Em que estou pensando? Em
abandonar minha profissão de professor. Este não é ofício lucrativo, pois se
ministro aulas há quarenta anos, do curso médio à universidade, e até hoje nada amealhei, só
encontro uma saída: vestir um paletó, construir discursos melosos, colocá-los
sob o braço e tratar de fundar uma dessas igrejas, que, após a promulgação da
Constituição de 1988, vão surgindo a cada esquina desse país de tanta gente
fervorosa. Parece que não me será difícil, basta amontoar um magote de fiéis e
prometer a eles o reino dos céus. Como fazer isso?
Em primeiro lugar, temos de estar
convencidos da existência de gente que não encontra dentro de si mesma uma
razão para viver e, rendida ao seu vazio existencial, entregam, sem esforço,
sua alma doente a qualquer espertalhão que sabe costurar balelas convincentes
para eleger apenas “eleitos” ao paraíso. É bom reforçar que aquele que não
ouvir as palavras do pregador não ganhará o reino dos céus.
Em segundo lugar, abrir um
arsenal de palavras mágicas para atingir o coração dos fiéis. Por exemplo:
“caros fiéis, vós que tendes a alma amargurada e o espírito combalido pelos
insistentes apelos da vida mundana, vinde a esta casa de Deus e nela
permanecei, pois, só aqui, encontrareis a paz e a bonança que o dinheiro não
proporciona.” Aqui podeis orar e meditar e ser ouvido pelo senhor, que nada vos
negará.... É suficiente, porém, pagar o dízimo para que nossa função de
pregador se mantenha e esta casa permaneça de pé para a alegria e a satisfação
de nosso salvador.” Não tenham dúvidas,leitores, após essa lenga-lenga, logo se
formará um grande cortejo de fiéis, abrindo, pressurosos, suas carteiras e
despejando seu parco dinheirinho sobre o altar para maior glória e a festiva
alegria do abnegado pastor.
Em terceiro lugar, temos de
tratar de escrever livros de orações e conselhos e, também, abrir uma conta
bancária onde será, certamente, depositado o dinheirinho dos confiantes
compradores. De regra, o conteúdo dos livretos terá sempre uma marca: ajudar os
fiéis a sair das dificuldades financeiras e outros apertinhos próprios do
cotidiano. Assim, desfilarão pela obra frases de todo jaez, sempre com o
lembrete: tende fé e o senhor vos ouvirá. Vamos ensaiar algumas: “irmão na fé,
não vos deixeis abater pelas pequenas derrotas do cotidiano, Deus é fiel e não
permitirá que pequenos incidentes arquitetados pelo “inimigo” (dizem ser o
demônio) perturbem a tranquilidade que vós encontrastes na oração.” Ou, então:
“Por que temer o amanhã, se vós o construís num presente recamado por orações?”
Lembrai que o senhor ensinou aos incréus que toda tempestade pode ser domada.
Basta recorrer à fé que “move montanhas.” Vamos bolar outra frase dessa
natureza. “Meus irmãos na fé, escutai sempre o que diz o senhor quando orardes;
Ele não se engana nem engana. Qualquer prece saída do coração, estando ungida
de sinceridade e fervor, a ele chegará e, cedo, vós tereis a resposta que vós
esperáveis. Segurai na mão de Deus. Levantai os corações ao alto; confiai e
orai, pois nada vos acontecerá, pois o senhor é vigilante, onisciente e
onipresente...”
Importante: nenhuma frase deve
dispensar o uso da 2ª pessoa do plural. Impressiona, transpira autoridade e dá
importância ao pregador ainda que nada signifiquem. Tem o mesmo efeito que o
discurso verborrágico de rábulas e advogados pretensiosos. Funciona e convence
mesmo grávida de sofismas.
Por fim, é esperar e consultar
diariamente a conta bancária. Nela está toda a paz, toda a ventura, todo o
bem-estar, toda a bonança do pregador. Os fiéis são os pastores, e tudo lhes
faltará, inclusive a capacidade de reconhecer que a paz que procuram está
dentro de suas alminhas tolas. Quanto ao pregador... “nada a declarar”, como
diria Armando Falcão, pois não se discute o “óbvio ululante”, como diria o anjo
pornográfico.
Noutra oportunidade, darei o nome
da igreja que pretendo fundar, sua organização, seus bispos e ajudantes. Espero que não me deixem na mão. Também quero
me arrumar...
Depois de tudo no seu lugar, vou
pensar se vale a pena dar aulas. Se compensa ajudar a estudantada a pensar. Sei
não...
Como fecho, convido todos os
professores a fazerem parte desse empreendimento...
A propósito, lembro aqui uma
letra do cancioneiro popular que dizia:
“Camelô,
na conversa,
Ele
vende algodão por veludo.
Está
provado, porque, neste mundo,
Tem
bobo pra tudo.”
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