepção da palavra, ensino de literatura. Não se
ensina nem se aprende literatura, vivencia-se. Isso se dá com a leitura da
obra...
Ao fim e ao cabo, a nosso aviso, o professor de língua
portuguesa cumpre satisfatoriamente seu papel quando forma um leitor.
Explicando: formar o leitor é despertar no alunado o gosto da leitura, fazendo
ver a ele o prazer que nela se encontra, o entusiasmo pelo aprender
gratuitamente, o desvendar de novos mundos, o que vai na alma humana... Enfim,
a convivência com o texto, sobretudo o literário, é uma forma de pensar o
mundo, de filosofar, de buscar respostas, de empreender a catarse aristotélica,
a depuração do espírito e sintonizar este com as harmonias e desarmonias do
universo. Cremos mesmo na idéia de que o formar o leitor é despertar o homem
bom, ético e virtuoso e, por conseqüência, é empreender a eliminação do
cafajeste, do cretino e do inescrupuloso...
Senhor Diretor, no ano letivo que se foi, perseguimos a
mesma prática pedagógica de outros anos. Nessa empreitada, levamos a efeito não
avaliações ortodoxas e comportadas de provinhas e examezinhos burocráticas...
Não. Preferimos cobrar cumprimento de dever, pois estamos convencidos de
que não se avalia, ao pé da letra, o nível de aprendizado da língua materna
pelo aluno. À medida que evoluímos intelectualmente, vamos progredindo também
no desempenho lingüístico, sobretudo na recorrência à norma-padrão culta. Assim
é que, passada a tarefa, de regra de caráter doméstico, concede-se ao aluno
tempo considerável para que ele desenvolva aquele trabalho. No momento da
entrega do trabalho, o professor verifica quem fez ou quem não fez a tarefa. Ao
primeiro, concede-se uma cruz, sinal positivo de cumprimento de dever; ao
segundo, coloca-se no diário um traço horizontal, que denuncia não-cumprimento
de dever. Ao final da etapa ou do semestre, a nota do aluno é concedida de
conformidade com a feitura ou não da tarefa. Sintomático: somam-se cruzes e
traços horizontais. Daí surge a média da etapa. Elementar, meu caro Diretor,
como diria Sherlock Holmes, personagem do romancista inglês Conan Doyle...
Magnânimo Diretor, o
durante o ano letivo que findou, levamos a efeito 21 (vinte e uma) avaliações:
na primeira etapa, 4 (quatro) ; na segunda, 5 (cinco) ; na terceira, 6 ( seis )
e, na última, 6 (seis).
A PORTARIA nº 176/GDG, de 18 de março de 2005 diz, in
verbis: “No Ensino Médio, independentemente do número de aulas,
deverá haver, no mínimo, duas avaliações por etapa”. Ora, o professor que
se apegar ferrenhamente ao dispositivo transcrito fará, por ano, apenas OITO
AVALIAÇÕES. Em nossa disciplina, durante o ano letivo de 2005, fizemos VINTE
E UMA AVALIAÇÕES. Não se exige do bom intérprete, ante o exposto nenhum
mergulho hermenêutico mais profundo para chegar à conclusão de que os alunos
tiveram, durante toda a jornada pedagógica, amplas chances de proceder à sua
recuperação. Basta uma continha simples de subtração. Simples: SUBTRAINDO-SE
OITO DE VINTE E UM, CHEGA-SE A TREZE. Dividindo este resultando por quatro,
tiveram os alunos três oportunidades para recuperar o que desejavam recuperar...
Com um bônus de mais uma oportunidade...
Perseguem direito a recuperação os seguintes cidadãos,
todos alunos do Curso Médio, turma C, turno manhã: PERI, BRÁS CUBAS, VIRGÍNIA WOLF( nomes
fictícios). Vejamos caso a caso.
O aluno Peri, na primeira etapa letiva, não fez
nenhuma das tarefas letivas; na segunda etapa, fez três das cinco tarefas
levadas a efeito; na terceira, das seis, fez quatro e na última etapa, das seis
fez duas. Quer dizer, das VINTE UMA OPORTUNIDADES, o senhor Peri optou
por fazer apenas nove. A ausência do senhor Peri é cristalinamente notável. Em
nossas aulas, faltou apenas SETENTA E UMA VEZES. Sem contar as furtivas
escapadelas que, pensava ele, o professor não percebia.
O aluno Brás Cubas, na primeira etapa, fez três das
quatro tarefas: na segunda, de cinco, fez três: na terceira, de seis, fez duas;
e, na última, de seis, fez duas. Em outras palavras, DAS VINTE E UMA, o
senhor Brás Cubas fez menos da metade do que dele se exigiu. Em nossas aulas, o
senhor Brás Cubas faltou apenas SESSENTA E QUATRO VEZES. Era o que se
costuma chamar um eterno ausente. Não me lembra nem mesmo sua fisionomia.
A aluna Virgínia Wolf, na primeira etapa letiva, fez
três das quatro tarefas: na segunda etapa, das cinco, não fez uma tarefa
sequer; na terceira, de seis, também não fez nenhuma; e, na quarta etapa, de
seis, fez quatro. A senhorita Virgínia Wolf ostenta apenas SESSENTA E SETE
faltas nas nossas aulas de língua portuguesa.
Senhor Diretor, este parecerista não entende educação
com ausência de responsabilidade, tampouco com a visão ética macunaímica, em
que o indivíduo pensa em passar a perna no outro ou confia num secular
apadrinhamento próprio da cultura brasileira ou, mesmo, num entibiamento
desavergonhado das forças morais. Havemos de, como professores, afastar-nos da
concepção bastarda de que a educação deva render-se à mera repetição de
conceitos batidos ou à mentira convencional do “formar bons cidadãos”...
Palavrório inútil que cheira a preguiça mental e servilismo barato a pedagogias
importadas e repetidas numa cantilena monocórdia de fazer inveja a qualquer
papagaio bem adestrado. Nossos alunos devem ser chamados à ordem. Cumprir o
dever não é nenhum favor que se faça a ninguém. É, antes, contribuir para que o
mundo se torne um lugar melhor. Não existe nada mais irrespirável que os ares
da corrupção, da mentira, da falta de vergonha...
A pedagogia brasileira vê a recuperação como uma
espécie de UTI em que o indivíduo recobra suas forças vitais por
intermédio de dosagens homeopáticas de remedinhos, ministrados por examezinhos
de que resulta a satisfação cretina do aluno por haver ludibriado alguém e a si
mesmo, coadjuvada pelo adjetivozinho pespegado ao professor amedrontado e
subserviente: “aquele professor é legal, é gente boa, é gente fina” e outras
que tais...
É talvez por força dessa pedagogia irresponsável, em
que falta mais austeridade, mais severidade e mais seriedade, que nosso País,
este paraíso de corruptos, figura como aquele que pior prepara seus cidadãos.
Em todo e qualquer levantamento que se faça para auscultar o desempenho de
nossos alunos, em termos mundiais, estes sempre ocupam as últimas posições.
Por fim, Senhor Diretor de Ensino,
a atividade intelectual não é apanágio de todos. É, com certeza, algo não
democrático. Fica para poucos, os que buscam sondar com mais profundidade o que
vai pelo mundo. Ela é enfadonha para quem não vê nela nenhum atrativo; ela é
desaconselhável para quem nela enxerga uma forma de encher as burras. Ela é,
talvez, o único caminho para que evitemos que os maus, os negligentes, os
corruptos e os detentores de mau caráter se assenhoreiem do mundo, e sejamos
obrigados a nos render àquilo que parece ser a ordem natural das coisas.
Pelo exposto, é que este parecerista é contrário a
conceder direito a quem não cumpre deveres agregados àquele direito. Aliás,
compactuar com patifaria pedagógica é insurgir-se contra os princípios maiores
da pedagogia. Seria, como arrotam os pedagogos, pelo óbvio, UMA PRÁTICA
ANTIPEDAGÓGICA.
Eis o parecer. A instituição faça o que melhor lhe
parece.
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