AI,
ESSA DOR!
Hugo Martins
Vi hoje um pequeno cartaz em
que Maurício de Souza dá a entender que Mônica, a menininha dentuça e de grande
força interior, deve casar-se com o amiguinho de infância Cebolinha. É de
crer-se que o leitor, no mais fundo de sua alma, não aplaudirá a idéia, afinal
não se admite a morte de sonhos e fantasias. Seria o mesmo que fazer crescer o
menino Peter Pan, criação do novelista inglês J, M. Barrie. Ficaria, pois,
decretada a morte da eterna infância, decantada por prosadores e poetas de
todos os tempos e de todas as eras.
Mônica,
adolescendo, perde o encanto e a magia dos “tempos de criança” a que alude
Ataulfo Alves, letra em que o compositor mineiro diz “eu era feliz e não sabia”.
Arrancar a brava menina daqueles tempos é despi-la do seu próprio ser. Ela
representa, com seus arroubos de violência, a mulher que quer se ver
respeitada, que se impõe num mundo organizado por machos. O convincente coelhinho
Sansão é a única arma de que dispõe para repelir as agressões exteriores,
provindas de quem não a aceita, de quem não suporta ver a força que existe na menina-mulher,
jogada em meio à crueldade coletiva do lobo homem. No entanto, por trás da metáfora
da reação, esconde-se um poço de ternura, capaz de perdoar e reatar amizades. A
“dentuça” não odeia, não guarda rancores, ao contrário alimenta amor pelos
amigos, deles se compadece e demonstra a força da solidariedade. De outro lado,
encontra tempo para voar para o mundo platônico das idéias, quando conversa e
troca amabilidades com o anjinho... Está ela na instância do mundo mágico das
crianças, época de devaneios e distante das correrias, maldades, atrocidades e
falseamentos do real, predicados lamentáveis da vida adulta. Não existirá
violência maior que dela retirar essa atmosfera em que a vida vale a pena ser
vivida. Em mantendo Mônica em seu Ser, Maurício de Sousa crescerá ainda mais em
sua atividade pedagógica como também se revelará consciente com o Ser da ficção:
instaurar mundos em que as essências do mundo se fixam a se eternizam... Aqui não
se permite a dialética, a categoria tempo. Aqui este não corre, a não ser no interior
da própria narrativa... É nessa ilogicidade que se revela a lógica do discurso
em que estão em jogo os temas eternos revelados pela linguagem da ficção
literária...
Só na
crueza da existência corre o tempo. Mas sua marcha traz sofrimentos, dores e
dissabores e, por isso, torna-se figadal inimigo do homem. Existe coisa mais
dolorosa que o espelho e a fotografia? Como dói folhear álbuns de fotografias
em que encontramos nossos “mortos de sobrecasaca”, a que se refere Drummond em
poema homônimo!!! E a ridicularia dos cosméticos, que porfiam por esconder os
rasgões de rugas e pés-de-galinha, desenhados tal tatuagens indeléveis em
rostos macerados? E a intervenção cirúrgica, em que pacientes do eterno devir
buscam, inutilmente, conter as marcas do tempo, cujo resultado desemboca numa
mentira que logo retorna à verdade?
“Os
anos se aproximam silenciosamente” diz o poeta latino Ovídio. Todo esforço para
contê-lo é vão. Traduz-se numa luta renhida e cômica contra a angústia do
efêmero, do imenso e interminável caudal da existência... A indústria da eterna
juventude traduz-se numa perversidade sem par, pois faz a fortuna de seus
mentores e fabrica o sofrimento de quem não quer olhar a vida de frente...
A
reflexão me assaltou quando vi Mônica, ao lado de Cebolinha, os dois
paramentados numa solenidade de casamento. Num primeiro momento, abateu-se
sobre mim um sobressalto ao ver a menininha com os cabelos arrumados, o
rostinho desfigurado por maquiagens falseadoras do semblante, ladeada pelo
rapazola enfiado num terno elegante, abrindo um largo e burguês sorriso. Disse
de mim para mim: pronto, mataram Mônica e Cebolinha! Depois, com mais vagar,
rendi-me à reflexão de que se trata de mais uma jogada lúdica de Maurício de
Sousa com o fim de espicaçar a curiosidade dos leitores e persuadi-los a acompanhar
a saga daqueles dois personagens já eternizados na categoria dos tipos eternos.
Se assim for, não lhe tiro a razão e o tirocínio. Mônica, Cebolinha, Cascão e
Magali não devem migrar para o torvelhinho da vida adulta. Isso resultaria num
contrassenso de se lhes impingir a dor universal, que não tangencia o mundo
feérico da infância.
Eles
não merecem tal estocada, são a-temporais; tampouco os leitores, presos à
temporalidade que faz refletir sobre matéria tão dolorosa: o tempo, este inimigo
sem face, que porta sandálias silenciosas.
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