EM QUE ESTOU PENSANDO? No momento
acabo de assistir à propaganda eleitoral gratuita e esta me deixa sempre a
pensar. Penso, por exemplo, na forma de raciocinar por silogismos. Que é isso?
Criado pelo gênio de Aristóteles, o silogismo pode carregar uma verdade ou uma
mentira embuçada em falácias. Em outras palavras: quem raciocina por este modo,
parte de duas premissas, uma maior e outra menor. Se ambas forem verdadeiras,
chega-se a uma conclusão verdadeira. Se uma delas for falsa, a conclusão poderá
ter aparência de verdade, mas encerra uma mentira acerca dos dados da
realidade. Por exemplo: todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é
mortal. Aqui temos um silogismo, cuja conclusão é verdadeira. No raciocínio: no
Brasil, todos têm seus direito respeitados; João da Silva é brasileiro; logo,
João da Silva tem seus direitos respeitados no Brasil. Eis um silogismo, cuja
conclusão é falsa, porque uma das premissas, a maior, é falsa. Assim é a
propaganda eleitoral gratuita: plena de falácias, cheia de engodos,
verdadeiramente grávida de mentiras.
A propósito, lembra-me a figura
de um ex-governador boquirroto e de língua solta. Durante a campanha não
regateava ele promessas de toda sorte. Eleito, soube que os médicos no Ceará
estavam em greve. Perguntado sobre como ia resolver o impasse, sorriu e, na sua
linguagem destampada e estúpida, disse de maneira cínica: “Nenhum problema.
Médicos são como sal, branquinhos e se encontram em qualquer lugar”. A esta
conclusão chegou ele, construindo uma metáfora desgraciosa, embutida em
premissas falsas. Haverá sempre necessidade de médicos e profissionais da
saúde. No entanto o ex-governador de língua afiada foi infeliz, mas manteve sua
prepotência, hoje mais atenuada pelas respostas que o eleitor lhe vem dando ao
longo do processo político. Aliás, fez ele parte de um grupelho de coronéis,
que combatiam coronéis, e costumava assestar seus projetos em ridículos slogans de Governo das Mudanças. Essa
premissa nunca chegou a nenhuma conclusão positiva, pois o Ceará continua com
os mesmos vícios, a mesma miséria e a mesma penúria na área do social. Se se
fez alguma mudança, certamente estas beneficiaram tão só a classe política e os
grupos empresariais que dão sustentação às campanhas. Veja-se que o governo
atual do estado do Ceará procedeu a licitação em que a população pagará por mês
a modesta quantia de R$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil) reais para
que o governador e sua tropa de apaniguados sobrevoem, pra lá e pra cá, os céus
de todo o mundo em avião dotado de todo luxo e conforto: ar condicionado e
outros bichos... Enquanto isso, a educação pública vai de mal a pior, basta ver
as estatísticas; a saúde encontra-se entregue às baratas; a segurança resume-se
na propaganda de uma tal Ronda do Quarteirão: policiais embonecados em fardas
feitas sob medidas, a bordo de camioneta Hilux, passeando todos pimpões nas
ruas inseguras de Fortaleza. Enquanto isso, parar em semáforos é correr o risco
de ser assaltado ou morto. Sair de casa é expor-se à sanha de bandidos, que se
apoderam dos bens do incauto e ainda os humilham chamando-os de vagabundos. O
mais coerente para a população é manter-se em casa e não arriscar sua vida. A
coisa chega a ser engraçada; especialistas em segurança pública vão aos meios
de comunicação de massa para aconselhar as pessoas como se comportar. Ora, isso
também é um sofisma, pois o tributo que se paga deve ter por destinação assegurar,
sem nenhum favor, não só segurança mas também meios de que todos vivam suas
vidas com um mínimo de dignidade... O problema é a linguagem... A propósito, há
uma propaganda dos Tribunais Eleitorais que encerram uma conclusão
incontestável; VOTO É CONSEQUÊNCIA... Que premissas antecedem tal conclusão? Ei-las: todo cidadão delega poderes a
representantes para legislar e para administrar a comunidade; logo, sua escolha
redundará em consequências que seus olhos logo, logo, testemunharão.
Por outro lado, se o voto se
atrela a outros interesses que não ao bem comum, fim maior da participação
sincera de todos, as consequências nunca satisfarão a expectativa de todos, mas
surtirão como tumores e purulências de toda ordem na dinâmica social.
Por fim, é bom precatar-se com os
sofismas em que os candidatos costumam pendurar-se. De regra, os sorrisos, os
gestos a musiquinha, os braços em forma de ele e punhos fechados demonstrando
força nos bons propósitos, bem como a presença de políticos de reputação
duvidosa nos palanques eletrônicos para apoiar candidatos, não devem servir de
premissa verdadeira, porque eles, com raras e honrosas exceções, são mentirosos
como o boneco Pinóquio. Suas promessas devem ser vistas como as histórias de
Trancoso ou os “causos” contados por vaqueiros e caçadores, os quais, conforme
a sabedoria popular, aumentam sempre noventa e nove pontos no que contam.
Para chegar a conclusões que se
aproximem daquelas consequências a que alude a propaganda dos Tribunais
Eleitorais, é de bom alvitre fugir ao rio caudaloso das mentiras e falsas
promessas de palanques eleitorais e santinhos, meras falácias, e recorrer ao
silêncio da consciência. Daí, as consequências advirão, certamente,
alvissareiras.
A propósito, como a programação
televisiva anda muito carente de humor negro, o horário da propaganda eleitoral
gratuita é um bom prato para quem desejar extrair das entrelinhas material para
rir a bandeiras despregadas. Pena que seja só por poucos dias...
Nenhum comentário:
Postar um comentário