PERSONA
Hugo Martins
Acabou.
Sexta-feira, sábado e domingo passaram com o mesma marcha e ritmo de outros
dias vãos. Os que visitaram seus mortos voltam às suas casas com a dor
universal da inescapável certeza da finitude da existência. Mergulharam dentro
de si mesmos e constataram que pouco adianta alimentar vaidades de que somos
grandes coisas. Não passamos de cadáveres ambulantes à espera do lauto banquete
promovido sempiternamente pelo exército de inumeráveis vermes que nos espreitam
os olhos para “roê-los e deixar apenas os cabelos na frialdade inorgânica da
terra”.
No
sábado, os bares se encheram “de homens vazios”, na feliz expressão do
poetinha. Aqui e ali, conversas prenhes da filosofice cotidiana. Tangem-se as
cordas de um violão seresteiro ou se maltratam as letras de nosso cancioneiro.
O tempo passa, a cerveja gelada cai na mesa, vira-se um copo de cachaça,
espocam risadas. “Cai a tarde tristonha e serena.” E “sobre a triste Fortaleza,
o ouro dos astros chove.” Isso aí vale no poema Vila Rica, de Bilac. Não mais é
possível enxergar o céu recamado de estrelas. Os homens têm coisas mais
importantes a fazer. Por que olhar o céu se há tanta cerveja a beber, e o tempo
é escasso? Importa viver a vida, nos seus mistérios, fugindo à sombra tétrica
da solidão interior. Inútil buscar uma saída para quem está preso nas
armadilhas que criou para si mesmo. Abrir a porta, olhar o tempo, fazer um
esgar, tentando mostrar mentirosa satisfação? Inútil. Estamos presos no
“cárcere das almas”, tendo que enfrentar a nós mesmos. Que trágico? “E agora, José? Ou, pior, ainda, trancados a
sete chaves sem poder fugir à presença do outro. Isso é coisa de Sartre. Parece
plágio, mas não é. Lembro que Villa Lobos, quando lhe indagaram de seu processo
criativo, respondeu afirmando que todos os sons e acordes do mundo Deus colocou
nas mãos de Bach. Por isso - dizia - sempre que compunha, ia ao último. Era
mais perto. Para chegar ao primeiro, as dificuldades eram maiores. Aliás, a música
do maestro brasileiro traduz-se numa boa estirada para limpar as sujeiras que
vão na alma. Ela e as demais artes, refúgio dos que evitam as mesmices dos
homens vazios.
Chega
o domingo. Todos acordam e constatam que a volta para si mesmos e o encontro
com o vazio é inevitável... Vamos para casa. Ainda há um pedaço de tarde e a
noite já se aproxima. A idiotia dos programas televisivos está à espera.
Estamos cansados... Baboseiras do Faustão, alegria postiça e comercial de
Sílvio Santos ou as partidas futebolísticas, toda uma programação, bem
programada, para doutorar idiotas... Afinal, todo o show da vida é
fantástico...
Amanhã
só será outro dia em época de revolução, “num tempo, página infeliz de nossa
história, passagem desbotada na nossa memória das nossas novas gerações.” A
rigor, todo amanhã é sempre igual, quando os sonhos revoluteiam em nossas almas
pequenas à procura de uma saída... Não há saída... Há o real concreto, despido
de máscaras e maquiagens, impotentes e insuficientes para esconder a dor que se
tenta esconder nas pequenas fugas que empreendemos na busca de não se sabe do
quê... Baixado o pano, a encenação continua...
Segunda-feira.
Que pena! Que dor!
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