VALORES
Hugo Martins
Passei
boa parte do sábado lendo uma espécie de biografia sobre o cronista cearense
Airton Monte. Espécie de retrato falado, pintado por simpática pena realista, o
livrinho nos toca a alma. Vida profissional e familiar do escritor/psiquiatra
posta a nu, não com a grosseria de publicações que se banqueteiam com fofocas e
outras asnices do mesmo naipe. Não, a autora, elaborando trabalho de cunho
universitário, demonstra maturidade intelectual e honesta preocupação de bem
informar, como sói acontecer com jornalistas que teimam em não desvirtuar os
fatos. De parabéns ela...
As
folhas são viradas. Nelas não me interessa o estilo de vida boêmia por que
optou o cronista, tampouco o rol de amigos que conquistou ao longo de sua
existência. Chama-me a atenção sua preocupação com duas namoradas de quem
jamais se separa: a literatura e a medicina. Com elas mantém relação amorosa de
que se extrai a preocupação com o ser humano e o desejo de criar. Nessa última,
vislumbram-se o ato quase confessional de quem se psicanaliza e o intimismo
lírico, que fuça a alma, num misto de revelação lírica e desencanto filosófico.
É o que interessa.
Embora
não seja leitor de jornais, toda vez que me caía nas mãos um exemplar do jornal
O Povo, não passava os olhos sobre manchetes e notícias. Ia direto para a
crônica diária de Airton. Ali, pelo olhar daquele homem triste, embora se diga
de seu espírito galhofeiro, viajava eu pelos becos, ruas e bares de Fortaleza. Encontrava-me
com boêmios bons de conversa e de copo. Solidarizava-me com a melancolia do
“cronista de Fortaleza” e desvirginava as madrugadas sanguíneas, habitada por rebanhos de incorrigíveis noctívagos.
O
coloquialismo era sua marca, lembrando, pelo tratamento do tema e pela
recorrência à línguagem despretensiosa, sem resvalar o vulgarismo, a prosa
moleca do baiano Jorge Amado. Se este cantou os “pastores da noite” de
Salvador, Airton Monte decantou e exaltou Fortaleza, levando o leitor a lugares
desaconselháveis a moços-família, dando àquele conhecer a beleza trágico-humana
do “bas-fond”. Tudo respingado de
ternura e emoção das boas. Daquelas que fazem o leitor meditar e enxergar que,
por trás da vã aparência das coisas, escondem-se realidades mágicas, que só o
cronista, fugindo à frieza do essencial, desvenda o acidental, o episódico.
Enfim, o material indispensável para fazer a crônica.
Se,
lembrando Noel, “São Paulo dá café, Minas dá Leite”, aqui no Ceará, lugar que,
“em se plantando, tudo dá”, nasceram e viveram cronistas tão bons e admiráveis
quanto Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e os nossos cearenses
Rachel de Queiroz e Milton Dias. Todos já falecidos...
Há
pouco também faleceu Airton. Deve ter levado no alforje miríades de idéias para
compor, com os primeiros, crônicas celestiais, desvendando o se esconde no
cotidiano da região etérea, que só filósofos e homens de letras ousam
desvendar. Seu riso zombeteiro e sua gargalhada desabrida e traquinas devem
também estar fazendo coro com algum anjo dissimulado e maroto, dado a
peraltices boêmias...
Viva
aos céus...
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