sexta-feira, 19 de agosto de 2016

FIAPOS DA MEMÓRIA - XV
                                                                       Hugo Martins

                Quando menino de calças curtas e suspensórios, em Itapipoca, gostava de olhar o cair da tarde. Essa hora sempre me cheirou a melancolia, que determina silêncio interior, determinado pelo silêncio exterior, apenas quebrado pelo aboio de vaqueiros, tangendo o mugido do gado ao ritmo da batida dos chocalhos e o delendelen lamentoso e doído dos sinos, anunciando as ave-marias. Hoje, quando ouço a Ave-Maria, seja de Franz Schubert, seja de Charles Gounod, a imagem me acorre à lembrança. Quando não é esse quadro, vem-me à mente um cortejo de gente triste passando em frente à igreja, acolitando um féretro em direção ao cemitério. Embora a letra da canção encerre rasgados louvores a uma mulher, quando musicada, provoca em mim a evocação da morte. Freud explica...
            Houve tardes em que a estranha sensação de mais funda tristeza se revelava de outra forma. Malgrado laudatórias, provocavam em mim irreprimível vontade de chorar. Às vezes, as lágrimas vinham, não aos borbotões, mas com a descrição cuidadosa que só permitia àquelas serem vistas por minha mãe, que conhecia tão fundamente a alma inescrutável do menino... Eram as longas procissões. Duas ao ano: a de São Sebastião, e a de Nossa Senhora das Mercês. A primeira era a mais tocante. Saía exatamente às seis da noite... Era um estirão de gente grave e triste, portando nas mãos velas acesas, cuja flama não se apagava por conta de um grotesco abajur de papel em sua volta. À frente do cortejo, um andor carregado por fortes ombros, em cujo centro se via a imagem do santo guerreiro, trazendo no corpo as flechas com que fora sacrificado. Imediatamente à frente do andor, o bispo e o vigário da paróquia, ladeados por outros párocos das regiões vizinhas. Tal uma imensa serpente, a procissão ia se arrastando ao som merencório de uma miríade de vozes que provocavam um não sei quê de inexplicável na alma do menino. Doía-lhe mais intensamente quando distinguia naquela espécie de ladainha torturantes ais, tristonhos lamentos e insistentes pedidos de socorro, assim: Ó mártir de Cristo, meu santo varão, livrai-nos da peste, São Sebastião, livrai-nos da peste, São Sebastião...” As sílabas eram proferidas tal o mesmo tom do canto gregoriano, estiradas e demoradas nos acentos tônicos.  Sentado na calçada da igrejinha de estilo barroco, lá estavam os olhos do menino pregados na paisagem, acompanhando a procissão que se ia, que se ia... A seu lado, em pé, só a mãe sabia da luta do menino em não deixar o pranto escapar.
            Essas lembranças não fenecem, insistem em permanecer nos escaninhos da alma do homem (agora um empréstimo freudiano a Machado de Assis), pois o “menino é o pai do homem”. Não lhe é possível trair a si mesmo...
            Hoje as procissões morreram para o menino. Só as de sua infância ficaram no ar, permanentes como as grandes dores, marcantes e indeléveis como tatuagens no corpo e na alma...
           

             

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