quarta-feira, 31 de agosto de 2016
AS HIENAS ESTÃO DE VOLTA
Hugo Martins
A toda hora elas nos abordam. Seus
rostos risonhos, estampados em fotos coloridas nos comovem; seus nomes,
garatujados em paredes e muros nos enchem os olhos; seus teatrais discursos nos
divertem. Elas estão soltas, de patas estendidas a angariar o que o cidadão não
deve vender: o voto, essa arma democrática tão mal digerida por quem vota e por
quem é votado.
Com efeito, é comovente o ar de
felicidade e confiança que emana do semblante hipócrita de cada uma delas. Quem
não vivesse neste país de contrastes leria naquela carantonha de aura simpática
veladas intenções de indescritível vontade de encontrar mudanças (palavras de
largo uso entre as hienas). Seus nomes, acompanhados de número, sujam a cidade,
tornam-na mais sombria e parecem nada dizer, a não ser que uma hiena está
pretendendo persuadir o transeunte de que ela, por pertencer a um
partido, é um bom partido. Seus sermões monocórdios, com gosto de mesmice, são
uma torturante cantilena, salmodiada de promessas vãs e mendazes, cujo tema não
muda. As notas são: melhorias na saúde, na educação, na segurança e outras baboseiras
de mesmo naipe. É a tagarelice sempiterna de quem, aparentemente interessado em
servir, trai-se, pois, por questão lógica, se o “munus” não fosse remunerado, a
maioria cedo bateria asas... Basta ver que o só ato de trabalhar um só dia numa
das Juntas Eleitorais, recolhendo votos, amedronta o mais bem-intencionado dos
homens...
No
Eclesiastes, livro atribuído a Salomão, há uma frase lapidar que denuncia serem
os mesmos homens e mundo: nihil novi sub
sole (nada de novo sob o sol). Só os filósofos, santos e sábios permanecem
indiferentes, pois conhecem aquela verdade e conhecem outra mais contundente
ainda, também inserta naquele sábio livro: vanitas
vanitatum et omnia vanitas (vaidade das vaidades e tudo é vaidade). Na
verdade, as hienas só olham para o próprio umbigo e para o próprio bolso.
Alcançado seu objetivo, alcandoram-se no seu ilusório poder e esquecem o
risonhamente prometido.
À desfaçatez
de cada uma delas, nosso desprezo e, por via de conseqüência, nosso voto.
Digamos NÃO no próximo pleito eleitoral
com a anulação do voto. Afinal, por que perder tempo? Mudam-se as máscaras, mas todas as hienas são
iguais. E todas as tocas estatais também são as mesmas. Ou, como diz a
sabedoria popular: só mudam as putas; o cabaré continua o mesmo.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
PINÓQUIOS VIVOS E
REDIVIVOS
Hugo Martins
O
projeto é simples: registrar, não à moda diário, mas com a feição de texto
memorialístico, passagens de minha estada no mundo quando menino de calças
curtas e suspensórios, vivendo em Itapipoca até os dez anos de idade.
Já
ensaiei publicar em meu blog (o Face é só espaço motivador) vinte textos com
sabor de relembranças, aos quais atribuí o título Fiapos da Memória. Há tempos
espero o espírito engravidar para continuar a produção, levando em conta,
agora, a cidade de Fortaleza nos inícios de minha adolescência. Sim, espero,
com paciência e fleuma bovinas, mas continuo estéril. Enquanto isso, vou
garatujando as páginas recorrendo àquilo que vejo no mundo, sobretudo no que
tem ele de tragicômico e mentiroso.
Embora
entregue a uma infrene atividade intelectual nesses dois últimos meses, não
consigo fugir ao mundo e a seu espetáculo. Às vezes, quando intento recrear o
espírito vendo algum filme no NETFLIX, dou uma olhada na programação televisiva
e, fatalmente, vejo-me tomado pelas emoções da propaganda eleitoral gratuita.
Não me contenho e a ela assisto a ver os discursos e falas, procurando
desencavar nelas as intenções nobres dos candidatos. As performances são dignas
de atores que cursaram o Actors Studio, por onde passaram Marlon Brando, Paul
Newman, Sal Míneo e tantos outros atores hollywoodianos de reconhecida nomeada.
As figuras são engraçadas, bisonhas, divertidas...
Uma
senhora loura, de cabelos bastos e escorridos nos ombros, com ar de adolescente
protagonista de comédias românticas em filmes melosos, aparece com largo
sorriso, lembrando já ter administrado a cidade por duas vezes e dizendo que
quer mais. Ela quer cuidar das pessoas. Bonitim mermo. Naqueles oito anos, ela
parece não ter conseguido fazer lá grande coisa, pois quer mais quatro para
continuar a fazer o que mesmo?
Um
sujeito, com ar de rapazola, aproveitando-se da violência reinante aí às nossas
fuças, bem como da incompetência do poder público para lidar com o problema,
monta no discurso do “combate à violência” como se esta pudesse ser eliminada
com a recorrência à pleonástica violência pela violência. Pensar por aí é
patentear despreparo por carência de reflexão científica. Onde anda a
Sociologia? Onde andam os educadores? Por que não recorrer às universidades,
lugar de pensamento? Não bastam quartéis e tropas na rua. Sempre que me vem ao
pensamento como a Alemanha, a Itália e o Japão saíram da Segunda Guerra
Mundial, lembro que o remédio que soergueu essas nações foi a alocação de muitos
e sobejos recursos em prol da educação. Aí está, argumento batido, discutido e
sempre lembrado. Mas sempre tão esquecido e desprezado. Quer dizer, o discurso
do rapazinho é ingênuo porque sustentado na evidência de que o povo crê
piamente nas soluções arrotadas com cheiro de coronelismo ultrapassado. Cheiro
de caserna ainda faz mal ao povo brasileiro...
Depois,
um baixote, com ar de Dr. Silvana (inimigo do Capitão Marvel), com a cabeça
lembrando um queijo coalho recém-saído da prensa, de fala melíflua, recorre ao
mesmo discurso de que vai continuar o que vem fazendo pela mobilidade urbana da
cidade, afora a intensificação da iluminação. Seu vice, sujeito useiro e
vezeiro em candidatar-se e sair vencido nas disputas municipais, também tem o
vezo de recorrer ao argumento do combate à violência pela violência. Uma
ocasião, candidatando-se a governador, empunhava a frase sábia e inteligente de
que “combateria a violência com uma 45 na mão e um 38 na outra.” Lengalenga,
conversa fiada, mesmice discursiva.
Estes
e outros de menor expressividade partidária nunca põem às claras a preocupação
em voltar-se para outros dois problemas básico que deveriam figurar como
matéria principal de suas falas: a educação e a saúde. Não só como alusão, mas
pondo na mesa os projetos de como priorizar e fazer alcançar os objetivos neles
descritos. Pouco adianta desejar “cuidar das pessoas” tomando a locução apenas
como apêndice de má e repetida retórica.
Quando
qualquer cidadão faz observações críticas à atuação dos políticos partidários
por ocasião da campanha eleitoral, visando ao atingimento de um cargo eletivo,
alguns filisteus hipócritas desencavam um argumento cretinoide, sacando estas
sábias palavras: “por que você não se coloca no lugar deles e faz o que você
mesmo propõe?” Argumento simplório, que não enxerga a questão do talento. São
poucas as pessoas que ostentam alguma vocação para performances teatrais. Estas
ficam para os caras de pau, aqueles de fala mansa e sorriso fácil. Para aqueles
que, em campanha, bebem cachaça com o povo ao pé de balcões, colocam nos braços
crianças humildes, maltratadas, encardidas e catarrentas. É tarefa hercúlea
para aqueles que, em desfile pelas ruas e praças, apertam, com asco, a mão
calejada do povo humilde e, depois, de bem lavadas com sabão, nelas passam
álcool. Enfim, o sujeito tem de ser senhor de traquejos mentirosos, apanágio de
quem tem talento para embair, para mentir, para enganar. Passadas as eleições,
babau: o pano cai, os atores e figurantes deixam a cena...
Em
verdade, em verdade, vos digo, diria o profeta: “Quando fordes tirar a barba,
não esqueçais dessa sabedoria imorredoura: no lugar de passar loção pós-barba
na cara de pau, passai ÓLEO DE PEROBA. É preciso coerência.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
SONHO
SINGULAR
Hugo Martins
Hoje
tive um sonho pra lá de esquisito. É como se alguém tivesse ido a Monteiro
Lobato, pedido uma pitada de pó de pirlimpimpim à boneca Emília e me houvesse,
impunemente, jogado aos olhos. De repente, vejo-me no Rio de Janeiro, não o dos
tempos atuais, mas o dos tempos idos, à época em que bondes, faetontes e
tílburis cortavam a cidade, as mulheres desfilavam de vestido longo, leque e
sombrinha, enquanto os homens, envolvidos na gravidade dos ternos, de mistura
com a severidade da barba, do pincenê e da corrente do relógio atravessando, de
um bolso a outro, o ventre encoberto pelo colete. Na Rua do Ouvidor, as pessoas
se encontravam, as vaidades desfilavam, e a cidade respirava suas
acontecências. Vejo, então, saindo de uma loja de bricabraques, um senhor de
cabelos e barbas gizados pelo tempo. Pareceu-me familiar: ar aristocrata,
olhar, a um tempo, franco e perscrutador, caminhava em direção a uma livraria
nas proximidades. Caminhava de braços dados com uma mulher de feições
senhoriais, de saias longas plissadas, blusa preta de mangas compridas, de
longos cabelos pretos, penteados para trás em forma de trunfa, rosto limpo e
colo ebúrneo. Não tive coragem de abordá-los. Esperei-os entrar na livraria e
dela saírem... Logo depois, tratei de
entrar na livraria e perguntar ao livreiro quem era aquele casal. O senhor
olhou-me e perguntou-me se eu morava no Rio de Janeiro. Quando disse que não, o
senhor, atrás do balcão, não estranhou a pergunta e tratou de me falar do homem
e da mulher que tanto encanto me provocou.
- Aquela senhora é portuguesa da
cidade do Porto, dona de invejável cultura humanística, bagagem de que, muitas
vezes, se serve para orientar as leituras do marido e corrigir-lhe os textos.
Trata-se de Dona Carolina Augusta Xavier de Novaes. Vive com ele há mais de
trinta anos e tem, indiretamente, alguma participação na obra do marido.
Deixei
o homem soltar a língua:
- Ele, ainda menino, foi tipógrafo,
profissão que lhe colou como sinete fatal, pois tinha de ser homem de letras,
como é, e dos maiores. Aos vinte e cinco anos, já era jornalista de nomeada e,
pode-se dizer, apropriadamente, era o verdadeiro polígrafo, pois militou em
quase todos os gêneros literários. Publicou: romances, contos, crônicas,
poesia, teatro, crítica literária e epistolografia (arte de escrever cartas). É
escritor cuja preocupação é marcadamente voltada para a análise psicológica do
personagem, não com a postura de um clínico ou terapeuta buscando soluções para
as dores da alma, mas, antes, buscando deslindar os nós, os entraves, as
máscaras, a mesquinhez, a hipocrisia e tudo aquilo que faz do homem um joguete
do destino. Tal característica, muito presente nos romances ditos realistas e nos
contos, também se entremostra com tinturas mais brandas em todo o resto de sua
criação literária. Assim, a matéria tempo, o jogo frívolo da vaidade, a traição
de princípios, o individualismo exacerbado, os amores tangidos pelo mero
interesse e outras antivirtudes que fazem do homem um animal mentiroso e
dissimulado, misturado no cadinho de uma linguagem límpida, enxuta e
sobriamente correta, fazem desse senhor um homem de letras, cuja análise do
homem e do mundo ombreia com as mesmas sutilezas literárias de Flaubert e
Fiódor Dostoiévski...
O homem continuou:
- Ali vai ele com sua sisudez
pesada. Por trás daquela gravidade e do pouco riso, está um homem grávido de
sensibilidade estuante, que parece ter guardado todo seu amor só para aquela
mulher... Ela tinha tanta certeza do ardente amor que o marido por ela sentia
que, dizem os biógrafos, alimentava o desejo de que ele morresse primeiro, pois
sabia que seu sofrimento (dele) seria insuportável. E tinha razão. Ela morre em
1904. Desde, então, Machado de Assis enfrentou um martírio. Dizem que ia ao
túmulo de Carolina toda semana, e sempre levava um grande buquê de rosas que
punha sobre a lápide. E definhou, definhou... Os problemas com a saúde se
acentuaram, e veio a falecer em 1908.
- Deixou para ela um soneto, que, ao
aviso do poeta Manuel Bandeira, é uma das páginas mais melancólicas da
literatura brasileira. Trata-se do poema A CAROLINA, em que Machado deixa como
que registrado que a morte da esposa também foi, para ele, também, sua própria
morte.
Despertei do sonho. Mesmo que não
costume lembrar sonhos, este se me revelou com uma nitidez que nem Machado
explica, tampouco Freud.
Tratei de transcrever o soneto.
Ei-lo, explícito e sem enfeites:
A CAROLINA
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que
descansas dessa longa vida,
Aqui venho e
virei, pobre querida,
Trazer-te o
coração do companheiro.
Pulsa-lhe
aquele afeto verdadeiro
Que, a
despeito de toda humana lida,
Fez a nossa
existência apetecida
E num recanto
pôs o mundo inteiro.
Trago-te
flores, - restos arrancados
Da terra que
nos viu passar unidos
E ora mortos
nos deixa e separados.
Que eu, se
tenho nos olhos malferidos
Pensamentos
de vida formulados,
São
pensamentos idos e vividos.
O poema traduz um compromisso. Um
reconhecimento prazeroso. Uma oferenda, uma certeza e, por fim, reconhecida e
irremediável perda. O tema grande se encontra no primeiro terceto: a morte na
alma.
domingo, 28 de agosto de 2016
TEXTO (com alguma impressão de
leitura)
Hugo Martins
Página em branco. Tortura.
Esterilidade absoluta. Nenhuma ideia. Cascavilho fatos presentes, tempos idos e
vividos. Nada. Lembro-me de Drummond, que, refletindo acerca de esterilidade,
dizia que, muitas vezes, o poema está vivo, pronto para ser parido, mas a mão
teima em não escrever. Essa “luta vã com as palavras”, a que Gustave Flaubert
chamou de “angústia da forma” e Olavo Bilac, no mesmo tom, intitulou um de seus
poemas – Inania Verba – em português, palavras impotentes, também atinge
prosadores. O escritor português, José Maria Eça de Queirós dizia reescrever
uma página cinco, seis, até dez vezes. Na melhor biografia que já se publicou
sobre Machado de Assis, obra de Raimundo Magalhães Júnior, escrita em quatro
volumes, tivemos notícia de que o escritor fluminense, muitas vezes, acordava
para consertar uma vírgula ou fazer algum reparo no texto já escrito. Creio que
essas coisas, que lembram uma saudável obsessão, não só ocorre com escritores,
mas com todos aqueles que se aventuram na busca de representar as coisas do
mundo com a maior fidelidade possível. Mundo e palavra mantêm união
inseparável, ideia acertadamente expressa no neologismo drummondiano: “palavramundo”.
Quanta poeticidade encontrada... O casamento morfossemântico, que deu certo sem
a aliança do hífen... Pois bem.
Aqui estava eu, matraqueando o
teclado, perambulando no mundo das ideias e preambulando o texto a ver se
encontrava algum tema para desenvolver. Nada de nada. No momento em que já ia
desistindo, pululou-me uma ideia pescada de uma leitura que fizera acerca de
crítica e historiografia literária. Com efeito, assustei-me quando o crítico
deu um tropeção na leitura de um livro de Jorge Amado. Tenho especial estima
por esse baiano, que escreve na língua boa do povo, entrelaçando lirismo doce
com sensualidade e telurismo. Toda sua obra tem por cenário a Bahia de
capoeiristas, de malandro e prostitutas românticas; a Bahia dos coronéis, das
lutas pela terra, dos jagunços e das emboscadas.
Ora o crítico afirma,
descuidosamente, que o romance Gabriela, Cravo e Canela envereda pelo picaresco
e pelo sensual. Não é verdade. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos, pode-se pescar
uma boa dosagem de picaresco e de sensualidade a toda prova. Mas essa afirmação
não deve ser aplicada àquele romance aqui referido. Na verdade, Gabriela, Cravo
E Canela deve ser lido depois da leitura, por ordem, de Terras do Sem-Fim e São
Jorge dos Ilhéus. Fazem parte do tema do ciclo do cacau. Se nos dois primeiros,
a classe dos coronéis se encontrava no auge do prestígio e do poder; em
Gabriela, Cravo e Canela, numa bela alegoria, recorrendo à mais fina expressão literária,
Jorge Amado acentua a gradativa queda da instituição coronelística, da mesma
forma que faz José Lins do Rego, no romance Fogo Morto. No escritor paraibano,
a metáfora alegórica já se revela no título do livro. Engenho de fogo morto é o
artesanal, o que só fabrica apenas rapadura, e, por injunção de novos sopros civilizatórios,
cederá lugar á usina. Em Gabriela, Cravo e Canela há uma metáfora pesadíssima,
anunciadora dos novos tempos: um coronel poderoso fora levado ao tribunal do
júri e ali condenado por haver matado a própria amante... Em outros tempos era
comum a absolvição, fundamentada no argumento de crime passional para lavar a
honra... À frente dos negócios da usina, o administrador estudado, não mais o
mandonismo autoritário do capitão ou do coronel de patente comprada.
Momentos de sensualidade crua quase nenhum. O
romance do turco Nacib com a cabocla Gabriela se torna na obra elemento para
manter o leitor preso à narrativa, porque o ponto fulcral da obra é,
exatamente, assinalar as transformações por que passa o país. Embora publicado
em 1958, a obra retrata a Ilhéus dos anos 20, tempo histórico de mutações
culturais e visível declínio do coronelismo e da sociedade patriarcal...
A duras penas... Se bom ou mau, saiu.
Pessoalmente não gostei, não fiquei satisfeito. Vai assim mesmo. O importante é
garatujar a folha de papel em diálogo com o mundo e suas variegadas nuanças.
Sigo o conselho do orador romano
Cícero: “nenhum dia sem nenhuma linha”. Ou o de Drummond dado a sua filha
Julieta: “escreva, escreva sempre, mesmo que não seja para publicar...”
Aí está...
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
REENCONTROS
Hugo Martins
Hugo Martins
Hoje à tarde, deambulando pelo bosque Moreira Campos, do Curso de Letras, aguardando o início da aula de língua latina, degustava, em pé, junto à banquinha em torno da qual havia outras pessoas, um copo delicioso de um café “preto como o diabo, quente como o inferno e doce como o amor”. As comparações aspeadas, advirto, não são minhas, mas do teatrólogo Joracy Camargo. Faço a ressalva porque alguém pode ver na coisa alguma manifestação de preconceito. Sim, porque se se tivesse usado “branco como o diabo”, fugiria àquela pecha. Muito engraçado. Pois bem, tomava eu meu quotidiano e vespertino cafezinho, quando sinto nas costas uma leve batida, acompanhada de uma espécie de apelo “e aí, Hugão”? Conheci-o pelo tom forte da voz e pela pancadinha com gosto de amigável carícia. Virei-me, lá estava ele, sorriso emoldurado pelos bastos bigodes e aquele olhar sereno de quem faz pouco caso das mesmices do dia-a-dia. Há tempos não via meu estimado amigo Ridendo Sic. Com ele sempre aprendo alguma coisa, venha ou não esta “alguma coisa” vestida da ironia que lhe é peculiar.
Afastamo-nos e saímos caminhando rumo a um barzinho próximo, ali na Av. Treze de Maio, onde se pode beber uma boa cerveja gelada. E saímos a comentar o que vai pelo mundo. A conversa tinha que tocar num ponto fulcral: a literatura. Por coincidência das grandes, havíamos praticado a releitura de uma obra francesa e sobre ela tecemos alguns comentários. Deixando de lado o tema maior da obra, a questão da essencialidade do amor, Ridendo ressaltou que o livrinho, embora grande, virou moda entre pessoas que adoram que saibamos que elas gostam de lar, mesmo que não leiam porríssima nenhuma. Achei graça. E ele disse: “sim, Hugão, o Pequeno Príncipe virou piada quando alguém criou a história de que, quando uma dada miss disso ou daquilo, do Ceará, do Brasil ou do caralho, era entrevistada e lhe faziam a pergunta sobre sua obra literária preferida, fatalmente, respondia, na sua doce obtusidade: “o Pequeno Príncipe.” Continuou: “ora, nos anos setenta, um também francês, Maurice Druon, publicou O Menino de Dedo Verde, obra com gosto de otimismo barato, em que, em conflitos bélicos, ocorria a lógica dos canhões e vinha um tal menino a fazer dos dedos uma arma e disparar não projéteis, mas flores... Uma gracinha. As misses logo, logo, adotaram a moda de citar a tal romance...” O homem estava endiabrado. Deixei-o falar à vontade...Depois de outros comentários banais, sobretudo sobre as palhaçadas no teatro de nossas casas legislativas, logo mudamos a temática. Foi aí que aproveitei a deixa e pedi sua opinião sobre uma palavrinha antipática, hoje de largo uso, por conta das intragáveis olimpíadas, a tal “paralimpíada”. “Bastardia, subserviência, tola invencionice sem nenhum fundamento a não ser “entregar a alma ao estrangeiro”, render-se à sabujice diante daquele a quem o sujeito se julga inferior,” Eu disse: “homem, seja mais claro.” Ele não me fez esperar. “Hugão, é sabido que os doze deuses gregos habitam o Monte Olimpo e não O monte Limpo. A palavra Olimpíadas foi criada em alusão aos jogos em homenagem a Zeus, deus maior do Monte Olimpo, e não do Monte Limpo. Do ponto de vista da ciência filológica, não filosófica, duas vogais iguais que se entrechocam provocam o fenômeno da crase, como, por exemplo, em português, a palavra DOR é o resultado de um processo de mutação mórfica por que passou a palavra latina DOLOR, que evolui para a forma DOOR, com a queda do grafema L; depois, as duas vogais se fundem, resultando no termo vernáculo DOR. No caso do aborto “paralimpíada”, não poderia ocorrer o mesmo fenômeno, pois as vogais que se entrechocam são o A da preposição PARA e o O da palavra olimpíada. Não é possível a crase entre vogais diferentes. É aceitável a queda do A. Daí teríamos uma forma mais consentânea com a lógica da ordem natural das coisas, a grafia de PAROLIMPÍADA, forma perfeitamente aceitável e mais estética do ponto de vista gráfico.” Continuou em seu raciocínio lógico, não mais filológica, mas filosófico. “O problema é que foi parida de alguma cabeça quase estéril uma forma bastarda do étimo inglês “paralympic” e cruzaram com para(plegic, somado a (o)lympics , e, impunemente, suprimiram, repito, sem fundamento, o grafema O de OLÍMPICO, resultando o monstrengo gráfico que aí está.” Tudo isso é resultado de uma tentativa hipócrita de convencer o mundo de que o “humanismo”, o “amor ao próximo” e outras balelas da retórica vazia devem estar em evidência. E eu concordo com humanismo, com o amor ao próximo, deixando que os deficientes por natureza participem, à luz do pensamento do mestre Aristóteles, como desiguais sendo tratados igualmente, sem alardes, sobretudo de países em que o desrespeito aos direitos humanos é uma tônica sobejamente estampada nos noticiários que, mesmo desvirtuados, não têm como negar as evidências. Portanto, companheiro Hugão, o que não é admissível é emprestar, numa metáfora infeliz, “deficiências” filológicas às palavras. Elas, que refletem o mundo; elas que levantam o pálio dos humanitarismos estudados a fim de pôr em evidência “a vida como ela é.” Que o estrangeiro não meta o bedelho onde não deve.”
Ficou acertado que retomaríamos nossos encontros, interrompidos por algum tempo por injunções das traquinagens da vida, que tece encontros e reencontros que valem a pena. Sobretudo quando há coincidências de reflexões...
Afastamo-nos e saímos caminhando rumo a um barzinho próximo, ali na Av. Treze de Maio, onde se pode beber uma boa cerveja gelada. E saímos a comentar o que vai pelo mundo. A conversa tinha que tocar num ponto fulcral: a literatura. Por coincidência das grandes, havíamos praticado a releitura de uma obra francesa e sobre ela tecemos alguns comentários. Deixando de lado o tema maior da obra, a questão da essencialidade do amor, Ridendo ressaltou que o livrinho, embora grande, virou moda entre pessoas que adoram que saibamos que elas gostam de lar, mesmo que não leiam porríssima nenhuma. Achei graça. E ele disse: “sim, Hugão, o Pequeno Príncipe virou piada quando alguém criou a história de que, quando uma dada miss disso ou daquilo, do Ceará, do Brasil ou do caralho, era entrevistada e lhe faziam a pergunta sobre sua obra literária preferida, fatalmente, respondia, na sua doce obtusidade: “o Pequeno Príncipe.” Continuou: “ora, nos anos setenta, um também francês, Maurice Druon, publicou O Menino de Dedo Verde, obra com gosto de otimismo barato, em que, em conflitos bélicos, ocorria a lógica dos canhões e vinha um tal menino a fazer dos dedos uma arma e disparar não projéteis, mas flores... Uma gracinha. As misses logo, logo, adotaram a moda de citar a tal romance...” O homem estava endiabrado. Deixei-o falar à vontade...Depois de outros comentários banais, sobretudo sobre as palhaçadas no teatro de nossas casas legislativas, logo mudamos a temática. Foi aí que aproveitei a deixa e pedi sua opinião sobre uma palavrinha antipática, hoje de largo uso, por conta das intragáveis olimpíadas, a tal “paralimpíada”. “Bastardia, subserviência, tola invencionice sem nenhum fundamento a não ser “entregar a alma ao estrangeiro”, render-se à sabujice diante daquele a quem o sujeito se julga inferior,” Eu disse: “homem, seja mais claro.” Ele não me fez esperar. “Hugão, é sabido que os doze deuses gregos habitam o Monte Olimpo e não O monte Limpo. A palavra Olimpíadas foi criada em alusão aos jogos em homenagem a Zeus, deus maior do Monte Olimpo, e não do Monte Limpo. Do ponto de vista da ciência filológica, não filosófica, duas vogais iguais que se entrechocam provocam o fenômeno da crase, como, por exemplo, em português, a palavra DOR é o resultado de um processo de mutação mórfica por que passou a palavra latina DOLOR, que evolui para a forma DOOR, com a queda do grafema L; depois, as duas vogais se fundem, resultando no termo vernáculo DOR. No caso do aborto “paralimpíada”, não poderia ocorrer o mesmo fenômeno, pois as vogais que se entrechocam são o A da preposição PARA e o O da palavra olimpíada. Não é possível a crase entre vogais diferentes. É aceitável a queda do A. Daí teríamos uma forma mais consentânea com a lógica da ordem natural das coisas, a grafia de PAROLIMPÍADA, forma perfeitamente aceitável e mais estética do ponto de vista gráfico.” Continuou em seu raciocínio lógico, não mais filológica, mas filosófico. “O problema é que foi parida de alguma cabeça quase estéril uma forma bastarda do étimo inglês “paralympic” e cruzaram com para(plegic, somado a (o)lympics , e, impunemente, suprimiram, repito, sem fundamento, o grafema O de OLÍMPICO, resultando o monstrengo gráfico que aí está.” Tudo isso é resultado de uma tentativa hipócrita de convencer o mundo de que o “humanismo”, o “amor ao próximo” e outras balelas da retórica vazia devem estar em evidência. E eu concordo com humanismo, com o amor ao próximo, deixando que os deficientes por natureza participem, à luz do pensamento do mestre Aristóteles, como desiguais sendo tratados igualmente, sem alardes, sobretudo de países em que o desrespeito aos direitos humanos é uma tônica sobejamente estampada nos noticiários que, mesmo desvirtuados, não têm como negar as evidências. Portanto, companheiro Hugão, o que não é admissível é emprestar, numa metáfora infeliz, “deficiências” filológicas às palavras. Elas, que refletem o mundo; elas que levantam o pálio dos humanitarismos estudados a fim de pôr em evidência “a vida como ela é.” Que o estrangeiro não meta o bedelho onde não deve.”
Ficou acertado que retomaríamos nossos encontros, interrompidos por algum tempo por injunções das traquinagens da vida, que tece encontros e reencontros que valem a pena. Sobretudo quando há coincidências de reflexões...
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
MODISMOS INTOLERÁVEIS
Hugo Martins
Sujeito chega e pergunta: “paralimpíadas está correto?” Que diabo de aleijão gráfico é este? – perguntei. "É palavra que designa as olimpíadas que têm por alvo os atletas que apresentam algum tipo de deficiência física, mas demonstram preparo para competir com seus pares". Democracia. Que coisa linda!! Um diabinho safado me sussurra nas oiças: “ que tem de bonito nisso?” Redargui: “meu caro, você não enxerga, na iniciativa, a lídima preocupação política em dar vez a todos”? O safado soltou um riso escarninho e completou: “isso me cheira a hipocrisia”. Por trás disso existem outros interesses escusos, o do lucro, por exemplo.” Respondi: “meu prezado, não vou discutir a questão porque, diabólico como você é, sempre vai enxergar algo de errado que é feito com tanta boa vontade pelos nossos abnegados homens públicos.” Agora ele explodiu numa gargalhada estentórea e argumentou: “ homem, se essa corja que aí está a dirigir o país estivesse movida pelo propósito de melhorar a vida de todos, faria uso mais sábio dos tributos que todos vocês pagam...” “Que fazem?” Lançam as patas, quais lobos vorazes, no erário, e repassam, para si e para os apaniguados, o produto da riqueza por todos construída, esteados em leis bastardas, criadas para eternizar a impunidade.” “ Assim não fosse, seria possível se promoverem olimpíadas voltadas para o essencial e não para o incidental, que põe em evidência o espetaculoso, montado na mentira e na desfaçatez cínica de quadrilheiros versados na arte de embair a todos vocês, os ingênuos, os sem imaginação, os sem estrela, os otários...” Dizendo isso, o pequeno demônio chispou e desapareceu numa nuvem de enxofre.
Isso se deu num átimo, pois fui como que acordado pela insistência do sujeito: “e então, que me diz da palavra referida.?” Acresci que nada tinha a dizer, pois sempre aparecerão linguistas modernosos defendendo que o preconceito linguístico é apanágio de quem não quer enxergar a língua por um prisma científico. O sujeito insistiu: “e sua posição?” Disse eu: “homem, para ser sincero, eu mandaria essa casta de linguista dona da verdade para “a puta que os pariu”. Não por impotência argumentativa, tampouco por carecer de base epistemológica (conhecimento científico). Digo alto e bom som: “paralimpíada é frescura de rabo, é termo inventado por algum imbeciloide que não tem o que fazer. Ele, para se mostrar diferente, utiliza o frankstein gráfico e, o que é pior, todo um rebanho de descerebrados o segue como carneirinhos bem adestrados. Repito: paralimpíada está errado.
Argumentos? Primeiro, não me consta que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras, registre a bastardia gráfica. Se o fizer, também incide em erro. Segundo, a preposição PARA, que ladeia a palavra Olimpíada, é a mesma que se coloca antes do radical da palavra literatura, por exemplo, resultando PARALITERATURA, isto é, significa “quase literatura.” Da mesma forma, no caso em comento, tem-se, por analogia, PARAOLIMPIADA, “quase olimpíada”. Terceiro, nenhuma razão de natureza fonética justifica a queda do “O”. Que diabos é mesmo “limpíada”? A queda de fonemas se dá, normalmente no fenômeno da crase, da fusão de vogais. Assim é que a palavra COR, advém da palavra latina “COLOR”, que, em sua evolução, sofre a queda ou síncope do “L’, restando COOR. Daí, as duas vogais se fundem, como ocorre em COOPERAÇÃO (prefixo CO, variante de COM, mais OPERAÇÃO) Observe-se que a palavra é assim grafada, mas, quando pronunciada, no português brasileiro, soa COPERAÇÃO, crase, crase, crase, coisa que não se explica na horrorosa “paralimpíada".
Numa olimpíada em que a grafia das palavras fosse uma modalidade “esportiva”, o sujeito que teve a infeliz ideia de inventar aquela palavrinha, não receberia medalhas e talvez nem mesmo participasse da competição por insuficiência de preparo...
O que não estaria pensando ZEUS e seu séquito de onze deuses lá no Monte LIMPO? Provavelmente em lançar seu raio e fulminar o idiota que me fez perder tempo em escrever este texto para justificar quanto ele é tolo, parvo e outros adjetivos afins.
Hugo Martins
Sujeito chega e pergunta: “paralimpíadas está correto?” Que diabo de aleijão gráfico é este? – perguntei. "É palavra que designa as olimpíadas que têm por alvo os atletas que apresentam algum tipo de deficiência física, mas demonstram preparo para competir com seus pares". Democracia. Que coisa linda!! Um diabinho safado me sussurra nas oiças: “ que tem de bonito nisso?” Redargui: “meu caro, você não enxerga, na iniciativa, a lídima preocupação política em dar vez a todos”? O safado soltou um riso escarninho e completou: “isso me cheira a hipocrisia”. Por trás disso existem outros interesses escusos, o do lucro, por exemplo.” Respondi: “meu prezado, não vou discutir a questão porque, diabólico como você é, sempre vai enxergar algo de errado que é feito com tanta boa vontade pelos nossos abnegados homens públicos.” Agora ele explodiu numa gargalhada estentórea e argumentou: “ homem, se essa corja que aí está a dirigir o país estivesse movida pelo propósito de melhorar a vida de todos, faria uso mais sábio dos tributos que todos vocês pagam...” “Que fazem?” Lançam as patas, quais lobos vorazes, no erário, e repassam, para si e para os apaniguados, o produto da riqueza por todos construída, esteados em leis bastardas, criadas para eternizar a impunidade.” “ Assim não fosse, seria possível se promoverem olimpíadas voltadas para o essencial e não para o incidental, que põe em evidência o espetaculoso, montado na mentira e na desfaçatez cínica de quadrilheiros versados na arte de embair a todos vocês, os ingênuos, os sem imaginação, os sem estrela, os otários...” Dizendo isso, o pequeno demônio chispou e desapareceu numa nuvem de enxofre.
Isso se deu num átimo, pois fui como que acordado pela insistência do sujeito: “e então, que me diz da palavra referida.?” Acresci que nada tinha a dizer, pois sempre aparecerão linguistas modernosos defendendo que o preconceito linguístico é apanágio de quem não quer enxergar a língua por um prisma científico. O sujeito insistiu: “e sua posição?” Disse eu: “homem, para ser sincero, eu mandaria essa casta de linguista dona da verdade para “a puta que os pariu”. Não por impotência argumentativa, tampouco por carecer de base epistemológica (conhecimento científico). Digo alto e bom som: “paralimpíada é frescura de rabo, é termo inventado por algum imbeciloide que não tem o que fazer. Ele, para se mostrar diferente, utiliza o frankstein gráfico e, o que é pior, todo um rebanho de descerebrados o segue como carneirinhos bem adestrados. Repito: paralimpíada está errado.
Argumentos? Primeiro, não me consta que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras, registre a bastardia gráfica. Se o fizer, também incide em erro. Segundo, a preposição PARA, que ladeia a palavra Olimpíada, é a mesma que se coloca antes do radical da palavra literatura, por exemplo, resultando PARALITERATURA, isto é, significa “quase literatura.” Da mesma forma, no caso em comento, tem-se, por analogia, PARAOLIMPIADA, “quase olimpíada”. Terceiro, nenhuma razão de natureza fonética justifica a queda do “O”. Que diabos é mesmo “limpíada”? A queda de fonemas se dá, normalmente no fenômeno da crase, da fusão de vogais. Assim é que a palavra COR, advém da palavra latina “COLOR”, que, em sua evolução, sofre a queda ou síncope do “L’, restando COOR. Daí, as duas vogais se fundem, como ocorre em COOPERAÇÃO (prefixo CO, variante de COM, mais OPERAÇÃO) Observe-se que a palavra é assim grafada, mas, quando pronunciada, no português brasileiro, soa COPERAÇÃO, crase, crase, crase, coisa que não se explica na horrorosa “paralimpíada".
Numa olimpíada em que a grafia das palavras fosse uma modalidade “esportiva”, o sujeito que teve a infeliz ideia de inventar aquela palavrinha, não receberia medalhas e talvez nem mesmo participasse da competição por insuficiência de preparo...
O que não estaria pensando ZEUS e seu séquito de onze deuses lá no Monte LIMPO? Provavelmente em lançar seu raio e fulminar o idiota que me fez perder tempo em escrever este texto para justificar quanto ele é tolo, parvo e outros adjetivos afins.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
FIAPOS DE MEMÓRIA – XX
Hugo Martins
Trouxe eu a
lume, em dezenove textos, sobrepostos com o título em frontispício, alguns
quadros narrativos em que intentei pintar, com tintas fugidias, momentos de
minha infância na cidade de Itapipoca, enfocando pessoas, tipos e lugares que
estão indelevelmente marcados naquele tempo em que me vi ser pensante capaz de
enxergar e compreender algumas acontecências de mundo, mais tarde (hoje)
resgatáveis pelos mecanismos da memória. Retratei mitômanos, loucos, bêbados,
padres, paisagens físicas, paisagens psíquicas, estados d´alma... Esse período
vai da abertura dos meus olhos e espírito para o mundo até o ano em que, com
quase dez anos, minha família se mudou para Fortaleza. Muito há ainda para
contar desse período. Prefiro, porém, parar por aqui, pois toda pausa traz
repouso e propicia a abertura de novas reflexões sobre o que há para frente. Há
muita coisa a resgatar. Aos dez anos de idade, a mudança de ambiente geográfico
e a perspectiva de coisas novas por surgirem, é de bom alvitre que se faça como
o cineasta que, com a câmara sobre o ombro e as ideiasna cabeça, como fazia
cinema o baiano Gláuber Rocha, procurem-se nos cenários do mundo novos quadros,
sejam ou não surpreendentes. O importante é fugir à monotonia como providência
segura para emprestar novas cores, novas nuanças ao eterno devir das coisas,
sem perder de vista não só a “aurora da vida”, época de doçuras e gratas
satisfações mas também o que se lhe segue, as inevitáveis dores e amarguras do
mundo. Afinal a marcha da vida é única, só se transmutam os cenários, os
discursos, as verdades, as mentiras, os engodos, o teatro... Depois, vem a
“indesejada das gentes” e fulmina todos os cenários e encenações. E fim de ato.
Continuando
a pescar no mar do passado novos quadros, novos tipos, novas paisagens, daremos
continuidade às narrativas, substituiremos, no entanto, o título Fiapos da
Memória por Reminiscências. O que dá no mesmo, e o que prova que vestimos as
coisas do mundo com outras palavras-indumentárias, mas não mudamos a essência semântica daquele,
tampouco escondemos os variados palcos nele montados. Acho que o espírito
galhofeiro de Machado de Assis, vez por outra, faz-me uma visita a “vol
d´oiseau”, o que muito me envaidece, afinal todo homem é portador dessa virtude
tão espancada pelo escritor carioca. Não posso fugir à regra, sob pena de a
minha vaidade mais e mais inchar como a rã de La Fontaine.
Quero crer
que faço tais digressões porque hoje à tarde folheando as Memórias Póstumas,
detive-me no capítulo II, em que Brás Cubas, atormentado com uma ideia de criar
um emplasto (forma variante de emplastro) “anti-hipocondríaco para aliviar a
nossa melancólica humanidade”, na verdade, não tinha em mente esse propósito
nobre, pois confessa que o fazia, resumidamente, por amor à glória. “Tinha ele
a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrima”. Trocando em miúdos:
vaidade, vaidade, vaidade. Machado tem a virtude de mexer com minhas reflexões,
de me fazer rir e chorar, isso ao mesmo tempo, pois coloca, nas páginas mais
cortantes, uma espécie de espelho, que reflete quanto somos ridículos com as
nossas vaidadesinhas cotidianas.
Mas o que
estou dizendo? De repente, o texto quis tomar outro rumo como se tivesse sido o
redator tomado por um transe que lhe dirigia os pensamentos e não lhe dava
chance alguma de tomar as próprias rédeas. Com essa reflexão, voltamos à vaca
fria. Em outras palavras, deixar remarcado que, doravante, os textos que, por
acaso, por sorte ou por esforço venha eu a produzir, não mais terão os pés
fincados na cidade em que nasci. O cenário será outro: Fortaleza do resto de
minha infância, somada à minha minha adolescência.
Uma amiga
que, casualmente, leu meu blog perguntou-me o porquê do escrever sobre assunto
tão espinhoso que é o trazer à tona acontecimentos do passado. Respondi-lhe que
por questão de comodidade. Os fatos ali estão gravados, pintados, esculpidos,
sem nenhuma pretensão de recriar o passado. É bem certo que, vez ou outra, damos
a alguns episódios ou quadros alguma pincelada de ficção, mas só para driblar a
dificuldade de encontrar a palavra certa para emprestar maior precisão e
nitidez ao que se pinta, pois, não se recorrendo ao artifício da ficção,
perdemos a chance de acentuar as tonalidades mais diáfanas das paisagens...
Além do mais, a infância é campo fértil onde se colhem os frutos que
amadureceram e ficaram eternizados na memória como placas de bronze. É
instância não atingida pelas intempéries da vida. Mesmo que o sujeito perca a
razão (o senso), enlouqueça, adoeça, sofra, enfrente as adversidades da vida,
padeça de males que atinjam a capacidade de relembrar fatos passados, pode ele
pular alguns vivenciados em outros períodos de sua vida, mas os fatos ocorridos
na infância são inapagáveis. Não é à toa a existência de um gênero literário a
que se dá o nome de Memórias... Deixar de lado esse terreno é não ter nenhum
talento para ali plantar a sua pena, a com que o indivíduo escreve e a com a
qual lamenta ter ultrapassado essa faixa em que a vida parece ser mais
cor-de-rosa. Desconfio ter usado uma metáfora batida. Mas por falta de outra
mais apropriada. Além do mais, é catarse, é depuração, é exercício intelectual
que ocupa nossas reflexões, impedindo-as de derivar para as vias da
imbecilidade coletiva, tão deplorável e monótona.
Até, pois, a
próxima estação de outras relembranças...
terça-feira, 23 de agosto de 2016
FIAPOS DA MEMÓRIA - XIX
Hugo Martins
Chamava-se
Glotã. Nunca soube de onde tiraram essa alcunha. Quero acreditar seja uma
corruptela de glutão. Também chego a pensar tenha saído de algum romance ou
narrativa folhetinesca ao tempo em que ele viveu. Se tinha ascendência nobre, não
o sei. Entretanto, deixava entrever no olhar altivo e nas atitudes corajosas e
intimoratas um pendor natural para não assumir comportamentos que cheirassem à
vulgaridade e à mesmice das almas pequenas e insossas.
Costumava
estender o corpanzil no cimento frio do alpendre, numa atitude de quem se
entrega com frequência à meditação. Nada o perturbava naqueles momentos.
Mantinha a cabeçorra levantada, o olhar pregado em algum ponto fixo no qual se
concentrava, e a língua saía-lhe da bocarra num movimento contínuo de um vaivém
que lembrava o entre e sai do pistom de uma máquina em pleno funcionamento.
Enquanto se entregava a essa “técnica”, saía-lhe também da gorja um ruído
semelhante a quem se encontra a resfolgar depois de um ingente esforço. Não era policial, não era perdigueiro, não
tinha pedigree. Era simplesmente nosso cachorro, talvez um “viralatier”, amado
de todos nós. Só se viam nele atos heroicos de bravura, que ele punha às claras
como a dizer de si para si que era ele um guardião fiel e leal aos seus donos.
Glotã não era servil como sói acontecer com o canis domesticus, era servidor, isso
sim, não subserviente dado a rapapés. Penso até mesmo que, por esse prisma,
tinha ele algum parentesco com a linhagem e o modo de ser dos felinos. Era um
cão dono de uma alma linda, serena e cativante. Dormia no quintal. Não se
assemelhava a Cérbero da mitologia grega, que guardava as portas do inferno e
tinha três cabeças, Glotã só tinha uma cabeça, e sua vigilância à casa dava-nos
a paz narrada dos paraísos.
Lembro-me,
de uma feita, que, numa dada noite, Glotã dormia dentro de casa, quando, já ia
alta a noite, o silêncio foi quebrado: um bácoro, que minha mãe cevava numa
pocilga no quintal, abriu o berreiro no mundo como a protestar que alguém o
estivesse arrebatando... De fato, um ladravaz desavergonhado já atravessava o
portão do quintal, que dava para a rua e para a grande escuridão, quando minha
mãe abriu a porta da cozinha que dava para o quintal, e ordenou: “pega, Glotã!”
Este riscou carreira e, ninguém viu o que aconteceu, dentro de pouco minutos,
lá vinha nosso cão trazendo pela orelha o bácoro surripiado.
Minha mãe
mantinha no quintal duas vacas leiteiras: Pretinha e Pixuna. Todo dia, ao acordar,
a meninada levava, pendurado no dedo pela aselha, um caneco de alumínio para
tomar leite mungido, que fluía, espumoso, das tetas ubertosas daquelas. Não se
devia descer ao quintal senão para aquele fim, pois, soltas, as vacas
“açoitavam”, conforme se dizia naquele tempo para caracterizar a vaca ou o boi
que corria atrás dos incautos e os chifrava. Um certo dia, um dos irmãos desceu
os degraus da porta da cozinha e se viu no quintal. Não se sabia o que ele fora
fazer ali. O fato é que, de repente, se viu perseguido por Pretinha, que
parecia estar disposta a dar uma lição no menino sem cuidados. Os outros,
apreensivos, se viam impotentes em acudir o irmão. Súbito, Glotã se interpõe
entre nosso irmão e a fúria do animal, que parou sob o olhar dominador de nosso
cachorro e ficou a ciscar, a gingar o corpo e a balançar a cabeça com os
grandes e pontiagudos chifres. Glotã acompanhava-lhe os movimentos, fitando os
olhos de Pretinha, como se ensaiasse os passos daquela dança em que se
confrontavam disposições decisivas: uma para atacar, outra para defender e
proteger. A serenidade calculada do cão, que ameaçava segurar os ímpetos da
vaca, cravando os dentes entre as grandes narinas do bicho, ponto nevrálgico
dos bovinos, hipnotizou Pretinha, que parecia estar convencida de que qualquer
tentativa de querer alcançar o menino seria inútil ante a disposição corajosa
de nosso cão de manter incólume o moleque que, não contou pipocas, correu,
subiu os degraus e se embrenhou na cozinha. Grande alívio nos perpassou a
alma... Glotã era o “nosso herói”.
Além dessa
faceta, o cachorro também era dado a brincadeiras, a correr atrás de nós e a
fingir querer nos morder o calcanhar. Na parede do açude, corria, escavava a
areia e, muitas vezes, jogava-se na água, onde nadava com a cabeça erguida,
batendo, continuamente, para cima e para baixo, as grandes patas. Nunca
desconheceu ninguém, tampouco atacou quem quer que fosse.
Um dia, (que
dia triste!!), os olhos do nosso cãozinho começaram a perder a vivacidade. Não
mais nos fazia festas... Encostava-se nos cantos, estirava as patas dianteiras
e, entre elas, punha a cabeça de olhar posto no vácuo das imotivações. Glotã
parecia haver perdido a alegria de viver. Nossa tristeza mais se exacerbou
quando vimos nossa mãe passar uma corda no pescoço do nosso amado cão e
amarrá-lo no tronco de um pé de ciriguela que havia no quintal. À tarde, chegou
seu Chico Maricota, trazendo nas mãos uma espingarda. Um tiro rasgou a tarde.
Nos olhos, as lágrimas borbotaram. Nas almas, uma dor da ausência certa. Foi
minha primeira experiência com a morte.
Glotã foi
habitante de minha infância ao tempo em que, menino de calças curtas e pés no
chão, morava eu em Itapipoca. Entre muitos alumbramentos de então, outra dor
chacoalhou minha alma de menino, que “só sentia sem saber definir”.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
FIAPOS DA MEMÓRIA – XVIII
Hugo Martins
Em outro
texto, dizia eu que, nas férias escolares, minha mãe enviava a mim e meu irmão
José Élmer para a casa de meu avô, em Paracuru, ou para a casa de nossa tia
Iolanda, no distrito de Jardim, próximo a Paracuru. Se aqui convivíamos com a
simpática austeridade de seu Tonho Barroso, no Jardim, encontrávamos maior
liberdade para expandir nossa meninice. Minha tia Iolanda era do tipo que
deixava “correr frouxo”, não ligava muito para alguns excessos que
praticávamos. Tinha ela a intuição de que menino nasceu para brincar, para
soltar as asas, para viver a vida sem amarras limitadoras. Tia Iolanda era
pessoa a quem podíamos aplicar o epíteto “gente boa.”
Saíamos de
Itapipoca pela manhã, encarapitados na carga de um caminhão misto, aquele que
faz serviço de transporte de carga e de passageiros. Chegávamos a Croatá por
volta das três horas da tarde. Descíamos e ficávamos a esperar o caminhão de
seu Valmir. Entre dezessete e trinta e dezoito horas, descíamos na beira da
rodagem e caminhávamos no estirão de três quilômetros de areia fofa, suportando
picadas de mutucas. Já escuro chegávamos à casa de tia Iolanda e tio Zeca. Era
uma casa antiga com um grande terreiro à frente. Nos fundos, um sem número de
árvores frutíferas, misturadas ao coqueiral, de onde se avistava um canavial
sem fim, atravessado por levadas, pequenos riachos que corriam nas regueiras...
Não havia energia elétrica, e a casa ficava tomada de sombras estranhas por
conta das lamparinas bruxuleantes, colocadas em locais estratégicos. Na
cozinha, grandes achas de lenha ardiam no fogão, fazendo ferver a água
da grande e preta chaleira de ferro. Maria Preta fazia tapiocas, tio Zeca se
balançava numa rede de corda, fumando seu cigarrinho, e tia Iolanda a nos fazer
perguntas de hospedeira simpática. Jantávamos o que era servido e, pouco
depois, estávamos entregues ao sono, embalado pela ventania que crispava as
folhas chiantes do canavial.
De um lado da casa grande, havia uma casa de farinha; do
outro, um engenho tipo banguê, isto é, puramente artesanal, onde só se
fabricava rapadura. Aliás, o romancista paraibano José Lins do Rego publicou
livro com esse título. Em outros tempos, a moenda era movida com força animal,
uma grande almanjarra, em cujas pontas se amarrava um burro em que ia montado
um menino. À medida que o animal, açoitado pelo menino, movia-se, a almanjarra
fazia funcionar aquele mecanismo que esmagava a cana, produzindo a garapa para
o fabrico da rapadura. Agora, às cinco da manhã, em época de moagem, ouve-se o
rugir de um motor que dá maior celeridade ao serviço. Já cedo, o povo se
aproximava para embeber a boa garapa, entornando o líquido doce com o auxílio
de uma cuia ou uma coité (ou cuité), que ficava à disposição de quem quisesse
saborear o nutritivo caldo. Quando o mel era entornado nos alguidares, sempre
aparecia alguém com um pedaço de cana raspado. Colocava-o dentro da vasilha e
retirava-o untado de mel para, em seguida, com as mãos antes mergulhadas em
goma, fazer puxa-puxa ou alfenim. À tardinha, terminados os trabalhos, os meninos
disputavam, entre muitos, em que jumento montar para conduzi-los à levada para
o banho. Era uma festa, pois apostavam corrida, além de ver quem se mantinha
mais tempo sobre o lombo do animal quando este começava a pular e a peidar,
estimulado por cutucões nas partes mais sensíveis, ancas, lombos e pescoço. Era
um divertimento impagável...
O jantar era
servido ao fim da tarde. À noite, a meninada das proximidades aparecia. Ficávamos
na calçada ou correndo na areia fria. Às vezes, surgiam desavenças, que
findavam em brigas de tapa. Outras vezes, íamos para uma bodega próxima,
iluminada por grandes faróis que provocavam um ruído estranho, semelhante a um
sopro contínuo. No balcão, os homens tomavam cachaça e jogavam bozó; do lado de
fora, outros, sentados num tronco de carnaubeira, sustentado em duas forquilhas
enfiadas no chão. Os meninos brincavam de esconde-esconde, contavam lorotas ou
ficavam ouvindo histórias de Trancoso, contadas por seu Alfredo, uma bichona
que andava de calças curtas (na época ainda não se falava de bermudas), fumava
cachimbo de barro, bebia uma cachaça amuada e era dado a contar mentiras. Lá
pelas nove horas, tomávamos o caminho de casa. Nada nos amedrontava, e
voltávamos para casa cantando Menino de Braçanã: “É tarde, já vou indo, preciso
ir-me embora, té manhã/ mamãe quando parti, disse fio, não demore em
Braçanã...” Bela canção da lavra de Luiz Vieira. Tudo era cor-de-rosa. Tudo
pureza. Só alegria de viver na doce despreocupação com o que quer que fosse...
Quando
saíamos armados com nossas baladeiras para caçar passarinhos, éramos advertidos
de que levássemos no bolso um pedaço de fumo de rolo, pois o Caipora podia
aparecer e pedir o fumo. Quem não portasse ou tivesse em seu poder um só pedaço
e se negasse a dar, o Caipora poderia matar o caçador, fazendo nele muitas
cócegas... Ora, não acreditávamos muito na coisa, pois havia entre nós um pacto
que consistia em atirar nas avezinha, mas não matá-las. Parecia que todos,
tacitamente, aplaudiam o acordo. Não havia sentido tirar a vida dos que voam em
liberdade e encantam a vida com seu canto, como o canário belga que, todo santo
dia, pousava nas palhas do coqueiro da casa de minha tia e assobiava e assobiava,
e inventava acordes de todos os moldes, fazendo com que parássemos o que
estivéssemos fazendo só para ouvir o danado encantador. Sempre jurei de mãos
postas, e isso faço agora, que nunca matei um só passarinho. Tenho por eles
ternura antiga e especial. Muita vontade tinha eu, se pudesse, de soltar
passarinhos de seus cativeiros e nestes colocar os putos que ali os encerraram...
Eis o painel
de um momento de minha infância quando era eu menino de calças curtas e
suspensórios, vivendo na cidade de Itapipoca e dela, vez em quando,
ausentando-me, para, nas férias escolares, redescobrir novos encantos dessa
faixa da existência em que, como diz Ataulfo Alves, na canção Meus Tempos de
Criança, “eu era feliz e não sabia”.
domingo, 21 de agosto de 2016
FIAPOS
DA MEMÓRIA – XVII
Hugo Martins
Nas férias escolares, minha mãe costumava enviar a mim e
meu irmão José Élmer para a casa de meu avô, em Paracuru, ou para o distrito de
Jardim, para a casa de nossa tia Iolanda. Nosso transporte era um caminhão de
um primo. Íamos no alto da carga. Era divertido por causa das molecagens que
fazíamos. Costumávamos levar conosco canudos da folha do mamoeiro. Púnhamos na
boca alguns grãos vermelhos de jiriquiti, tomávamos do canudo e soprávamos com
força em direção às pessoas, sobretudo, meninos. No alto da carga, estávamos
resguardados de qualquer revanche. Muitas vezes, para quebrar a monotonia da
viagem, brincávamos de contar jumentos. Cada um de nós escolhia um lado da
estrada. Até um determinado destino, ganhava o jogo quem tivesse contado mais
jumentos. Isso, hoje, como se dizia num antigo programa humorístico de rede
televisiva, causa-me frouxos de risos
A casa de meu avô, aquela a que íamos, já não existe. Mas
está viva em minha memória, eternamente suspensa no ar, como a casa do avô de
Manuel Bandeira... Casa grande, de móveis rústicos, baús com redes brancas com
cheiro de guardados, quartos amplos, santuário e o quarto dos mortos, onde
ficavam as fotos de membros da família que já se tinham ido dessa para uma pior.
Em torno, amplos alpendres em que se armavam redes de corda em grande profusão
e de onde se observavam as pessoas passando para a praia. Do quintal, com
imenso coqueiral, assentado num altiplano, víamos a partida e a chegada das
jangadas. Momento mágico, momento feiticeiro, encantador, plenificação estética
na alma romântica do menino, que tudo sentia e nada racionalizava... Por isso,
único
Vovô Barroso era homem de hábitos severos, voz portentosa,
de timbre grave. Quando chegávamos e lhe pedíamos a bênção, perguntava: “que
vieram fazer? Trouxeram rede? Se mijarem na rede, no outro dia sairão com ela
na cabeça e vão pedir esmolas nas casas assim dizendo: “uma esmolinha pelo amor
de São Vicente para um pobre inocente que mija na rede e não sente.” Toda vez
ele dizia isso. Passados os anos, e refletindo sobre o episódio, via por trás
daquilo uma carrada de ternura que o velho não ousava demonstrar. Sua educação
fora muito severa. Homem não tinha que mostrar certos sentimentos. Podia
revelar fraqueza de ânimo. Coisas do tempo, coisas da História...
Meu avô está na galeria das pessoas a quem
queria e quero bem. Admirava-o como homem público que era, no bom sentido da
palavra, e o reverenciava, em silêncio, pelos dotes intelectuais de que era
portador. Mostrava-se leitor infatigável e redator de estilo límpido, claro e
elegante. De sua visão de mundo e formação humanística, haurida no seminário
(quase se ordena), repassou para todos nós alguns valores positivos acerca da vida
que, até hoje, ponho em prática. Tudo espontaneamente, sem grande esforço e sem
a preocupação de impressionar a quem quer que seja. Honestidade de princípios e
de intenções é valor marcante que me veio pelo acervo herdado da austeridade
espiritual de meu avô. Aqui, no quarto em que redijo, o retrato do velho está
aqui à minha frente. Enquanto tanjo o teclado, da moldura desse retrato, vovô olha
para mim e vejo nos seus expressivos olhos verdes a mesma gravidade de quando
era vivo. No momento não me admoesta, continua a fitar-me, e sinto, nisso tudo,
uma espécie de escusa de não ter deixado fluir a ternura que lhe transbordava o
coração...
Passávamos
a manhã na praia. Regressávamos na hora do almoço. Não podia haver atrasos.
Vovô sentava-se na cabeceira. Os demais comensais tomavam assento em seguida. O
velho proferia breve oração em agradecimento pela refeição. Só depois desse
ritual, cada um se servia. O prato principal era peixe, pelo óbvio. Sobremesa:
doce de mamão ou doce de mamão com coco. Após, os adultos iam tirar uma
pestana; a meninada, primos da terra, eu e meu irmão, ficávamos no alpendre
deitados nas redes de corda a conversar e achar graça. De vez em quando, a voz
de seu Tonho troava: “parem de conversa besta ou vão conversar em outro lugar.
Deixem-me descansar...” Continha-se o riso e, um a um, deixávamos o alpendre. À
tarde descíamos para a praia. Correr, tomar banho de mar e jogar bola era o
programa. Chegada a noite, “jantados”, reunião na pracinha atrás da igreja. De
vez em quando, a meninada dava uma volta na calçada da igreja para flagrar
casais de namorados, no escurinho indevassável, a trocar, supunha-se, carícias
mais ousadas... Ás dez, as luzes da cidade se apagavam, tínhamos que voltar
mais cedo. A porta já estava encostada, entrávamos pé ante pé e atirávamo-nos
no fundo da rede branca e cheirosa e dormíamos ao som do quebrar surdo e
cadenciado das ondas do mar...
Tempo
bom, o das férias na casa de meu avô. Tempo marcado fundamente na alma, que,
vez por outra, espreita os escaninhos do passado remoto, tão presente nas
lembranças do menino de calças curtas e suspensórios, morando, ainda, em
Itapipoca.
sábado, 20 de agosto de 2016
FIAPOS
DA MEMÓRIA - XVI
Hugo
Martins
Hoje, primeira aula de língua grega, o professor me
pergunta o porquê de eu decidir estudar grego. Simplesmente amor pela palavra,
pelo mundo e pelo conúbio entre uma e outro. Lógos, verbum,
mot,
parola, world, palavra, elas retratam e
refletem o mundo em todas as suas
instâncias. Amo-as, não importa a que língua pertençam. São a minha grande
paixão. Daí a desmedida devoção a elas desde o tempo em que era eu menino de
calças curtas e suspensórios, morando na cidade de Itapipoca até os idos do ano
de 1958. Lembro-me nitidamente do começo de minha paixão por elas. Embora não dispuséssemos
de biblioteca em nossa casa, tampouco existisse tal coisa no município, dentro
de nossa casa havia o exemplo vivo de nossa mãe, cuja influência iria
irradiar-se no espírito de todos nós. Nossos irmãos, sem exceção, gostavam e
gostam de ler. A velha era apaixonada por leitura e sempre era vista de olhos
grelados em alguma página impressa. O material para leitura não era rico.
Constituía-se de revistas em quadrinhos, fotonovelas, romances folhetinescos e
um ou outro livro de cunho aparentemente científico, além dos livros didáticos
como a Crestomatia e a Nova Seleta... De qualquer modo era material de leitura.
Alfabetizado (palavra formada das duas primeiras letras
do alfabeto grego, alfa e
beta), já folheava algum
material impresso que me surgisse aos olhos. Assim é que, vendo meu interesse,
minha mãe, toda vez que vinha a Fortaleza, trazia-me uma revista. Na época, não
havia referido material na cidade acanhada de Itapipoca. Que lia eu? Os
chamados gibis. Revistas que retratavam o oeste selvagem da América do Norte
(Roy Rogers, Dom Chicote, Gene Autry, Tom Mix, Zorro; revistas de conteúdo
apologético a dados heróis fictícios da vida norte-americana) Superman e
Batman; publicações retratando o mundo das crianças (Luluzinha, Bolinha,
Carequinha, Aninha, Zeca, a Turma da Zona Norte; e outras como O Pato Donald,
Tio Patinhas, Mickey; por fim, as que decantavam o neocolonialismo americano na
África (Tarzan e Antar, a primeira, a desenho; a outra à moda fotonovela...).
Quem me encontrasse, sempre me veria isolado, sobraçando alguma dessas
revistas; como hoje, onde quer que me encontre, algum livro me faz companhia.
Tinha mania de colecioná-los como fazia, antes, com elas.
Nunca larguei o gosto por ler revistas em quadrinhos
embora, pouco tempo depois, tenha eu experimentado uma evolução: comecei a ler
também fotonovelas. Havia muitas lá por casa. Além de minha mãe, tinha minhas
oito irmãs... Mulheres, mulheres, o maior alvo. Desse modo, comecei a entrar no mundo em que
só há felicidades. A temática é a mesma, e o casamento era a solução para
qualquer problema que a mulher enfrentasse. Havia até mesmo uma revista de nome
Querida (li muito), cujo conteúdo apregoava uma ideologia de que a mulher era o
sexo frágil e, por isso, havia para ela um papel social a desempenhar: escrava
do homem, devotada ao lar, aos filhos e a todas as tarefas e problemas domésticos.
As outras fotonovelas, algumas estrangeiras, assentavam-se na temática do amor
como solução para tudo. Assim, retratavam casos, calcados no tripé: mocinha
pobre, porém virtuosa; rapaz rico, de coração nobre que, em nome do amor,
enfrentaria qualquer obstáculo; pai tirano, que não aceitava a união da filha
amada (proprietário não se deve descuidar) com um plebeu ou pé-rapado
(preconceito?). Alguma coincidência com o modelo literário/teatral de Romeu e
Julieta? Às vezes, o rapazelho pretensioso conquistava as graças do pai da
donzela, não pela sabujice subserviente, mas pela virtude, traduzida na vontade
trabalhar, estudar, esforçar-se e vencer na vida (que diabo é isso?) bem a
gosto das ideologias burguesas. Pois bem, na mais tenra idade, eu já me
debruçava nesse mundo hoje enfocado pelas telenovelas, pelo cinema e pela
subliteratura. Dessa maneira, eis aí a “bibliografia” formadora de bovaristas e
sonhadoras: Grande Hotel, Capricho, Sétimo Céu e outras do mesmo jaez. Ainda
hoje lembro o casal romântico da revista Grande Hotel. Tratava-se do par
amoroso Sandro Moretti e Michelle Morgan. Eram atores cinematográficos sem
nenhum talento, mas fotogravam bem, sobretudo por ostentarem a beleza que
encantava às moçoilas casadoiras e doidivanas.
Quanto a livros, lembro de uma publicação de nome Corin
Telado (nunca atinei para a significação dessa locução). Telado por que e de
quê? Bem sei que tratava de questões semelhantes, no tema e na linguagem, às
abordadas pelas fotonovelas. Havia um livro a que menores de idade não podiam ter
acesso, pois seu conteúdo era impróprio, enfocava a questão sexual. Era o
livreto Relações Sexuais entre Solteiros e Casados. Não sei se nesse assunto
havia alguma diferença. Hoje é fácil inferir: era escrito por um padre. Lá em
casa, o livro era arrolado no index librorum prohibitorum (índice de livros
proibidos), criado pela hipocrisia da igreja católica, que tentou assassinar
até mesmo alguns livros da grande literatura, como, por exemplo, Madame Bovary,
do romancista francês Gustave Flaubert. Consegui burlar a vigilância e os
cuidados de minha mãe e terminei por ler o livro proibido. Aqui me vem à mente, uma
reflexão de Melanie Klein, psicanalista austríaca, que diz mais ou menos assim:
“a árvore do conhecimento tem expulsado muita gente de muitos paraísos”. Não
fui fisicamente expulso de lugar nenhum, mas aplicaram-me o epíteto de curioso,
e sofri duras admoestações de minha mãe quando descobriu meu grave “pecado”...
Passados os anos, vinda a maturidade e a evolução
intelectual, meu amor aos livros nunca arrefeceu. Continua o mesmo, cúpida e
ardentemente alimentado a todo momento e a toda hora em que não me ocupo de
coisas menos graves. Há na palavra um pirlimpimpim mágico, envolvente e
embriagador, que nos coloca frente a frente aos enigmas da existência, que
seriam mais indecifráveis sem a luz que dimana refulgente da palavra, sobretudo
da escrita, que nos proporciona tempo de refletir e mantém alguns espécimes
humanos de nós afastados na justa medida das latitudes e longitudes espaciais e
sociais.
Ave, palavra!!!
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
FIAPOS DA MEMÓRIA - XV
Hugo Martins
Quando menino de calças curtas e
suspensórios, em Itapipoca, gostava de olhar o cair da tarde. Essa hora sempre
me cheirou a melancolia, que determina silêncio interior, determinado pelo
silêncio exterior, apenas quebrado pelo aboio de vaqueiros, tangendo o mugido
do gado ao ritmo da batida dos chocalhos e o delendelen lamentoso e doído dos
sinos, anunciando as ave-marias. Hoje, quando ouço a Ave-Maria, seja de Franz Schubert,
seja de Charles Gounod, a imagem me acorre à lembrança. Quando não é esse
quadro, vem-me à mente um cortejo de gente triste passando em frente à igreja,
acolitando um féretro em direção ao cemitério. Embora a letra da canção encerre
rasgados louvores a uma mulher, quando musicada, provoca em mim a evocação da
morte. Freud explica...
Houve tardes
em que a estranha sensação de mais funda tristeza se revelava de outra forma.
Malgrado laudatórias, provocavam em mim irreprimível vontade de chorar. Às vezes,
as lágrimas vinham, não aos borbotões, mas com a descrição cuidadosa que só
permitia àquelas serem vistas por minha mãe, que conhecia tão fundamente a alma
inescrutável do menino... Eram as longas procissões. Duas ao ano: a de São
Sebastião, e a de Nossa Senhora das Mercês. A primeira era a mais tocante. Saía
exatamente às seis da noite... Era um estirão de gente grave e triste, portando
nas mãos velas acesas, cuja flama não se apagava por conta de um grotesco
abajur de papel em sua volta. À frente do cortejo, um andor carregado por
fortes ombros, em cujo centro se via a imagem do santo guerreiro, trazendo no
corpo as flechas com que fora sacrificado. Imediatamente à frente do andor, o
bispo e o vigário da paróquia, ladeados por outros párocos das regiões
vizinhas. Tal uma imensa serpente, a procissão ia se arrastando ao som
merencório de uma miríade de vozes que provocavam um não sei quê de inexplicável
na alma do menino. Doía-lhe mais intensamente quando distinguia naquela espécie
de ladainha torturantes ais, tristonhos lamentos e insistentes pedidos de
socorro, assim: Ó mártir de Cristo, meu santo varão, livrai-nos da peste, São
Sebastião, livrai-nos da peste, São Sebastião...” As sílabas eram proferidas
tal o mesmo tom do canto gregoriano, estiradas e demoradas nos acentos tônicos.
Sentado na calçada da igrejinha de
estilo barroco, lá estavam os olhos do menino pregados na paisagem,
acompanhando a procissão que se ia, que se ia... A seu lado, em pé, só a mãe
sabia da luta do menino em não deixar o pranto escapar.
Essas
lembranças não fenecem, insistem em permanecer nos escaninhos da alma do homem
(agora um empréstimo freudiano a Machado de Assis), pois o “menino é o pai do
homem”. Não lhe é possível trair a si mesmo...
Hoje as
procissões morreram para o menino. Só as de sua infância ficaram no ar,
permanentes como as grandes dores, marcantes e indeléveis como tatuagens no
corpo e na alma...
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
FIAPOS DA MEMÓRIA- XIV
Hugo Martins
Hoje à
tarde, procedia à declinação do artigo na língua grega quando a cabeça começou
a devanear em busca de assunto para a confecção deste texto. Espicaçado,
cavouquei os meandros das lembranças quando, de súbito, saltaram-me, dos
escaninhos do bestunto, historietas que ouvia, quando menino, sobre algumas
figuras singulares da cidade de Itapipoca. Não as presenciei, ninguém me
contou. Como fazem parte de uma espécie de anedotário local, repasso-as como
faziam, outrora, os rapsodos. Estes sempre acrescentavam algo a mais nas
narrativas que transmitiam. Isso faço também, em obediência à sabedoria popular
que diz:” quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto.” É nessa
atmosfera de quase ficção que aqui as exponho. Vamos a elas.
O hotel da
Nana Barroso, senhora de exageradas ancas e generosos seios, ficava no centro
da cidade. Com meia dúzia de janelas dando para rua principal, sua entrada
situava-se numa rua secundária, em cujo centro duas tamareiras abriam suas
palmas ao sopro do vento. Na outra esquina, o bar do Chico da Bomba escancarava
suas portas por onde se viam homens acomodados nas mesas, virando copos de
cerveja ou jogando carteado. A reputação do hotel era reconhecida e comentada.
A comida era farta, os quartos amplos e ventilados, e a delicadeza da
proprietária se pintava em seu rosto gordo e risonho.
Por lá
trabalhava um garçom de nome Bruno. De estatura baixa e magreza visível, seu
Bruno, costumeiramente, vestia, à moda farda, calça azul-escuro e camisa branca
de mangas curtas. Os sapatos eram pretos e engraxados no capricho. O espírito
galhofeiro do povo dizia que o garçom “jogava pedra com a mão esquerda”. Vi-o
algumas vezes e achava seus trejeitos meio forçados. As mãos, levadas à altura
do peito, estiradas como a mostrar as unhas para alguém, mais acentuavam sua natureza
de maricas. A voz era fina como um si menor soprado numa flauta. Não esboçava
um só gesto que não negasse sua condição de quem vivia arrependido e
decepcionado por ter nascido homem. Condição humana causadora de sofrimento que
seu Bruno enfrentava com denodo e destemor. Não criava problema com ninguém. Um
dia, hospedou-se no hotel um sujeito de má catadura e de pouca conversa.
Dizia-se que se tratava de antigo coronel da Guarda Nacional, que fora à cidade
resolver problemas cartoriais.
Certa feita,
achava-se o tal coronel sentado a uma mesa perto da janela a chupar grosso
charuto e a ler um jornal. De vez em quando tossia e alisava os bastos bigodões.
Passado algum tempo, o homem chama um dos garçons. Lá estava Seu Bruno, em pé,
solícito, guardanapo no braço, para atender o freguês.
- Pois não,
senhor!
O coronelão
olhou desconfiado para aquela figura com ar de subserviente e perguntou:
- Que o senhor
tem pra gente comer?
Seu Bruno
perfilou-se, encostou as duas mãos nos peitos, dobrou-se em direção ao rosto do
cliente e disse com simplicidade:
- Fora eu,
tem arroz, feijão, carne bovina, carne suína...
SEGUNDO ATO.
Do outro
lado da rua, havia uma pensão em que se hospedava o juiz de direito da cidade.
A delicadeza do doutor era conhecida, expressa, sobretudo, em sua fala mansa e
melíflua. Morigerado em tudo, sempre vestia terno claro e não tirava a gravata
nem mesmo para almoçar. Em sua mansidão, havia um traço de personalidade que
poucos conheciam: era antologicamente espirituoso. Um dia, hora do almoço,
dirigiu-se à dona da pensão e pediu-lhe que mandasse a cozinheira fritar dois
ovos. Isto feito, a cozinheira olha para o juiz e pergunta: “Doutor Fulano de
Tal, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que ele respondeu: “Não, minha
senhora, só uso talco ROSS...
TERCEIRO ATO.
Nas festas
religiosas, a de São Sebastião e a de Nossa Senhora das Mercês, montavam-se as
quermesses. Brincava-se no carrossel, na roda-gigante; ia-se tentar a sorte no
tiro ao alvo ou jogar argolas para fisgar garrafas de bebida ou carteiras de
cigarros, que eram dispostas no chão, sobre uma lona, separadas do público por
uma corda disposta, em forma de quadrado, à maneira ringue... Grandes
gramofones tocavam músicas a pedido ou em forma de oferenda, como, por exemplo:
“atenção, senhorita de vestido estampado de flores azuis, alguém de iniciais
ABMS oferece esta página musical a você...” Em meio à gente, moçoilas procuravam
conquistar adeptos para o partido azul ou para o partido vermelho. Escolhido um
ou outro, o votante fixava na blusa um alfinete enfiado num pequeno laço com a
com a cor do partido escolhido.
Nas
barracas, de tudo se vendia: bolo de milho, bolo de batata, bolo de grude,
café, cerveja e até mesmo uma cachacinha da boa. Pois bem, um sujeito conhecido
por Mambica era a gaiatice em pessoa...Trabalhava ele numa dessas barracas. Era
o responsável por vender bebidas alcoólicas. Se alguém encostava, ele já ia enchendo
o copo, dizendo: “pronto, freguês.” Este olhava para ele e dizia não ter pedido
nenhuma bebida. Mambica, então, pegava do copo, olhava, de novo, para o cliente
e dizia: “Ah, não quer não? Pois a casa quer...” E tibungo: tomava de uma só
tragada aquilo que para ele era o néctar dos deuses do Olimpo. Nessa
brincadeira, tomava porres e mais porres... Passada a semana dos festejos, era
desfazer as barracas e esperar a próxima festa. Ora, Mambica trabalhara cinco
dias e, por isso, ao fim de tudo reclamou seu pro labore ao dono da barraca.
Este olhou bem fundo nos olhos do malandro e aduziu: “Meu amigo, nada lhe devo.
Fazendo as contas, vi que você bebeu todo o lucro...
Voilà...
FIAPOS DA MEMÓRIA- XIV
Hugo Martins
Hoje à
tarde, procedia à declinação do artigo na língua grega quando a cabeça começou
a devanear em busca de assunto para a confecção deste texto. Espicaçado,
cavouquei os meandros das lembranças quando, de súbito, saltaram-me, dos
escaninhos do bestunto, historietas que ouvia, quando menino, sobre algumas
figuras singulares da cidade de Itapipoca. Não as presenciei, ninguém me
contou. Como fazem parte de uma espécie de anedotário local, repasso-as como
faziam, outrora, os rapsodos. Estes sempre acrescentavam algo a mais nas
narrativas que transmitiam. Isso faço também, em obediência à sabedoria popular
que diz:” quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto.” É nessa
atmosfera de quase ficção que aqui as exponho. Vamos a elas.
O hotel da
Nana Barroso, senhora de exageradas ancas e generosos seios, ficava no centro
da cidade. Com meia dúzia de janelas dando para rua principal, sua entrada
situava-se numa rua secundária, em cujo centro duas tamareiras abriam suas
palmas ao sopro do vento. Na outra esquina, o bar do Chico da Bomba escancarava
suas portas por onde se viam homens acomodados nas mesas, virando copos de
cerveja ou jogando carteado. A reputação do hotel era reconhecida e comentada.
A comida era farta, os quartos amplos e ventilados, e a delicadeza da
proprietária se pintava em seu rosto gordo e risonho.
Por lá
trabalhava um garçom de nome Bruno. De estatura baixa e magreza visível, seu
Bruno, costumeiramente, vestia, à moda farda, calça azul-escuro e camisa branca
de mangas curtas. Os sapatos eram pretos e engraxados no capricho. O espírito
galhofeiro do povo dizia que o garçom “jogava pedra com a mão esquerda”. Vi-o
algumas vezes e achava seus trejeitos meio forçados. As mãos, levadas à altura
do peito, estiradas como a mostrar as unhas para alguém, mais acentuavam sua natureza
de maricas. A voz era fina como um si menor soprado numa flauta. Não esboçava
um só gesto que não negasse sua condição de quem vivia arrependido e
decepcionado por ter nascido homem. Condição humana causadora de sofrimento que
seu Bruno enfrentava com denodo e destemor. Não criava problema com ninguém. Um
dia, hospedou-se no hotel um sujeito de má catadura e de pouca conversa.
Dizia-se que se tratava de antigo coronel da Guarda Nacional, que fora à cidade
resolver problemas cartoriais.
Certa feita,
achava-se o tal coronel sentado a uma mesa perto da janela a chupar grosso
charuto e a ler um jornal. De vez em quando tossia e alisava os bastos bigodões.
Passado algum tempo, o homem chama um dos garçons. Lá estava Seu Bruno, em pé,
solícito, guardanapo no braço, para atender o freguês.
- Pois não,
senhor!
O coronelão
olhou desconfiado para aquela figura com ar de subserviente e perguntou:
- Que o senhor
tem pra gente comer?
Seu Bruno
perfilou-se, encostou as duas mãos nos peitos, dobrou-se em direção ao rosto do
cliente e disse com simplicidade:
- Fora eu,
tem arroz, feijão, carne bovina, carne suína...
SEGUNDO ATO.
Do outro
lado da rua, havia uma pensão em que se hospedava o juiz de direito da cidade.
A delicadeza do doutor era conhecida, expressa, sobretudo, em sua fala mansa e
melíflua. Morigerado em tudo, sempre vestia terno claro e não tirava a gravata
nem mesmo para almoçar. Em sua mansidão, havia um traço de personalidade que
poucos conheciam: era antologicamente espirituoso. Um dia, hora do almoço,
dirigiu-se à dona da pensão e pediu-lhe que mandasse a cozinheira fritar dois
ovos. Isto feito, a cozinheira olha para o juiz e pergunta: “Doutor Fulano de
Tal, o senhor usa sal nos seus ovos?” Ao que ele respondeu: “Não, minha
senhora, só uso talco ROSS...
TERCEIRO ATO.
Nas festas
religiosas, a de São Sebastião e a de Nossa Senhora das Mercês, montavam-se as
quermesses. Brincava-se no carrossel, na roda-gigante; ia-se tentar a sorte no
tiro ao alvo ou jogar argolas para fisgar garrafas de bebida ou carteiras de
cigarros, que eram dispostas no chão, sobre uma lona, separadas do público por
uma corda disposta, em forma de quadrado, à maneira ringue... Grandes
gramofones tocavam músicas a pedido ou em forma de oferenda, como, por exemplo:
“atenção, senhorita de vestido estampado de flores azuis, alguém de iniciais
ABMS oferece esta página musical a você...” Em meio à gente, moçoilas procuravam
conquistar adeptos para o partido azul ou para o partido vermelho. Escolhido um
ou outro, o votante fixava na blusa um alfinete enfiado num pequeno laço com a
com a cor do partido escolhido.
Nas
barracas, de tudo se vendia: bolo de milho, bolo de batata, bolo de grude,
café, cerveja e até mesmo uma cachacinha da boa. Pois bem, um sujeito conhecido
por Mambica era a gaiatice em pessoa...Trabalhava ele numa dessas barracas. Era
o responsável por vender bebidas alcoólicas. Se alguém encostava, ele já ia enchendo
o copo, dizendo: “pronto, freguês.” Este olhava para ele e dizia não ter pedido
nenhuma bebida. Mambica, então, pegava do copo, olhava, de novo, para o cliente
e dizia: “Ah, não quer não? Pois a casa quer...” E tibungo: tomava de uma só
tragada aquilo que para ele era o néctar dos deuses do Olimpo. Nessa
brincadeira, tomava porres e mais porres... Passada a semana dos festejos, era
desfazer as barracas e esperar a próxima festa. Ora, Mambica trabalhara cinco
dias e, por isso, ao fim de tudo reclamou seu pro labore ao dono da barraca.
Este olhou bem fundo nos olhos do malandro e aduziu: “Meu amigo, nada lhe devo.
Fazendo as contas, vi que você bebeu todo o lucro...
Voilà...
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