sábado, 3 de novembro de 2012


VALORES

                                            Hugo Martins

            Passei boa parte do sábado lendo uma espécie de biografia sobre o cronista cearense Airton Monte. Espécie de retrato falado, pintado por simpática pena realista, o livrinho nos toca a alma. Vida profissional e familiar do escritor/psiquiatra posta a nu, não com a grosseria de publicações que se banqueteiam com fofocas e outras asnices do mesmo naipe. Não, a autora, elaborando trabalho de cunho universitário, demonstra maturidade intelectual e honesta preocupação de bem informar, como sói acontecer com jornalistas que teimam em não desvirtuar os fatos. De parabéns ela...

            As folhas são viradas. Nelas não me interessa o estilo de vida boêmia por que optou o cronista, tampouco o rol de amigos que conquistou ao longo de sua existência. Chama-me a atenção sua preocupação com duas namoradas de quem jamais se separa: a literatura e a medicina. Com elas mantém relação amorosa de que se extrai a preocupação com o ser humano e o desejo de criar. Nessa última, vislumbram-se o ato quase confessional de quem se psicanaliza e o intimismo lírico, que fuça a alma, num misto de revelação lírica e desencanto filosófico. É o que interessa.

            Embora não seja leitor de jornais, toda vez que me caía nas mãos um exemplar do jornal O Povo, não passava os olhos sobre manchetes e notícias. Ia direto para a crônica diária de Airton. Ali, pelo olhar daquele homem triste, embora se diga de seu espírito galhofeiro, viajava eu pelos becos, ruas e bares de Fortaleza. Encontrava-me com boêmios bons de conversa e de copo. Solidarizava-me com a melancolia do “cronista de Fortaleza” e desvirginava as madrugadas sanguíneas, habitada por rebanhos  de incorrigíveis noctívagos.

            O coloquialismo era sua marca, lembrando, pelo tratamento do tema e pela recorrência à línguagem despretensiosa, sem resvalar o vulgarismo, a prosa moleca do baiano Jorge Amado. Se este cantou os “pastores da noite” de Salvador, Airton Monte decantou e exaltou Fortaleza, levando o leitor a lugares desaconselháveis a moços-família, dando àquele conhecer a beleza trágico-humana do “bas-fond”. Tudo respingado de ternura e emoção das boas. Daquelas que fazem o leitor meditar e enxergar que, por trás da vã aparência das coisas, escondem-se realidades mágicas, que só o cronista, fugindo à frieza do essencial, desvenda o acidental, o episódico. Enfim, o material indispensável para fazer a crônica.

            Se, lembrando Noel, “São Paulo dá café, Minas dá Leite”, aqui no Ceará, lugar que, “em se plantando, tudo dá”, nasceram e viveram cronistas tão bons e admiráveis quanto Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e os nossos cearenses Rachel de Queiroz e Milton Dias. Todos já falecidos...

            Há pouco também faleceu Airton. Deve ter levado no alforje miríades de idéias para compor, com os primeiros, crônicas celestiais, desvendando o se esconde no cotidiano da região etérea, que só filósofos e homens de letras ousam desvendar. Seu riso zombeteiro e sua gargalhada desabrida e traquinas devem também estar fazendo coro com algum anjo dissimulado e maroto, dado a peraltices boêmias...

            Viva aos céus...

           

Nenhum comentário:

Postar um comentário