segunda-feira, 3 de setembro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? No momento acabo de assistir à propaganda eleitoral gratuita e esta me deixa sempre a pensar. Penso, por exemplo, na forma de raciocinar por silogismos. Que é isso? Criado pelo gênio de Aristóteles, o silogismo pode carregar uma verdade ou uma mentira embuçada em falácias. Em outras palavras: quem raciocina por este modo, parte de duas premissas, uma maior e outra menor. Se ambas forem verdadeiras, chega-se a uma conclusão verdadeira. Se uma delas for falsa, a conclusão poderá ter aparência de verdade, mas encerra uma mentira acerca dos dados da realidade. Por exemplo: todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal. Aqui temos um silogismo, cuja conclusão é verdadeira. No raciocínio: no Brasil, todos têm seus direito respeitados; João da Silva é brasileiro; logo, João da Silva tem seus direitos respeitados no Brasil. Eis um silogismo, cuja conclusão é falsa, porque uma das premissas, a maior, é falsa. Assim é a propaganda eleitoral gratuita: plena de falácias, cheia de engodos, verdadeiramente grávida de mentiras.

A propósito, lembra-me a figura de um ex-governador boquirroto e de língua solta. Durante a campanha não regateava ele promessas de toda sorte. Eleito, soube que os médicos no Ceará estavam em greve. Perguntado sobre como ia resolver o impasse, sorriu e, na sua linguagem destampada e estúpida, disse de maneira cínica: “Nenhum problema. Médicos são como sal, branquinhos e se encontram em qualquer lugar”. A esta conclusão chegou ele, construindo uma metáfora desgraciosa, embutida em premissas falsas. Haverá sempre necessidade de médicos e profissionais da saúde. No entanto o ex-governador de língua afiada foi infeliz, mas manteve sua prepotência, hoje mais atenuada pelas respostas que o eleitor lhe vem dando ao longo do processo político. Aliás, fez ele parte de um grupelho de coronéis, que combatiam coronéis, e costumava assestar seus projetos em ridículos slogans de Governo das Mudanças. Essa premissa nunca chegou a nenhuma conclusão positiva, pois o Ceará continua com os mesmos vícios, a mesma miséria e a mesma penúria na área do social. Se se fez alguma mudança, certamente estas beneficiaram tão só a classe política e os grupos empresariais que dão sustentação às campanhas. Veja-se que o governo atual do estado do Ceará procedeu a licitação em que a população pagará por mês a modesta quantia de R$ 450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil) reais para que o governador e sua tropa de apaniguados sobrevoem, pra lá e pra cá, os céus de todo o mundo em avião dotado de todo luxo e conforto: ar condicionado e outros bichos... Enquanto isso, a educação pública vai de mal a pior, basta ver as estatísticas; a saúde encontra-se entregue às baratas; a segurança resume-se na propaganda de uma tal Ronda do Quarteirão: policiais embonecados em fardas feitas sob medidas, a bordo de camioneta Hilux, passeando todos pimpões nas ruas inseguras de Fortaleza. Enquanto isso, parar em semáforos é correr o risco de ser assaltado ou morto. Sair de casa é expor-se à sanha de bandidos, que se apoderam dos bens do incauto e ainda os humilham chamando-os de vagabundos. O mais coerente para a população é manter-se em casa e não arriscar sua vida. A coisa chega a ser engraçada; especialistas em segurança pública vão aos meios de comunicação de massa para aconselhar as pessoas como se comportar. Ora, isso também é um sofisma, pois o tributo que se paga deve ter por destinação assegurar, sem nenhum favor, não só segurança mas também meios de que todos vivam suas vidas com um mínimo de dignidade... O problema é a linguagem... A propósito, há uma propaganda dos Tribunais Eleitorais que encerram uma conclusão incontestável; VOTO É CONSEQUÊNCIA... Que premissas antecedem tal conclusão?  Ei-las: todo cidadão delega poderes a representantes para legislar e para administrar a comunidade; logo, sua escolha redundará em consequências que seus olhos logo, logo, testemunharão.

Por outro lado, se o voto se atrela a outros interesses que não ao bem comum, fim maior da participação sincera de todos, as consequências nunca satisfarão a expectativa de todos, mas surtirão como tumores e purulências de toda ordem na dinâmica social.

Por fim, é bom precatar-se com os sofismas em que os candidatos costumam pendurar-se. De regra, os sorrisos, os gestos a musiquinha, os braços em forma de ele e punhos fechados demonstrando força nos bons propósitos, bem como a presença de políticos de reputação duvidosa nos palanques eletrônicos para apoiar candidatos, não devem servir de premissa verdadeira, porque eles, com raras e honrosas exceções, são mentirosos como o boneco Pinóquio. Suas promessas devem ser vistas como as histórias de Trancoso ou os “causos” contados por vaqueiros e caçadores, os quais, conforme a sabedoria popular, aumentam sempre noventa e nove pontos no que contam.

 

Para chegar a conclusões que se aproximem daquelas consequências a que alude a propaganda dos Tribunais Eleitorais, é de bom alvitre fugir ao rio caudaloso das mentiras e falsas promessas de palanques eleitorais e santinhos, meras falácias, e recorrer ao silêncio da consciência. Daí, as consequências advirão, certamente, alvissareiras.

A propósito, como a programação televisiva anda muito carente de humor negro, o horário da propaganda eleitoral gratuita é um bom prato para quem desejar extrair das entrelinhas material para rir a bandeiras despregadas. Pena que seja só por poucos dias...

 

 

 

 

 

 

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