sábado, 29 de setembro de 2012


 AI, ESSA DOR!

                                      Hugo Martins

 

               Vi hoje um pequeno cartaz em que Maurício de Souza dá a entender que Mônica, a menininha dentuça e de grande força interior, deve casar-se com o amiguinho de infância Cebolinha. É de crer-se que o leitor, no mais fundo de sua alma, não aplaudirá a idéia, afinal não se admite a morte de sonhos e fantasias. Seria o mesmo que fazer crescer o menino Peter Pan, criação do novelista inglês J, M. Barrie. Ficaria, pois, decretada a morte da eterna infância, decantada por prosadores e poetas de todos os tempos e de todas as eras.

            Mônica, adolescendo, perde o encanto e a magia dos “tempos de criança” a que alude Ataulfo Alves, letra em que o compositor mineiro diz “eu era feliz e não sabia”. Arrancar a brava menina daqueles tempos é despi-la do seu próprio ser. Ela representa, com seus arroubos de violência, a mulher que quer se ver respeitada, que se impõe num mundo organizado por machos. O convincente coelhinho Sansão é a única arma de que dispõe para repelir as agressões exteriores, provindas de quem não a aceita, de quem não suporta ver a força que existe na menina-mulher, jogada em meio à crueldade coletiva do lobo homem. No entanto, por trás da metáfora da reação, esconde-se um poço de ternura, capaz de perdoar e reatar amizades. A “dentuça” não odeia, não guarda rancores, ao contrário alimenta amor pelos amigos, deles se compadece e demonstra a força da solidariedade. De outro lado, encontra tempo para voar para o mundo platônico das idéias, quando conversa e troca amabilidades com o anjinho... Está ela na instância do mundo mágico das crianças, época de devaneios e distante das correrias, maldades, atrocidades e falseamentos do real, predicados lamentáveis da vida adulta. Não existirá violência maior que dela retirar essa atmosfera em que a vida vale a pena ser vivida. Em mantendo Mônica em seu Ser, Maurício de Sousa crescerá ainda mais em sua atividade pedagógica como também se revelará consciente com o Ser da ficção: instaurar mundos em que as essências do mundo se fixam a se eternizam... Aqui não se permite a dialética, a categoria tempo. Aqui este não corre, a não ser no interior da própria narrativa... É nessa ilogicidade que se revela a lógica do discurso em que estão em jogo os temas eternos revelados pela linguagem da ficção literária...

            Só na crueza da existência corre o tempo. Mas sua marcha traz sofrimentos, dores e dissabores e, por isso, torna-se figadal inimigo do homem. Existe coisa mais dolorosa que o espelho e a fotografia? Como dói folhear álbuns de fotografias em que encontramos nossos “mortos de sobrecasaca”, a que se refere Drummond em poema homônimo!!! E a ridicularia dos cosméticos, que porfiam por esconder os rasgões de rugas e pés-de-galinha, desenhados tal tatuagens indeléveis em rostos macerados? E a intervenção cirúrgica, em que pacientes do eterno devir buscam, inutilmente, conter as marcas do tempo, cujo resultado desemboca numa mentira que logo retorna à verdade?

            “Os anos se aproximam silenciosamente” diz o poeta latino Ovídio. Todo esforço para contê-lo é vão. Traduz-se numa luta renhida e cômica contra a angústia do efêmero, do imenso e interminável caudal da existência... A indústria da eterna juventude traduz-se numa perversidade sem par, pois faz a fortuna de seus mentores e fabrica o sofrimento de quem não quer olhar a vida de frente...

            A reflexão me assaltou quando vi Mônica, ao lado de Cebolinha, os dois paramentados numa solenidade de casamento. Num primeiro momento, abateu-se sobre mim um sobressalto ao ver a menininha com os cabelos arrumados, o rostinho desfigurado por maquiagens falseadoras do semblante, ladeada pelo rapazola enfiado num terno elegante, abrindo um largo e burguês sorriso. Disse de mim para mim: pronto, mataram Mônica e Cebolinha! Depois, com mais vagar, rendi-me à reflexão de que se trata de mais uma jogada lúdica de Maurício de Sousa com o fim de espicaçar a curiosidade dos leitores e persuadi-los a acompanhar a saga daqueles dois personagens já eternizados na categoria dos tipos eternos. Se assim for, não lhe tiro a razão e o tirocínio. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali não devem migrar para o torvelhinho da vida adulta. Isso resultaria num contrassenso de se lhes impingir a dor universal, que não tangencia o mundo feérico da infância.

            Eles não merecem tal estocada, são a-temporais; tampouco os leitores, presos à temporalidade que faz refletir sobre matéria tão dolorosa: o tempo, este inimigo sem face, que porta sandálias silenciosas.

           

           

           

             

sábado, 15 de setembro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? Em manter minha reputação infensa a qualquer mancha, proveniente de atos de improbidade no exercício de meu ofício. Continuar, firme e forte, o propósito de seguir os conselhos e exemplos de minha mãe e de meu avô materno e não ceder um só milímetro ao canto de sereia, que leva o homem, por algum motivo, a vender sua alma nos mais comezinhos episódios do cotidiano.

Deitado numa rede de corda, ao sabor de uma brisa fagueira que corre na minha varanda, vou virando as páginas dos Diários do escritor maranhense Josué Montelo, e com ele viajo não só na historia política do Brasil com suas tricas e futricas mas também no desenrolar da história de nossa  literatura. Vou, pelas mãos de Josué Montelo, ao palácio do Catete, assisto ao drama de Getúlio. Conheço o Brasil dos anos dourados de Juscelino e me atemorizo com a cacetada de Brucutu com que a última ditadura atordoou o povo brasileiro, caçando mandatos, prendendo, arrebentando pessoas e instituições, amordaçando a arte, proibindo o direito ao livre pensar e levando à morte todo aquele que ousasse levantar sua voz contra os desmandos... Também vou à Academia Brasileira de Letras tomar o chá das cinco com os imortais e reencontro alguns velhos escritores que povoaram de sonhos minha longínqua infância. Converso com Viriato Correia e lembro a obra Cazuza, com que o escritor maranhense alimentava a formação dos jovens, por meio de textos grávidos de sadio civismo; cumprimento também Olegário Mariano, o lírico poeta das cigarras. Entrevejo, sentado ao sofá, de pernas cruzadas, Manuel Bandeira, conversando longamente com o crítico literário Álvaro Lins... De repente, entra de supetão, com sua gravata borboleta, João Guimarães Rosa, rindo e conversando com Cassiano Ricardo acerca da força da linguagem, sobretudo a de cunho poético, aquela capaz de instaurar o feérico, o maravilhoso da vida, com suas facetas também sórdidas. Tudo ali transpirava vetustez: os escritores já carregando nos ombros o peso do mundo, a gravidade do mobiliário, os bustos de algum imortal, bem como a galeria de quadros de autores diversos. Participo do colóquio, sempre amparado pela bondade delicada de Josué Montelo. Ao sair, tomo a Avenida Rio Branco, chego à Cinelândia e sento-me numa das mesas do Bar Amarelinho, reduto de toda espécie de gente ligada às artes e à boêmia, e tomo uma cerveja bem geladinha, com o fito de lavar o fígado e olhar as pessoas que passam apressadas em busca de não sei o quê...

Mas que ando eu a fazer em tais devaneios?  Creio que nada demais em tudo isso. Talvez à procura de assunto, fuçando as prateleiras da imaginação à cata de algo que valha a pena colocar no papel de forma gratuita e desinteressada. Exercício de estilo numa época em que se costuma falar das acontecências do mundo, recorrendo a lugares comuns e a balbucios monossilábicos, que mais parecem deslustradas, repetidas e enfadonhas onomatopéias... Sim, o escrever é como o coçar. Basta começar, diz a sabedoria popular. E aqui me acho nesse exercício, dedilhando o teclado, deixando correr a imaginação num minguado exercício de impressões de leitura. Aliás, exercício desnecessário, pois não se encontra interlocutor, alguém que, amante de arte literária, sirva de apoio numa cotização, numa troca graciosa de opinião sobre o que vai pelo mundo, sobre o que é a arte e seu papel humanizante.

Há pouco me levantei a fim de atender ao telefone. Alguém, do outro lado da linha, pergunta-me se não folheei os jornais durante a semana. Respondo que não. A propósito não sou leitor de revistas semanais, tampouco de jornais e, raras vezes, ligo “a máquina de fazer doido”.

Sinto-me bem, permanecendo desinformado. Ainda assim, por força da aldeia global a que se refere Marshall McLuhan, os meios de comunicação de massa, na sua infatigável  labuta por distorcer o real ou imbecilizar os “televidiotas”, estão espalhados em qualquer lugar a que você chegue, instaurando a solidão coletivizada.

Feito esse reparo, a pessoa com quem converso pergunto se não estou acompanhando o “mar de lama” que vem emporcalhando a moral e o moral do brasileiro. Digo-lhe que ouço aqui e ali fiapos de conversas e notícias televisivas, cujo conteúdo me dá a impressão de que somos, historicamente, um povo que padece do complexo de Ali Babá. Este reunia um bando formado de apenas quarenta componentes; atualmente, neste país de contrastes, não se sabe quem é ou quem não é quadrilheiro.

Com efeito, de oitiva, toma-se ciência, numa espécie de consenso, do que vêm os homens públicos levando a efeito para pilhar os cofres públicos. Para evitar que a farândola de ladrões mais e mais se agigante, inventou-se um processo de barrar-lhes a marcha, o qual recebeu o sugestivo rótulo de “ficha limpa”. Vergonhoso, decepcionante, imoral e decadente um país, cujos gestores, legisladores ou pretendentes tenham sua vida pública monitorada pelo Poder Judiciário como forma de banir das assembléias, câmaras e colegiados afins as maçãs podres, os quistos, os cânceres e a pestilência de almas fadadas ao furto, à embromação e à mentira que insulta.

No próximo mês, o povo irá às urnas. Enquanto isso, as hienas, à cata de votos, mostram as garras e mandíbulas, na desesperada ânsia de conquistar o eleitor, que, embora bem armado com o voto, deixa-se seduzir por discursos vazios, promessas vãs e mentiras deslavadas...

Ora, consultando a lista de políticos “ficha-suja”, vejo naquele sórdido plantel os nomes de hienas que também eram e continuam sendo portadores da mesma lenga-lenga, da mesma sordidez, da mesma mendacidade, da mesma falta de vergonha, sem tirar nem pôr. Deles há que, ainda exercendo a função, quando surpreendidos pela ação do Ministério Público, pegam suas trouxas e se botam para outros países. Outros, quando surpreendidos pela poder policial, são algemados à frente de câmaras, baixam a cabeça ou escondem-na sob a blusa ou casaco para não se deixar filmar pela câmara indiscreta de repórteres... Pergunta-se: por que não erguem a cabeça como antes faziam e tecem considerações sobre sua inocência? Não, isso não fazem, preferem dizer que só falam “na presença de meu advogado”. Enquanto o povo se volta para o processo do mensalão, não se dá conta de que mensalões e mensalinhos são urdidos a todo momento pela capacidade de ave de rapina da grande parte de outros politiqueiros, bem versados, também na arte de se apoderar da riqueza que o povo produz. Ora, seria o caso de dizer que a arte de furtar o povo é lugar comum entre os sicários e bandidos, que se dizem preocupados em cuidar do povo. Coloquemos as barbas de molho, essa coisa de cuidar do povo esconde o eufemismo “narcotizar o povo” para que se torne mais fácil furtar sem grandes cuidados.

Num sermão do Padre Antônio Vieira, lê-se que o filósofo grego Diógenes, o cínico, vendo uma vara de ministros levando a enforcar um homem que havia furtado um carneiro, começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Trocando em miúdos, essa gentalha maltratada e moída, a que chamamos de marginais ou bandidos, bem como aqueles que não fruem uma só migalha do direito comum a todos, nada mais representam que as consequências advindas das ações dos ladrões grandes a que se refere Vieira...

É grande a patifaria. É vergonhoso tudo isso.

Fecho o texto. Há muita coisa a dizer. Deixo a outros a incumbência.  Volto à minha velha rede de corda, abro o volume dos Diários de Montelo e mergulho na leitura. Nesse momento, teço uma breve reflexão: há mais filosofia no ato de ler e afastar-se do ramerrão cotidiano que perder tempo em refletir e garatujar o papel, tendo como referencial o emporcalhamento de que vem, há mais de quinhentos anos, padecendo o maltratado povo brasileiro...

Pois é...

 

 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? No momento acabo de assistir à propaganda eleitoral gratuita e esta me deixa sempre a pensar. Penso, por exemplo, na forma de raciocinar por silogismos. Que é isso? Criado pelo gênio de Aristóteles, o silogismo pode carregar uma verdade ou uma mentira embuçada em falácias. Em outras palavras: quem raciocina por este modo, parte de duas premissas, uma maior e outra menor. Se ambas forem verdadeiras, chega-se a uma conclusão verdadeira. Se uma delas for falsa, a conclusão poderá ter aparência de verdade, mas encerra uma mentira acerca dos dados da realidade. Por exemplo: todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal. Aqui temos um silogismo, cuja conclusão é verdadeira. No raciocínio: no Brasil, todos têm seus direito respeitados; João da Silva é brasileiro; logo, João da Silva tem seus direitos respeitados no Brasil. Eis um silogismo, cuja conclusão é falsa, porque uma das premissas, a maior, é falsa. Assim é a propaganda eleitoral gratuita: plena de falácias, cheia de engodos, verdadeiramente grávida de mentiras.

A propósito, lembra-me a figura de um ex-governador boquirroto e de língua solta. Durante a campanha não regateava ele promessas de toda sorte. Eleito, soube que os médicos no Ceará estavam em greve. Perguntado sobre como ia resolver o impasse, sorriu e, na sua linguagem destampada e estúpida, disse de maneira cínica: “Nenhum problema. Médicos são como sal, branquinhos e se encontram em qualquer lugar”. A esta conclusão chegou ele, construindo uma metáfora desgraciosa, embutida em premissas falsas. Haverá sempre necessidade de médicos e profissionais da saúde. No entanto o ex-governador de língua afiada foi infeliz, mas manteve sua prepotência, hoje mais atenuada pelas respostas que o eleitor lhe vem dando ao longo do processo político. Aliás, fez ele parte de um grupelho de coronéis, que combatiam coronéis, e costumava assestar seus projetos em ridículos slogans de Governo das Mudanças. Essa premissa nunca chegou a nenhuma conclusão positiva, pois o Ceará continua com os mesmos vícios, a mesma miséria e a mesma penúria na área do social. Se se fez alguma mudança, certamente estas beneficiaram tão só a classe política e os grupos empresariais que dão sustentação às campanhas. Veja-se que o governo atual do estado do Ceará procedeu a licitação em que a população pagará por mês a modesta quantia de R$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil) reais para que o governador e sua tropa de apaniguados sobrevoem, pra lá e pra cá, os céus de todo o mundo em avião dotado de todo luxo e conforto: ar condicionado e outros bichos... Enquanto isso, a educação pública vai de mal a pior, basta ver as estatísticas; a saúde encontra-se entregue às baratas; a segurança resume-se na propaganda de uma tal Ronda do Quarteirão: policiais embonecados em fardas feitas sob medidas, a bordo de camioneta Hilux, passeando todos pimpões nas ruas inseguras de Fortaleza. Enquanto isso, parar em semáforos é correr o risco de ser assaltado ou morto. Sair de casa é expor-se à sanha de bandidos, que se apoderam dos bens do incauto e ainda os humilham chamando-os de vagabundos. O mais coerente para a população é manter-se em casa e não arriscar sua vida. A coisa chega a ser engraçada; especialistas em segurança pública vão aos meios de comunicação de massa para aconselhar as pessoas como se comportar. Ora, isso também é um sofisma, pois o tributo que se paga deve ter por destinação assegurar, sem nenhum favor, não só segurança mas também meios de que todos vivam suas vidas com um mínimo de dignidade... O problema é a linguagem... A propósito, há uma propaganda dos Tribunais Eleitorais que encerram uma conclusão incontestável; VOTO É CONSEQUÊNCIA... Que premissas antecedem tal conclusão?  Ei-las: todo cidadão delega poderes a representantes para legislar e para administrar a comunidade; logo, sua escolha redundará em consequências que seus olhos logo, logo, testemunharão.

Por outro lado, se o voto se atrela a outros interesses que não ao bem comum, fim maior da participação sincera de todos, as consequências nunca satisfarão a expectativa de todos, mas surtirão como tumores e purulências de toda ordem na dinâmica social.

Por fim, é bom precatar-se com os sofismas em que os candidatos costumam pendurar-se. De regra, os sorrisos, os gestos a musiquinha, os braços em forma de ele e punhos fechados demonstrando força nos bons propósitos, bem como a presença de políticos de reputação duvidosa nos palanques eletrônicos para apoiar candidatos, não devem servir de premissa verdadeira, porque eles, com raras e honrosas exceções, são mentirosos como o boneco Pinóquio. Suas promessas devem ser vistas como as histórias de Trancoso ou os “causos” contados por vaqueiros e caçadores, os quais, conforme a sabedoria popular, aumentam sempre noventa e nove pontos no que contam.

 

Para chegar a conclusões que se aproximem daquelas consequências a que alude a propaganda dos Tribunais Eleitorais, é de bom alvitre fugir ao rio caudaloso das mentiras e falsas promessas de palanques eleitorais e santinhos, meras falácias, e recorrer ao silêncio da consciência. Daí, as consequências advirão, certamente, alvissareiras.

A propósito, como a programação televisiva anda muito carente de humor negro, o horário da propaganda eleitoral gratuita é um bom prato para quem desejar extrair das entrelinhas material para rir a bandeiras despregadas. Pena que seja só por poucos dias...