EM QUE ESTOU PENSANDO? Em manter
minha reputação infensa a qualquer mancha, proveniente de atos de improbidade
no exercício de meu ofício. Continuar, firme e forte, o propósito de seguir os
conselhos e exemplos de minha mãe e de meu avô materno e não ceder um só
milímetro ao canto de sereia, que leva o homem, por algum motivo, a vender sua
alma nos mais comezinhos episódios do cotidiano.
Deitado numa rede de corda, ao
sabor de uma brisa fagueira que corre na minha varanda, vou virando as páginas
dos Diários do escritor maranhense Josué Montelo, e com ele viajo não só na
historia política do Brasil com suas tricas e futricas mas também no desenrolar
da história de nossa literatura. Vou,
pelas mãos de Josué Montelo, ao palácio do Catete, assisto ao drama de Getúlio.
Conheço o Brasil dos anos dourados de Juscelino e me atemorizo com a cacetada
de Brucutu com que a última ditadura atordoou o povo brasileiro, caçando
mandatos, prendendo, arrebentando pessoas e instituições, amordaçando a arte,
proibindo o direito ao livre pensar e levando à morte todo aquele que ousasse
levantar sua voz contra os desmandos... Também vou à Academia Brasileira de
Letras tomar o chá das cinco com os imortais e reencontro alguns velhos
escritores que povoaram de sonhos minha longínqua infância. Converso com
Viriato Correia e lembro a obra Cazuza, com que o escritor maranhense
alimentava a formação dos jovens, por meio de textos grávidos de sadio civismo;
cumprimento também Olegário Mariano, o lírico poeta das cigarras. Entrevejo,
sentado ao sofá, de pernas cruzadas, Manuel Bandeira, conversando longamente
com o crítico literário Álvaro Lins... De repente, entra de supetão, com sua
gravata borboleta, João Guimarães Rosa, rindo e conversando com Cassiano
Ricardo acerca da força da linguagem, sobretudo a de cunho poético, aquela
capaz de instaurar o feérico, o maravilhoso da vida, com suas facetas também
sórdidas. Tudo ali transpirava vetustez: os escritores já carregando nos ombros
o peso do mundo, a gravidade do mobiliário, os bustos de algum imortal, bem
como a galeria de quadros de autores diversos. Participo do colóquio, sempre
amparado pela bondade delicada de Josué Montelo. Ao sair, tomo a Avenida Rio
Branco, chego à Cinelândia e sento-me numa das mesas do Bar Amarelinho, reduto
de toda espécie de gente ligada às artes e à boêmia, e tomo uma cerveja bem
geladinha, com o fito de lavar o fígado e olhar as pessoas que passam
apressadas em busca de não sei o quê...
Mas que ando eu a fazer em tais
devaneios? Creio que nada demais em tudo
isso. Talvez à procura de assunto, fuçando as prateleiras da imaginação à cata
de algo que valha a pena colocar no papel de forma gratuita e desinteressada.
Exercício de estilo numa época em que se costuma falar das acontecências do
mundo, recorrendo a lugares comuns e a balbucios monossilábicos, que mais
parecem deslustradas, repetidas e enfadonhas onomatopéias... Sim, o escrever é
como o coçar. Basta começar, diz a sabedoria popular. E aqui me acho nesse
exercício, dedilhando o teclado, deixando correr a imaginação num minguado
exercício de impressões de leitura. Aliás, exercício desnecessário, pois não se
encontra interlocutor, alguém que, amante de arte literária, sirva de apoio
numa cotização, numa troca graciosa de opinião sobre o que vai pelo mundo,
sobre o que é a arte e seu papel humanizante.
Há pouco me levantei a fim de
atender ao telefone. Alguém, do outro lado da linha, pergunta-me se não folheei
os jornais durante a semana. Respondo que não. A propósito não sou leitor de
revistas semanais, tampouco de jornais e, raras vezes, ligo “a máquina de fazer
doido”.
Sinto-me bem, permanecendo
desinformado. Ainda assim, por força da aldeia global a que se refere Marshall
McLuhan, os meios de comunicação de massa, na sua infatigável labuta por distorcer o real ou imbecilizar os
“televidiotas”, estão espalhados em qualquer lugar a que você chegue,
instaurando a solidão coletivizada.
Feito esse reparo, a pessoa com
quem converso pergunto se não estou acompanhando o “mar de lama” que vem
emporcalhando a moral e o moral do brasileiro. Digo-lhe que ouço aqui e ali
fiapos de conversas e notícias televisivas, cujo conteúdo me dá a impressão de
que somos, historicamente, um povo que padece do complexo de Ali Babá. Este reunia
um bando formado de apenas quarenta componentes; atualmente, neste país de
contrastes, não se sabe quem é ou quem não é quadrilheiro.
Com efeito, de oitiva, toma-se
ciência, numa espécie de consenso, do que vêm os homens públicos levando a
efeito para pilhar os cofres públicos. Para evitar que a farândola de ladrões
mais e mais se agigante, inventou-se um processo de barrar-lhes a marcha, o
qual recebeu o sugestivo rótulo de “ficha limpa”. Vergonhoso, decepcionante,
imoral e decadente um país, cujos gestores, legisladores ou pretendentes tenham
sua vida pública monitorada pelo Poder Judiciário como forma de banir das
assembléias, câmaras e colegiados afins as maçãs podres, os quistos, os
cânceres e a pestilência de almas fadadas ao furto, à embromação e à mentira
que insulta.
No próximo mês, o povo irá às
urnas. Enquanto isso, as hienas, à cata de votos, mostram as garras e
mandíbulas, na desesperada ânsia de conquistar o eleitor, que, embora bem
armado com o voto, deixa-se seduzir por discursos vazios, promessas vãs e
mentiras deslavadas...
Ora, consultando a lista de
políticos “ficha-suja”, vejo naquele sórdido plantel os nomes de hienas que
também eram e continuam sendo portadores da mesma lenga-lenga, da mesma
sordidez, da mesma mendacidade, da mesma falta de vergonha, sem tirar nem pôr.
Deles há que, ainda exercendo a função, quando surpreendidos pela ação do
Ministério Público, pegam suas trouxas e se botam para outros países. Outros,
quando surpreendidos pela poder policial, são algemados à frente de câmaras,
baixam a cabeça ou escondem-na sob a blusa ou casaco para não se deixar filmar
pela câmara indiscreta de repórteres... Pergunta-se: por que não erguem a
cabeça como antes faziam e tecem considerações sobre sua inocência? Não, isso
não fazem, preferem dizer que só falam “na presença de meu advogado”. Enquanto
o povo se volta para o processo do mensalão, não se dá conta de que mensalões e
mensalinhos são urdidos a todo momento pela capacidade de ave de rapina da
grande parte de outros politiqueiros, bem versados, também na arte de se
apoderar da riqueza que o povo produz. Ora, seria o caso de dizer que a arte de
furtar o povo é lugar comum entre os sicários e bandidos, que se dizem
preocupados em cuidar do povo. Coloquemos as barbas de molho, essa coisa de
cuidar do povo esconde o eufemismo “narcotizar o povo” para que se torne mais
fácil furtar sem grandes cuidados.
Num sermão do Padre Antônio
Vieira, lê-se que o filósofo grego Diógenes, o cínico, vendo uma vara de
ministros levando a enforcar um homem que havia furtado um carneiro, começou a
bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Trocando em miúdos,
essa gentalha maltratada e moída, a que chamamos de marginais ou bandidos, bem
como aqueles que não fruem uma só migalha do direito comum a todos, nada mais
representam que as consequências advindas das ações dos ladrões grandes a que
se refere Vieira...
É grande a patifaria. É
vergonhoso tudo isso.
Fecho o texto. Há muita coisa a
dizer. Deixo a outros a incumbência.
Volto à minha velha rede de corda, abro o volume dos Diários de Montelo
e mergulho na leitura. Nesse momento, teço uma breve reflexão: há mais
filosofia no ato de ler e afastar-se do ramerrão cotidiano que perder tempo em
refletir e garatujar o papel, tendo como referencial o emporcalhamento de que
vem, há mais de quinhentos anos, padecendo o maltratado povo brasileiro...
Pois é...
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