sábado, 3 de novembro de 2012


PERSONA

                                                 Hugo Martins

 

            Acabou. Sexta-feira, sábado e domingo passaram com o mesma marcha e ritmo de outros dias vãos. Os que visitaram seus mortos voltam às suas casas com a dor universal da inescapável certeza da finitude da existência. Mergulharam dentro de si mesmos e constataram que pouco adianta alimentar vaidades de que somos grandes coisas. Não passamos de cadáveres ambulantes à espera do lauto banquete promovido sempiternamente pelo exército de inumeráveis vermes que nos espreitam os olhos para “roê-los e deixar apenas os cabelos na frialdade inorgânica da terra”.

            No sábado, os bares se encheram “de homens vazios”, na feliz expressão do poetinha. Aqui e ali, conversas prenhes da filosofice cotidiana. Tangem-se as cordas de um violão seresteiro ou se maltratam as letras de nosso cancioneiro. O tempo passa, a cerveja gelada cai na mesa, vira-se um copo de cachaça, espocam risadas. “Cai a tarde tristonha e serena.” E “sobre a triste Fortaleza, o ouro dos astros chove.” Isso aí vale no poema Vila Rica, de Bilac. Não mais é possível enxergar o céu recamado de estrelas. Os homens têm coisas mais importantes a fazer. Por que olhar o céu se há tanta cerveja a beber, e o tempo é escasso? Importa viver a vida, nos seus mistérios, fugindo à sombra tétrica da solidão interior. Inútil buscar uma saída para quem está preso nas armadilhas que criou para si mesmo. Abrir a porta, olhar o tempo, fazer um esgar, tentando mostrar mentirosa satisfação? Inútil. Estamos presos no “cárcere das almas”, tendo que enfrentar a nós mesmos. Que trágico?  “E agora, José? Ou, pior, ainda, trancados a sete chaves sem poder fugir à presença do outro. Isso é coisa de Sartre. Parece plágio, mas não é. Lembro que Villa Lobos, quando lhe indagaram de seu processo criativo, respondeu afirmando que todos os sons e acordes do mundo Deus colocou nas mãos de Bach. Por isso - dizia - sempre que compunha, ia ao último. Era mais perto. Para chegar ao primeiro, as dificuldades eram maiores. Aliás, a música do maestro brasileiro traduz-se numa boa estirada para limpar as sujeiras que vão na alma. Ela e as demais artes, refúgio dos que evitam as mesmices dos homens vazios.

            Chega o domingo. Todos acordam e constatam que a volta para si mesmos e o encontro com o vazio é inevitável... Vamos para casa. Ainda há um pedaço de tarde e a noite já se aproxima. A idiotia dos programas televisivos está à espera. Estamos cansados... Baboseiras do Faustão, alegria postiça e comercial de Sílvio Santos ou as partidas futebolísticas, toda uma programação, bem programada, para doutorar idiotas... Afinal, todo o show da vida é fantástico...

            Amanhã só será outro dia em época de revolução, “num tempo, página infeliz de nossa história, passagem desbotada na nossa memória das nossas novas gerações.” A rigor, todo amanhã é sempre igual, quando os sonhos revoluteiam em nossas almas pequenas à procura de uma saída... Não há saída... Há o real concreto, despido de máscaras e maquiagens, impotentes e insuficientes para esconder a dor que se tenta esconder nas pequenas fugas que empreendemos na busca de não se sabe do quê... Baixado o pano, a encenação continua...

            Segunda-feira. Que pena! Que dor!

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