FIAPOS DA MEMÓRIA - XV
Hugo Martins
Quando menino de calças curtas e
suspensórios, em Itapipoca, gostava de olhar o cair da tarde. Essa hora sempre
me cheirou a melancolia, que determina silêncio interior, determinado pelo
silêncio exterior, apenas quebrado pelo aboio de vaqueiros, tangendo o mugido
do gado ao ritmo da batida dos chocalhos e o delendelen lamentoso e doído dos
sinos, anunciando as ave-marias. Hoje, quando ouço a Ave-Maria, seja de Franz Schubert,
seja de Charles Gounod, a imagem me acorre à lembrança. Quando não é esse
quadro, vem-me à mente um cortejo de gente triste passando em frente à igreja,
acolitando um féretro em direção ao cemitério. Embora a letra da canção encerre
rasgados louvores a uma mulher, quando musicada, provoca em mim a evocação da
morte. Freud explica...
Houve tardes
em que a estranha sensação de mais funda tristeza se revelava de outra forma.
Malgrado laudatórias, provocavam em mim irreprimível vontade de chorar. Às vezes,
as lágrimas vinham, não aos borbotões, mas com a descrição cuidadosa que só
permitia àquelas serem vistas por minha mãe, que conhecia tão fundamente a alma
inescrutável do menino... Eram as longas procissões. Duas ao ano: a de São
Sebastião, e a de Nossa Senhora das Mercês. A primeira era a mais tocante. Saía
exatamente às seis da noite... Era um estirão de gente grave e triste, portando
nas mãos velas acesas, cuja flama não se apagava por conta de um grotesco
abajur de papel em sua volta. À frente do cortejo, um andor carregado por
fortes ombros, em cujo centro se via a imagem do santo guerreiro, trazendo no
corpo as flechas com que fora sacrificado. Imediatamente à frente do andor, o
bispo e o vigário da paróquia, ladeados por outros párocos das regiões
vizinhas. Tal uma imensa serpente, a procissão ia se arrastando ao som
merencório de uma miríade de vozes que provocavam um não sei quê de inexplicável
na alma do menino. Doía-lhe mais intensamente quando distinguia naquela espécie
de ladainha torturantes ais, tristonhos lamentos e insistentes pedidos de
socorro, assim: Ó mártir de Cristo, meu santo varão, livrai-nos da peste, São
Sebastião, livrai-nos da peste, São Sebastião...” As sílabas eram proferidas
tal o mesmo tom do canto gregoriano, estiradas e demoradas nos acentos tônicos.
Sentado na calçada da igrejinha de
estilo barroco, lá estavam os olhos do menino pregados na paisagem,
acompanhando a procissão que se ia, que se ia... A seu lado, em pé, só a mãe
sabia da luta do menino em não deixar o pranto escapar.
Essas
lembranças não fenecem, insistem em permanecer nos escaninhos da alma do homem
(agora um empréstimo freudiano a Machado de Assis), pois o “menino é o pai do
homem”. Não lhe é possível trair a si mesmo...
Hoje as
procissões morreram para o menino. Só as de sua infância ficaram no ar,
permanentes como as grandes dores, marcantes e indeléveis como tatuagens no
corpo e na alma...
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