quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012




CARTAS À MINHA FILHA

14ª

Maria Helena,

a filosofia de mesa de bar quando não envereda pelas sendas do lugar comum da crueza do cotidiano ou da sempiterna patifaria de políticos e outros bichos da mesma fauna, indaga-se sobre temas eternos, os quais serão sempre apanágio da vulnerabilidade humana. Cientes de sua finitude e pacientes também, como todo bom mortal, da inexorabilidade do eterno devir, os filósofos de mesa de bar, inebriados pela plangência de violões, apoiados no cajado de aguardentes e tira-gostos, vez e outra, tangenciam a metafísica e, tocados pelos eflúvios etílicos deixam escapar suas perplexidades acerca do tempo, da morte e da felicidade... De regra, não conhecem os meandros da filosofia, mas exercem o sagrado direito de filosofar. Quem os observa testemunha surdir, de alvoroçados colóquios, verdadeiras pérolas, que evocam os pensadores de escol. Nada de cômico em tudo isso, apenas espanto metafísico, sintonizado pelo inconsciente coletivo e pelas dores do mundo...

Certo dia, num canto de bar, bebericando umas e outras cervejas geladas, vi que duas e três pessoas, sentadas a uma mesa próxima, sustentavam uma comprida arenga acerca da felicidade. Falavam alto, gesticulavam embebiam sucessivos copos de uísque ou cerveja e, de soslaio, passeavam o olhar pelos circundantes a ver se pescavam alguma avaliação, traduzida por algum olhar cúmplice ou pelo rítmico balançar anuente de algumas cabeças...

As teses sustentavam-se em argumentos de todo jaez. Um sujeito barbudo, de boina que lembrava a figura austera de Che, dizia que a felicidade era algo movediço, que nos iludia com refulgentes nuanças, mas logo se evanescia, tal qual bolha de sabão. Lembrei-me dos versos de Vinícius “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor: brilha tranqüila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor.” Aprovava-se o argumento. Porém, logo se aduzia outra tese. Um magricela esgrouvinhado coçou o queixo e comparou a felicidade ao episódio envolvendo Tântalo, que experimentou o tormentoso suplício a ele imposto pelos deuses do Olimpo, de, premido pela fome e pela sede, esticar a mão para alcançar alimento e bebida a ele próximo, mas aqueles dele se afastavam. Dizia o magrelo que a felicidade nos está sempre próxima, porém nossas tentativas são sempre baldadas e temos de amargar, por todo o tempo, o dissabor de persegui-la sem nunca alcançá-la. Veio-me à mente um soneto de Vicente de Carvalho, declamado pela poetisa Cora Coralina, já na mais extrema velhice, quando lhe perguntaram qual era mesmo o sentido da existência para quem experimentara tão larga longevidade: Assim diz o vate santista.







Velho Tema



                                   Só a leve esperança em toda a vida

                                   Disfarça a pena de viver, mais nada;

                                   Nem é mais a existência, resumida,

                                   Que uma grande esperança malograda



                                   O eterno sonho da alma desterrada,

                                   Sonho que a traz ansiosa e embevecida

                                   É uma hora feliz, sempre adiada

                                   E que não chega nunca em toda a vida.



                                   Essa felicidade que supomos,

                                   Árvore milagrosa que sonhamos

                                   Toda arreada de dourados pomos,



                                   Existe, sim: mas nós não alcançamos

                                    Porque está sempre apenas onde a pomos

                                   E nunca a pomos onde nós estamos.



O soneto corroborava o argumento do “magão”.

Enquanto outras teses se aduziam, paguei a despesa, fui me esgueirando e saí caminhando no rumo de casa. Na cabeça martelava uma idéia interessante sobre o tema, pescado da poesia do poeta latino Virgílio. Este dizia que o homem pode experimentar a tal felicidade. Basta-lhe dar-se ao luxo de mergulhar no otium (ócio). Para o autor das Bucólicas, otium é dedicar-se o homem ao cultivo das Belas Letras. É pensar como Flaubert, que escrevendo a uma tal Mademoiselle Leroyer de Chantepie, dizia que  O único meio de suportar a existência é afogar-se na literatura como numa orgia perpétua. O vinho da Arte causa uma profunda embriaguez e é inesgotável...” Ou dizer, com Machado de Assis, “Esta é a alegria que fica, eleva, honra e consola.”

Com efeito, nas horas de folga, existe maior carga de prazer em deliciar-se com a leitura que, esparramado num sofá, deixar-se levar pela programação imbecilizante provinda da “máquina de fazer doido”, que mantém o “televidiota” fisgado e narcotizando-se com os apelos consumistas e reificantes?

Não há uma fórmula para experimentar a felicidade. Há um sentir e um intuir. Faz ela parte de nossa vida. Como se transfigura, isso depende de cada um. A inteligência, a sensibilidade e a disposição para captar essências muito contribui para as multímodas cosmovisões e vivências.

E viva o filosofar nos bares e onde quer que nos encontremos...



                                      Teu pai.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


12ª

CARTAS  À MINHA FILHA



Maria Helena,

nada existe sem a palavra. Ela instaura as significações do mundo, determinando o que é, o que deve ser e o que não deve ser. Não é à toa que os latinos a chamam de verbum. Se leres o Evangelho segundo São João há nele uma referência a um verbo que se fez carne. Aliás, o vocábulo palavra designa, para os exegetas bíblicos, a própria essência, o próprio Ser do Deus dos cristãos. Em grego, o logos, elemento mórfico encontradiço num sem número de palavras do léxico português, sobremaneira no vocabulário das ciências biomédicas, aponta para conhecimento, ciência, saber, discurso. O grande Parmênides, filósofo pré-socrático, já advertia, bem antes de Aristóteles, que o homem é, além de gregário e racional, dono de um discurso, de uma fala, de uma parole acerca do mundo e suas gestações fenomenológicas. Está umbilicalmente preso o homem à palavra. Sem esta o homem não é homem, e o mundo não é mundo. Ambos se interpenetram para que as significações se instaurem. Aliás, nunca é demais lembrar o axioma do pensador alemão Heidegger: “a linguagem é a morada do Ser”.

Os irracionais possuem uma linguagem geneticamente programada. Não instauram significações, tampouco criam cultura. O homem, a seu turno, transforma o mundo, acrescenta a ele algo de novo e o torna mais suportável para as gerações vindouras.

 O homem é ser vocacionado para a morte, pois é o único que dela tem consciência, só ele detém a crua verdade de que é pasto de vermes. Sabedor de sua finitude, de sua insignificância, de sua pouca importância durante a estação em que passa pela vida, recorre a artifícios mirabolantes e, pela linguagem, cria-os de todo jaez... Recorre até mesmo a mentirinhas variadas, às famigeradas datas comemorativas em que ele finge e abraça papéis artísticos. Em dado momento, ele é Papai Noel, aquele velhote pançudo, portando borzeguins e trazendo sobre os costados um saco cheio de mesmices discursivas; em outros, tenta arrancar a máscara hipócrita do fariseu bíblico para substituí-la por um ar, a um tempo, trágico e grotesco. O tartufo de antes se veste de santarrão bem intencionado e sai a enviar cartõezinhos bordados com discurso ensaiado de boa Páscoa, que ele anexa a caixas de chocolates desenhadas por coelhinhos ridículos, cuja simbologia pouca gente consegue decifrar.

Por fim, sempre há ocasiões para as apoteóticas mise en scène em que, pela alquimia da palavra/linguagem, o homem se engane na vã certeza de que ninguém pode ler suas intenções mais esconsas... As palavras escamoteiam o real, mas, paradoxalmente, a este revelam, expondo o homem como um clown desvairado, vítima da comédia tantas vezes ensaiada, que resulta sempre na tragédia das dores do mundo de que nos falam os filósofos.

Minha filha, teu pai não te quer induzir ao pessimismo dos fracos e covardes... Prefere conduzir-te à necessidade de que temos de recorrer à filosofia como forma de compreender o mundo, o homem e seu drama, bem como advertir-te de que otimismo ou pessimismo sem reflexão é ensaio de asnices. Filosofar não é apanágio de alguns, mas de todos que se aventuram na decifração do mundo pela palavra. Ave, verbum!!

Teu pai.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


11ª

Maria Helena,

segunda-feira de Carnaval. Chove em Fortaleza. Acabei a leitura de Édipo Rei, de Sófocles, a tragédia Agamêmnon, de Ésquilo e já começo a ler Medéia, de Eurípedes. As três retratam a condição e as paixões humanas em conflito, o homem entregue ao torvelhinho da inevitabilidade do destino. Dou um tempo aos livros e, vez por outra, ligo o televisor. Que vejo? A tragicomédia humana nessa terra de contrastes.

Com efeito, o brilho, o glamour, a graça e nudez da mulher brasileira, desfilando em meio a condes e reis, fazem pensar que vivemos no “melhor dos mundos” como queria o Doutor Pangloss, personagem do Cândido, de Voltaire.

Feérica festa, embalada por cortejos, cujos figurantes erguem os braços para o ar e abrem-se em sorrisos, é o retrato da contradição. Toda a riqueza, traduzida em fantasias e carros alegóricos, conduzida pela voz do sambista, que, certamente, ignora o tema desenvolvido no enredo, é uma ópera-bufa, que escamoteia a situação trágica em que se acha mergulhado o pobre povo brasileiro. Com fome, carente de educação, de cultura e mergulhada numa despolitização sem precedentes, aquela multidão de foliões mal sabe que se costuram, em gabinetes de homens endomingados e pilantras, estratégias perversas para manter o status quo: privilégios para poucos e negação dos direitos mais comezinhos à multidão embriagada pela alienação e a imbecilidade nossa de cada dia.

Alguns falam em viver um momento de glória em três dias. Vejo aí um sofisma, uma mendacidade malvada, uma afirmação cretinóide, tingida pela burrice, elevada à enésima potência da inconsciência e da descerebração.

Depois da “glória”, virá a dureza do cotidiano, a falta de perspectiva, a violência e todos os males provindos da perversa distribuição de renda, que sempre marcou este país desde que Cabral nele tropeçou. De que adianta ser rei por alguns dias, se amanhã a fraternidade e solidariedades humanas são moedas escassas nas relações sociais? Terminada a festa, reis, rainhas e príncipes voltam ao tugúrio. Finda a alegria e jogadas a um canto fantasias e alegorias, surgem as contas e a apreensão de como saldá-las.

 A única apoteose que resta no palco, após a glória, é a certeza de que nossas crianças continuam alvos da indiferença de governantes e legisladores falastrões. Após a pantomima, sobrará a convicção de que as esmolas governamentais continuarão instilando na consciência de zumbis analfabetos slogans festivos, grávidos de otimismo. Ao fim e ao cabo, aplaudir-se-á o governante que, continuará recebendo ampla aprovação dos brasileiros, narcotizados pela minguada espórtula política, sacada, com grande gáudio para comprar o gás e alguma comida e, por que não, para regar a gorja hiante e aflita dos que narcotizam a consciência com libações alcoólicas nesse país de eterno carnaval, alegorizado e fantasiado por fantasmagóricos três dias.

Teu pai

domingo, 26 de fevereiro de 2012


10ª

Maria Helena,

hoje estou triste. Bateu-me uma saudade gritante de minha mãe. Foi-se desse mundo há vinte e dois anos. Não me sai da lembrança. Não há um só dia que sua imagem não me venha à mente. Aliás, quando se fala de amor verdadeiro, vem-me à cachola uma frase de para-choque de caminhão que diz: AMOR? SÓ DE MÃE. A frasezinha é singela, mas irretorquível.

Quando meu pai morreu, perguntei-lhe o que nos deixara ele de herança. De modo irônico dizia: deixou uma casa, doze filhos e um pote cheio d´água... Era mulher de fibra, que nunca regateou esforços para que os filhos estudassem. Foi com ela que aprendi a amar os livros. Sendo professora, lia intensamente. Quando a ela perguntávamos o significado de uma palavra, ela dizia; diga a frase! Eu achava aquilo maravilhoso porque, inconscientemente, comecei a perceber a relação umbilical existente entre as palavras e as coisas; a “palavramundo” a que se refere Drummond, a palavra grávida de mundo...

Quando resolvi cursar letras, de nossa família foi a única que aplaudiu a idéia. Perguntou-me o porquê da escolha. Disse-lhe que sentia natural inclinação para isso, pois as Belas Letras sempre me encantaram. Ela aduziu que atender aos chamamentos das vocações era uma dádiva.
Que seguisse meu caminho. Não me arrependi...

Lembro, certa feita, que ela não dispunha do dinheiro suficiente para pagar o curso pré-vestibular do filho... Não titubeou, vendeu um botijão de gás para completar o valor da prestação. Aquilo era amor demais. Para mim, pelo menos, aquele era uma espécie de ato heróico, não encontradiço nas narrativas épicas. Só no coração do filho agradecido ecoou e calou fundo...

Sempre a vejo, deitada numa rede, os óculos na ponta do nariz, balançando-se e lendo sofregamente. Eu não entendia, mas intuía que ler deveria ser algo muito cativante. Com o tempo fui descobrindo que meu amor pelos livros vem dela, daquela senhora que, hoje habitante do sobrenatural, ainda se mantém viva nas minhas vivas lembranças. O amor que sentia por ela e curtia em silêncio, sem arroubos ou declarações formais, ainda permanece indelével na minha alma.

Toda vez que alguém se refere a heróis ou quejandos, comparo-os à minha mãe e vejo que ela ganha de longe daqueles. Era lutadora, justa, bondosa e compreensiva, apesar dos sofrimentos que a vida lhe impôs.

Na velhice, vivia cercada dos filhos e, vez por outra, reclamava a ausência deles. Dias havia que cinco ou seis filhos a visitavam e ela, ainda assim, reclamava. Penso que desejava ver todos juntos para compartilhar o grande amor que por eles sentia...

Nunca deixei de encher os olhos d´água quando falo dela. É a saudade grande que me enche o coração de lembranças caras ao homem, menino de calças curtas, que, nas noites de medo de almas do outro mundo, corria para a rede da mãe e ali se aninhava seguro. Ela sempre me mandava, nessas horas, rezar para Nossa Senhora do Carmo. Dava certo. Só sei que eu dormia. Não sei se pelo calor que vinha da mãe ou se pelo rezar para Nossa Senhora do Carmo.

Perto de morrer, chamou os filhos e lhes disse que tinha uma poupança na Caixa Econômica. Ninguém precisava se preocupar com as despesas do funeral. A quantia ali depositada era suficiente... A velha era única...

Teu pai.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012



Maria Helena

A língua portuguesa é pródiga em poemas que nos arrebatam a alma. Deles há que sempre merecem nossa revisita, ou pelo lirismo ou pela excelsitude da linguagem ou em face do tom ternamente elegíaco, ou mesmo pelo gosto épico, que desperta no leitor sentimentos nobres, que o maravilham pelo gosto estético. A linguagem desesperada e catártica de Florbela Espanca; a emoção provinda dos sonetos camonianos sobre o amor; a correção formal de Raimundo Correia; a propriedade lingüística de Bilac; o tom filosófico da obra pessoana; a tristeza vaga que dimana de Bandeira, tudo é motivo de encanto e embevecimento...

Há, porém, um poema em língua portuguesa por que tenho especial apreço. Trata-se de O Navio Negreiro – tragédia do mar, do vate baiano Antônio de Castro Alves. Dele falo porque você me pediu opinião sobre o assunto poesia. Tenho preferência por vários poetas. Afinal eles tornam a vida mais bela e nos fazem pensar na condição humana. Mas o criador de Espumas Flutuantes, além de extremamente lírico em vários poemas, n´O Navio Negreiro nos toma pelo tom épico do assunto e pela metaforização altissonante da linguagem. Nesse poema, há oito versos, considerados pela Academia Brasileira de Letras, numa espécie de votação para a escolha dos mais belos versos da língua, os mais belos entre todos. Está na 6º parte do poema; é uma saudação à bandeira nacional, que o poeta lamenta ter nosso pavilhão servido para encobrir “tanta infâmia e cobardia”. Referia-se ele à cumplicidade muda do povo brasileiro com o tráfico negreiro. Assim declama o poeta:

 “Auriverde pendão da minha terra,

   Que a brisa do Brasil beija e balança,

   Estandarte que a luz do céu encerra,

   E as promessas divinas da esperança...

   Tu, que da liberdade após a guerra,

    Foste hasteado dos heróis na lança,

    Antes te houvessem roto na batalha,

    Que servires a um povo de mortalha!...”

Em resumo, todo o poema se divide em seis partes. Na primeira, o poeta descreve o ambiente em que se vai dar a tragédia. Aqui, o poeta debuxa o palco, que se acha entroncado em duas imensidades; o firmamento e o mar. Na segunda parte, apresenta os marinheiros dos quatro mundos; o espanhol, o italiano, o francês, o inglês e o heleno. Na terceira, recorre ao albatroz, “águia do oceano”, pedindo-lhe emprestados o olhar e as asas, alegando que o olhar humano não pode acompanhar a marcha do navio negreiro, que “semelha no mar doudo cometa.” Na quarta parte, vemos a tragédia que ocorre no tombadilho. Homens, mulheres, moças e crianças, todos prosternados ao estalar do chicote e ao riso da turba. Na quinta parte, o poema recorre a Deus, aos astros, à noite, à tempestade, ao raio e ao trovão a fim de que respondam quem eram aqueles desgraçados. Todos se mantêm calados e cúmplices. Por fim, recorre à poesia (“Musa audaz e libérrima”). Essa vai dizer quem eram os desgraçados, que tanta dor impingem ao vate. Vem então um desfilar de personagens, “ontem livres, hoje míseros escravos” A maior irrisão, porém, revela-se no momento em que o poeta diz que “não são livres nem mesmo para morrer”. A sexta parte fecha-se com a indignação do poeta, que deblatera contra o povo que empresta a bandeira para cobrir aquela atrocidade e “deixa-a transformar-se em manto impuro de bacante fria”. Em seguida, num transe de viva poeticidade, clama o poeta; “Musa! Chora, chora tanto, que o pavilhão se lave no teu pranto...” Por fim, saúda a bandeira com os versos supratranscritos. Invoca, ao final, os heróis do Novo Mundo a eles implorando: Andrada, “arranca esse pendão dos ares”; Colombo “fecha as portas de teus mares!”

Poesia da melhor qualidade e engajada numa causa social e humana, como chamam os franceses “littérature engagée.”

Poeta genial. Morreu aos vinte e quatro anos. Não jogava futebol. Não era astro global. Não era modelo. Nem padecia da secular estupidez por que passa a humanidade nesses tempos de crise...

Teu pai


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012


CARNAVAL

                                                          Hugo Martins



            Nada igual ao Carnaval de 2012 para mim. Na sexta-feira, já curtindo homéricas ressacas literárias, resolvi tomar um porre de poesia. Por isso, deixei de lado Iaiá Garcia e desculpei-me com Machado, afiançando-lhe que, passado o Carnaval, voltaria a curtir sua romântica história. O romancista, como sempre fleumático e tolerante, assentiu filosoficamente, ajuntando que me esperaria, ciente que está de minha fidelidade machadiana.

            Pois bem. Preparei a mesa, arrumei os livros retirados da estante, e comecei a sorvê-los como quem degusta um vinho refinado ou um copo da mais gelada das cervejas. Nenhum comensal. Só eu. Tomei a primeira dose. De repente, vi-me no Navio Negreiro, tendo ao lado o baiano Castro Alves, transpirando indignação a pedir emprestados ao albatroz asas e olhos para melhor enxergar o “sonho dantesco”. A seguir, ouvi-lhe apostrofar não só Deus, mas também a natureza como a perguntar-lhes se era admissível tanto horror perante os céus. O poeta estremecia como um insano, aguilhoado por uma dor insuportável, misto de pavor e impotência. Envergonhado da bandeira que cobria “tanta infâmia e cobardia”, dirige-se, aos gritos, aos heróis do Novo Mundo     , pedindo-lhes, ao primeiro, que arrancasse aquele pendão dos ares; e, ao segundo que fechasse as portas de seus mares. Referia-se o vate adolescente, respectivamente, a José Bonifácio de Andrada e Silva e ao navegador genovês Cristóvão Colombo. Vi-me envolvido pela atmosfera épica e embriaguei-me com aquele traçado de metáforas e metonímias, que cheguei ao estertor estético. Disse de mim para mim que aquele porre valera a pena. Afinal, não era pequena a alma do poeta...

            No sábado, encontrei Machado de Assis no cemitério... Pouco importa a elegância do “bruxo”, sua sobrecasaca, os óculos redondos e o chapéu bem posto, cobrindo-lhe s cãs, acentuando-lhe a barba grisalha... Sim, trazia nas mãos um buquê de flores frescas; no semblante carregado, uma dor intraduzível; e, na alma curvada, uma solidão sem tamanho...  Vi-o, então, aproximar-se de um túmulo, em cuja lápide lia-se um nome: Carolina. Depositou as flores na laje fria e musguenta do sepulcro. Em seguida balbuciou algumas palavras, dizendo: “querida, ao pé do leito derradeiro, em que descansas dessa longa vida, aqui venho e virei, pobre querida, trazer-te o coração do companheiro”. Depois consegui ainda ouvir mais algumas palavras: “Trago-te flores, restos arrancados da terra, que nos viu passar unidos e, ora mortos, nos deixa e separados.” Ao fim, como vencido, homenageia sua amada com esse brinde final: “Que eu, se tenho nos olhos malferidos pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos e vividos.”  Não me contive: entreguei-me a copioso pranto, enquanto a figura solitária e digna do escritor se embrenhava por entre as tumbas vetustas naquela manhã fria da cidade que ele tanto amou e decantou. Certamente tomaria um tílburi, que o levaria à casa do Cosme Velho.

            No domingo, acordei dobrado por uma grande tristeza. Vasculhei a alma e vi-me vencido por uma espicaçante saudade. Nada fazia sentido. Tentei tomar um porre de lirismo. Conversei um pouco com Bilac, depois com Vinicius, mas nenhum me consolou. Ao contrário, tornaram mais lancinante aquela saudade malvada. Deitei-me numa velha rede de corda e entreguei-me à leitura de revistas sobre língua portuguesa... Nada. O diabo da saudade e me lacerar... De repente, pensei: essa saudade não me vai estragar o Carnaval. Apanhei um táxi e fui à raiz do problema: minha amada, de quem estava distanciado há largos e insuportáveis dois meses e dezenove dias. “Resistir quem há-de”? Corri a ela, esparramei minha alma, derramei meu pranto e atirei-me a seus braços, rendido. Daí, por diante, troquei o porre. Deixei de lado a poesia, recoloquei meus companheiros na estante, dele me despedi e eles, como sempre, permaneceram no seu mutismo, esperando-me como amigos fiéis de todas as horas. Abracei-me à mulher amada e demos início a uma nova folia, que se estendeu até quarta-feira de cinzas... Foi bom, natural, edificante e prometedor.

            Hoje, sem medo de errar, foi para mim um grande Carnaval...



           

           

CARTA À MINHA FILHA.


Maria Helena,

perguntas-me qual o método ideal que deve abraçar o professor para alcançar o fim de tornar o estudante mais proficiente enquanto usuário do idioma. Quando alguém me faz tal pergunta, vem-me à cachola uma historieta singular. Conta-se que Machado de Assis, de uma feita, folheava o caderno de um estudante e a ele perguntou-lhe que língua era aquela. O jovem bisonho respondeu ser língua portuguesa. “O bruxo do Cosme Velho”, cético e irônico, balançou a cabeça e disse desconhecer os meandros de tal língua. Por evidente, entreviu nas garatujas do caderno uma gama acentuada de regras e exceções que deixariam tonto o mais sisudo dos filólogos.

 Isso também não nos parece língua portuguesa. O ensino da língua pela língua é inócuo, improdutivo e cretinóide, pois, por ele, o discurso didático-pedagógico não leva em conta manifestar-se o uso do idioma, enquanto instrumento de comunicação, por meio de quatro perspectivas humanas, demasiadamente humanas: de um lado, o falar e o escrever; de outro, o ouvir e o ler. Ora, o pobre do aluno, privado disso, suportando estoicamente o enfiar de goela abaixo a miríade de regrinhas e exceções, queda-se mudo, resignado e internaliza a idéia falsa de que aprender língua portuguesa é algo muito difícil. E tem razão. Enquanto isso, a expressão oral, o redigir, o ler e o falar ficam relegados, inexplicavelmente, a um segundo plano.

Sempre acreditei que, não importa o assunto a ser abordado, o texto deverá sempre o ponto de partida. Lido o texto, procede-se ao levantamento do vocabulário. Em seguida, escrevem-se frases verbais simples e composta com as palavras cujo significado contextual já foi desvendado. Por fim, redigem-se parágrafos, utilizando-se aquelas palavras. E, para coroar a tarefa, a criação do texto, que deve fundamentar-se no tema abordado. As questões lingüísticas serão comentadas no decorrer do comentário dos exercícios. Nada mais simples.

Não se deve, por evidente, olvidar a leitura da obra literária. Reprovável a utilização das famosas fichinhas, que a editoras mandam prontinhas, em franco desrespeito ao ofício do professor. Este deve formular questões, quatro ou cinco, no máximo, de modo que o aluno não veja na leitura da obra uma obrigação enfadonha. Para tanto, há de haver motivação prévia, entretecida pelo professor. Postos em evidência o estético da obra, os jogos de palavras, bem como o problema humano por ela abordado, o aluno se dispõe, livre, leve e solto, a ler a obra com prazer e dela retirar, entre outras coisas, o prazer e o gosto de viajar nas asas da arte.

Ao fim e ao cabo, terminado o semestre ou ano letivo, sairá o aluno com uma bagagem cultural e lingüística, sem ter que padecer com as regrinhas e exceções enfadonhas da gramática normativa. Voilà...

Teu pai

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA (uma concepção).

                                                                      

                                                                                                     Hugo Martins





               Não se deve conceber o ensino do idioma pátrio senão tendo por suporte o texto. Qualquer que seja ele. Escolas há que se expõem ao ridículo de possuir em seu quadro um professor de redação, um professor de gramática, um professor de literatura e outros bichos, como se a língua fosse uma colcha de retalhos, com um especialista para cada retalho. O mais trágico é que muitos dos especialistas nisso ou naquilo, muitas vezes não ostentam competência profissional nem mesmo para alinhavar um punhado de frases, a elas emprestando aparência de texto. Outros ensinam literatura, mas não lêem os livros a que se referem em sala de aula, pois, se a eles fazem alusão, as mais das vezes conhecem-nos de outiva ou en passant, pescando, aqui e ali, alguma informação falseada de livros didáticos elaborados apressadamente por editoras que só raciocinam por cifrões. Quando não, quedam-se na pura historiografia, por si mesma estéril, pois desvinculada dos textos representativos de cada estilo de época em literatura.

            O ensino da gramática é feito de forma descontextualizada. É oferecida por meio de um menu em que o aluno é obrigado a decorar regras, exceções e coisas que tais. Absurdo dos absurdos, a sintaxe parece não servir para coisa nenhuma, pois não é vista como instrumento de o aluno tornar-se leitor mais percuciente e mais crítico. Antes, revela-se instrumento de tortura intelectual e veicula uma verdade nada verdadeira: a língua portuguesa é complicada. Parece-nos que complicado é o professor de língua portuguesa levar à sala de aula a gramática pela gramática, a gramática como um fim em si mesma. Negligenciar a leitura do texto, sua escritura, a consulta ao dicionário, a observação do estético no texto literário significa, como diz o vulgo, o mesmo que “chover no molhado”, o mesmo que vender geladeira na Antártida... Ao aluno não interessa aprender uma língua que ele já conhece.

            Érico Veríssimo mal concluiu o curso ginasial (hoje curso fundamental); Machado de Assis não freqüentou academias escolares, aprendeu com um padre, quando menino, alguns rudimentos de latim e de francês; Monteiro Lobato tinha verdadeira ojeriza à gramatiquice pretensiosa. Uma coisa é certa: estes e muitos escritores consagrados tornaram-se o que são porque, sobretudo liam, liam e liam. Eram ratos de biblioteca, metáfora feliz com que alguém rotulou Clóvis Beviláqua e Capistrano de Abreu. Em outras palavras: a aprendizagem da língua, em não importa que nível (culto, familiar tenso ou familiar distenso) dá-se pela leitura. Simplesmente.

            Deixe-se, pois de lado, o autoritarismo do discurso gramatiqueiro, as poses doutorais e bacharelescas. Recorra-se ao sadio autodidatismo, ao amor gratuito pelos livros e leve-se à sala de aula o entusiasmo pelas possibilidades múltiplas que a língua portuguesa esconde em seu bojo. Basta que se descubram. Assim, a língua se “descomplica”, e o mundo será mais belo... Sem gramática ou apesar dela.









           



CARTAS À MINHA FILHA




Maria Helena,

perguntas-me a diferença entre saudade e nostalgia. Confesso-te minha ignorância sobre o assunto. Parece-me que ambas as palavras, por pertencerem ao mesmo universo semântico, apontam para uma acepção próxima daquilo que chamamos insatisfação afetiva por nos faltar alguma coisa que nos era agradável e que de nós se afastou. A ausência de quem amamos, um lugar e um tempo que nos foram caros e até episódios de nossa vida, que nos pareciam sem importância, podem motivar esse “doer” na alma”, que chamamos saudade ou nostalgia.

 Há saudade que mata, como aquela de que eram acometidos os negros africanos quando obrigados a deixar seu torrão natal por imposição da cupidez e maldades humanas. Padeciam do banzo, choravam, definhavam, morriam. Quem bem traduziu isso foi o poeta parnasiano Raimundo Correia, no soneto Banzo. Também o vate baiano Castro Alves, no poema de tom épico O Navio Negreiro: tragédia do mar.

Temos saudades dos entes amados, hoje habitantes do sobrenatural; alimentamos saudade do tempo em que nossos filhos, hoje crescidos, eram nossos e lamentamos tenham deixado de ser as eternas crianças, que nosso egoísmo projeta; padecemos de saudade com a perda da mulher amada, lembrando de seus gestos, cheiro e faceirice... Saudade é, pois, perda de algo que se diluiu nas fímbrias e esquinas do tempo.

A nostalgia se instala como saudade mais dolorida e obsedante. Assenta-se no irresgatável, embuça-se nas sombras da melancolia inevitável. Uma ruazita, um bando de meninos em folguedos, jogando bila, soltando arraia, correndo descalças, sem nenhum temor de violência; famílias conversando nas calçadas ao sabor do balanço das cadeiras de vime; o café coado na hora; as solteironas com os cotovelos apoiados nas janelas a bisbilhotar e comentar a vida do próximo; o cair da tarde, saudado pelo dobre melancólico dos sinos plangentes; o aboio dolorido do vaqueiro, misturado ao dorido mugir da boiada, quebrando o silêncio no bimbalhar monocórdio dos chocalhos de reses, que, no ritmo cadenciado das cabeças, recolhem-se, em silêncio filosófico, ao redil, tudo é nostalgia.

Existe coisa mais doída que a lembrança dos bichos da casa? A eles dávamos nomes. Na minha infância, havia a vaca Pretinha, que tinha uma mancha branca na testa que semelhava um coração; a vaca Pixuna, de chifres tortos, cujo ar de poucos amigos nos impedia de ir ao grande quintal; o cachorro Glutão, da raça viralatier, de orelhas grandes, com os dentes à mostra e a língua no vaivém contínuo, a nos fitar com grandes olhos vivos e ternos, todos eles não nos saem da lembrança.

Habitam eles as nossas recordações, quando a alma, tomada de nostalgia ou ungida de saudades, queda-se, absorta, no que foi e não mais é, mas que desejaríamos sempre fosse.

No mais fundo de nossos escaninhos mentais, somos proustianos, isto é, estamos sempre entregues à tarefa de buscar o tempo perdido. E este se encontra sempre na infância, tempo em que todos estamos despojados de preocupações, sonhos vãos e tolas vaidades...

Saudade e nostalgia habitam a infância. Lamentável termos de crescer e ouvir algumas vozes insinceras e mecânicas bradarem “é o novo”, quando apenas estamos querendo trazer à tona as coisas que o tempo levou.

A propósito, em literatura, poucos são os escritores que não tenham volvido à infância. Quase toda a obra de José Lins do Rego encarece esse tempo; Graciliano Ramos intitulou um de seus livros Infância; a aparente sisudez de Érico Veríssimo produziu Música ao Longe e Clarissa; o compositor Ataulfo Alves imortalizou Meus Tempos de Criança, aquela dos versos “eu era feliz e não sabia”. Quando não implícito, o tema esconde-se nas entrelinhas.

Não há escritor, poeta, sonhador ou escrevinhador que não tenha afinado as cordas do coração com o tema da eterna infância. E viva a infância!

Voilà!

Teu pai


domingo, 19 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA


Maria Helena,

no Evangelho segundo São Mateus, o Cristo deblatera contra os fariseus, a quem ele lança o labéu de “raça de víboras”, “geração adúltera” e “sepulcros caiados”. Rótulos bem apropriados ao homem dos novos tempos, os quais escondem a desfaçatez, escamoteiam a ignomínia e fazem pouco da boa-fé dos homens de boa vontade. Nada mais fere que a mentira embuçada em atitudes hipócritas; nada mais insulta que a falta de sinceridade consigo mesmo; nada mais intolerável que o tartufismo baboso.

De que adianta falar em ética, quando nas mais comezinhas ações do cotidiano nos revelamos falsos e dissimulados? De que adianta se prosternar ante imagens de santos, balbuciar orações e estar com o coração dilacerado por inevitáveis contradições? Como explicar o pai de família e seus filhos, que não respeitam a pessoa que lhes presta serviços, assediando-a para satisfazer seus instintos bestiais?

E o professor que, sem nenhuma vocação para o magistério se arrasta para a sala de aula ou dela foge, fingindo estar “pesquisando”? E o professor que, desejando engordar o contracheque faz cursos de pós-graduação, cuja área de interesse nada tem a ver com sua formação? Conheço gente que cursa, por exemplo, informática, e se pós-gradua em meio ambiente. É mole?

Pior é o professor de língua portuguesa que, arrotando erudição e posando de bem informado, indica ao alunado a leitura de obra literária que ele mesmo não leu, ou fingiu ler, recorrendo a resenhas ou orelhas de livros. Deles há que se aferram ao ensino da gramática pela gramática e deixam de lado a leitura do texto, com suas implicações lógico-semânticas, e se regozijam em falar de regrinhas e mais regrinhas, sem importância porque descontextualizadas. Quando não, montam em exceções e atingem um orgasmo gramatical em que só ele goza e deixa os alunos a ver navios.

Maria Helena, minha filha, tais impostores deviam ser chicoteados como o Cristo fez com os vendilhões do templo. São mercadores de boas intenções e cometem o pecado maior de ser desonestos consigo mesmos. Por isso, te precata..                                                                       Teu pai Hugo

AH! NORMAIS.

                                                      Hugo Martins



               Antigamente, em toda cidade do interior, havia um doido oficial. Era uma espécie de repositório das neuroses coletivas da cidade. Hoje é difícil distinguir os doidos oficiais, existem muitos candidatos para isso. Aliás, Machado de Assis, no conto O Alienista, bem como a Psiquiatria moderna não traçam fronteiras nítidas entre lucidez e loucura... Todos estamos pisando essa linha imaginária, pendendo ora para um lado, ora para o outro...

            Na minha meninice em Itapipoca, conheci dois deles: Zezim do Mocambo e Pinta Cega.

            Zezim era um negro alto, magro, cujas vestes se reduziam a um saco de estopa com dois buracos por onde ele introduzia suas pernas finas e longas. A boca do saco fazia as vezes de cós, a que ele amarrava uma embira à moda cinto. Era visível o contraste entre aquela figura e a voz, cujo timbre era acutíssimo.

            Zezim era um louco manso. Andava pela feira a catar restos de comida para se alimentar. Não mexia com ninguém. Só uma coisa o irritava, e a população sádica e os moleques de rua disso sabiam. Quando ele passava, em seu andar desengonçado, as pessoas se escondiam e gritavam a todo pulmão: TRÁ LÁ LÁ, TRÁ LÁ LÁ... Palavrões de todas as cores saltavam aos borbotões nos gritos “assopranados” de Zezim. Nessas ocasiões, o alienado lançava mão de pedras e cacos de telhas e os arremessava para onde partia a ofensa. Em seguida, punha as mãos abertas como a tapar as orelhas e saía em desembalada carreira rumo ao açude, lugar onde provavelmente encontrava segurança.

            Pinta Cega costuma ficar na pracinha em frente à igreja matriz. Passeava de um lado para o outro, parava, sentava-se, levantava-se, sentava-se... Trazia um pano sujo sobre os cabelos revoltos e vestia saia estampada. A psicologia malsã da molecada já conhecia o espírito iracundo de Pinta Cega. Um grito espichado ecoava de um dos cantos da praça: Piiiiiinta Ceeeega. Possessa, a louca bradava toda sorte de palavrão cabeludo. Era pródiga na arte de pespegar palavrões nos insultantes.

            Um dia, ao ouvir o apelido odiento, sem atinar de onde partira, como bode expiatório experimentado, elegeu um para depositar sua ira e sua indignação. Saíram-lhe espontaneamente da gorja, esses versos abaixo transcritos acompanhados de uma música que ela improvisara: 

                                   O negro João Barroso

                                   É um negro sem-vergonha

                                    Eu ainda pego os ovos dele

                                   E faço assim, assim ,assim...

            Ao proferir o último verso, fechava a mão, apertando o polegar à parte lateral do indicador, baixava-se com a mão em direção ao chão e fazia movimentos circulares, como se sustivesse os” pissuídos” do homem entre os dedos... Gritos, apupos e gargalhadas politonavam como coro naquela tristonha tragicomédia.

            Vai longe o tempo em que os conheci. Mesmo na minha ingenuidade de menino interiorano, não lembro haver me alegrado com a pantomima que tinha como personagens aqueles dois malucos e a súcia coadjuvante. Na verdade, sentia por eles uma espécie de ternura por vê-los tão desarmados e desamados. E, se me fosse dado protegê-los, não hesitaria em pôr em fuga todos aqueles que se regozijavam com a desgraça que sobre aqueles se abateu...

            Os malucos formam o mesmo time, o de artistas o de criança e de filósofos. Todos os três são uns insatisfeitos com o mundo enxergado por nossas lentes. Daí o descompasso entre o seu comportamento insólito e o comportamento certinho dos demais membros da sociedade. Criam mundo imaginários, fictícios e aparentemente irreais para suprir uma espécie insatisfações que só eles mesmos saberiam explicar.

            Ai do mundo não existissem esses sublimes loucos... Aliás, a História dos homens é construída pelos loucos...

           



           

sábado, 18 de fevereiro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? Em Seu João Faz Tudo, um tipo popular da cidade de Itapipoca, que sofria de mitomania, mas não admitia que ninguém risse das histórias que costumava contar... Ai daquele que desconfiasse da veracidade de seus “causos”. Costumava pontificar nos mercados, feiras e praças à moda rapsodo grego.

As pessoas o espicaçavam a contar histórias, mas ele sempre se fazia de rogado. Depois de muita insistência, ajeitava o chapéu na cabeça, preparava um cigarro pé-duro, dava algumas longas tragadas e soltava o verbo. Alguém pediu que ele contasse o caso da chuva. Deu mais uma tragada no cigarro de palha e soltou a língua.

Ora, se deu, certa feita, vir eu montado no meu cavalo, trazendo na garupa meu filho Esaú. Vinha despreocupado, pensando na vida... Estava a seis quilômetros de minha casa, na altura da entrada que dá para o açude Poço Verde. De repente, sinto uma cutucada e uma advertência de meu filho: Olha, pai, vem vindo chuva grossa lá das bandas de São Bento da Conceição da Amontada. Não contei pipoca, esporeei o alazão e meti-lhe o relho. O bicho murchou as orelhas e saiu em desembalada carreira. Eu disse de mim para mim: essa chuva não vai me pegar, não senhor! Quando olho para trás, a bicha estava nos cascos do cavalinho corredor. Esporeei mais o bichinho, caprichei no açoite, e o cavalo chispou feito um corisco. E a chuva ali, no meu pé, querendo emparelhar comigo. Nesse pega-não-pega, entrei no alpendre de minha casa e a danada passou... Alguém indagou: e o senhor não se molhou, Seu João? O velho respondeu: eu mesmo não, só fiquei com pena de meu pobre filho, ficou todo encharcado. Alguns dos circunstantes quiseram rir, mas se contiveram, colocando a palma da mão sobre os lábios.

Depois veio a história da caçada. O velho sentou num dos degraus do coreto da praça, cruzou as pernas, preparou outro cigarrinho de palha... Pois bem. Doutra feita fui caçar pombas-de-bando com meu filho Esaú. Para não estragar chumbo nem perder o tiro, pus carga mais pesada na espingardinha. No lugar de atirar diretamente nas bichinhas, atirava por sobre a cabeça delas de modo a não matá-las, mas deixá-las  desmaiadas de modo que meu filho as  apanhasse ainda vivas. Esaú não se detinha. Corria, apanhava uma a uma e pendurava-as numa embira que trazia em torno da cintura. Dado o tiro, lá ia meu filho. Houve um momento em que dei o último tiro e exortei meu filho a que recolhesse as últimas avoantes. Súbito, ouço um grito distante: paaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!  Era o menino, as aves tinham acordado, alçado vôo e levado meu filho, que gritava em desespero... Então, pus as duas mãos abertas em forma de cone sobre a boca e gritei: meu filho, vá quebrando o pescoço de cada uma que você aterrissa. Corri rumo á minha casa. Quando cheguei ao quintal, meu filho ia segura e lentamente baixando ao solo.  Ninguém riu... Seu João deu boa noite e se retirou no momento em que a bandinha começou a tocar os dobrados em homenagem a Nossa Senhora das Mercês.

Conta-se que, certo dia, Seu João esbravejava, furioso, soltando farpas contra os políticos locais, pespegando-lhes toda sorte de injúrias. O menor insulto era “cambada de ladrões”. Um dos caciques locais ordenou que metessem o velho no xadrez. Nesse momento, um de seus filhos foi ao gramofone e soltou essa pérola de raciocínio: “Só mesmo na Itapipoca. A primeira vez que o papai fala a verdade vai preso...”



Depois eu conto mais.

       

           



LÁ FORA

                                                       Hugo Martins



               Silêncio cavo na sala em que leio. À medida que vou virando as páginas do romance, chove lá fora e coloco no aparelho de som A Serenata de Schubert... O apartamento se envolve numa atmosfera de puro romantismo: de um lado, a música do compositor alemão; do outro, a historieta de Machado, ainda atrelada à estética dos amores bem-comportados. Súbito, olho para as paredes e vejo o rosto tranqüilo de Maria Clara numa fotografia. Olha-me ela com gravidade. Seus olhos estão serenos. A boca, fechada em lábios voluntariosos. Sobre a cabeça, uma espécie de tiara, adornando os cabelos lisos e castanhos, que lhe descem pelos ombros. Traja uma blusa branca em que se vê, na frente, um X cortado ao meio por um grande P. Em grego, tais letras fazem alusão ao Cristo. Minha filha estava paramentada para receber a primeira comunhão.

            Na parede oposta, pende outra fotografia. É minha filha Maria Cecília. Os longos cabelos negros partem-se ao meio e se esparramam nos ombros estreitos. Os olhos de um negrume profundo também me espreitam. Apoia ela o rosto redondo nos quatro dedos da mão esquerda, em forma de concha. O sorriso de dentes perfeitos se abre como a exprimir a satisfação de fruir seus então dezesseis anos...

            A chuva cessa, mas alguns pingos ficam a tamborilar aguda e ritmadamente na varanda em que se encontra permanentemente armada uma rede de corda, meu recreio para leitura de revistas e jornais. Um ou outro carro desliza na grande avenida. Ouvem-se ecos de vozes. Novamente o silêncio se instala.

            Olho para o lado e vejo meu avô materno num velho quadro carcomido pelos anos. Lembrou-me Carlos Drummond de Andrade, no poema Os Mortos de Sobrecasaca, em que o poeta de Itabira folheia um velho álbum de fotografia, já tingidas pela marca do tempo, este operário das ruínas.  O velho de cabelos ralos olha-me com gravidade, e me vem à lembrança o tempo em que passávamos férias em sua casa na cidade de Paracuru.

            Figura ímpar o pai de minha mãe. Estatura mediana, carantonha fechada, com ar de quem não gasta conversa gratuita com ninguém, vovô não era autoritário, tinha autoridade. Provindo de uma família de velhos coronéis da Guarda Nacional, cedo se acostumou ao mando. Foi, por muito tempo, chefe político da região de Paracuru, Paraipaba, Trairi e Mundaú. Não era difícil perceber a popularidade de que gozava o Coronel Antônio Barroso de Souza. Era querido em toda a região.

            Por trás daquela aparência carrancuda, acentuada por uma voz extremamente grave, escondia-se um homem terno e bondoso, cuja humanidade se revelava em atos os mais comezinhos. Era honesto de doer e religiosamente fervoroso.

            Nas férias escolares, quem lá estivesse havia de observar as regras da casa. À hora de qualquer refeição feita em torno à mesa, quem primeiro sentava era o velho. Depois de uma pequena oração de agradecimento, era também o primeiro a se servir. Educação da época.

            A casa de meu avô ainda existe. Não aquela de atmosfera respeitável. De largo e comprido alpendre, em que se estendiam algumas redes de corda, a casa de meu avô é semelhante àquela do avô de Manuel Bandeira, descrita no poema Evocação do Recife: “tudo lá parecia impregnado de eternidade.”            A que hoje lá se encontra em nada lembra a casa de meu avô porque, parafraseando Fernando Pessoa, a casa de meu avô era a casa de meu avô...

            Saio dos devaneios da infância. Olho a manhã chuvosa. A música de Schubert finda. A um canto, vejo meu violão e junto a ele um caderno de pautas musicais... Pego do violão, abro o caderno, faço um acorde de mi maior, tanjo o bordão e dedilho no pinho as duas primeiras lições práticas recebidas no Conservatório Alberto Nepomuceno. Depois ensaio, a custo, alguns acordes, a fim de tornar os dedos mais lestos na troca de uma posição para outra, bem como para manter a sincronia dos movimentos da mão esquerda com a mão direita. Repito o exercício várias vezes até alcançar a melhor forma de executá-lo...

            Novamente rendo-me às lembranças. Por que, a esta altura, estudar música? Primeiro por amar perdidamente essa arte. Segundo, porque todas as tentativas que fiz em apreender restauram baldadas, pois os “professores” que contratava não passavam de mandriões de marca maior, sem nenhuma cultura musical. Aventureiros de três meses. Cedo sua incompetência ficava patenteada. Terceiro, no Conservatório, além de aprender música tecnicamente, preencho uma parte do meu tempo ocioso com uma arte que tem tudo a ver com a literatura. Além da prática musical com o violão, temos aulas de teoria musical e canto coral. Num tempo em que se fala tanto de qualidade de vida, vou gastar quatro anos alimentando o espírito com esta arte sublime, aliando-a à literatura, coisa que preenche de todo os espíritos inquietos.

            Lá fora o movimento de veículos se acentua. Soergo-me da cadeira e dirijo-me à minha velha “fianga”, abro o volume de Iaiá Garcia e dou continuidade à viagem nas asas da arte literária.

            Antes me pergunto: por que escrever texto numa manhã de sábado carnavalesco quando momo e seus sequazes fazem apelo a que eu caia na folia? Talvez porque o Carnaval tenha perdido, para mim, seu encanto. Quem sabe por temer a violência que acompanha todos os passos dos festejos... Ou, coisa mais provável, por desejar manter-me preso ao sábio preceito de Cícero: “nenhum dia sem nenhuma linha.”            Escrever por escrever...

           

CARTAS À MINHA FILHA


Maria Helena,

em tua última carta, pediste-me ler um trabalho acadêmico de tua lavra, em cujo bojo fazes considerações sobre crítica literária. Ressaltaste a desonestidade de alguns críticos, que se banqueteiam em, dos seus altiplanos, no regozijo de manchar reputações de escritores de escol. Lembraste até mesmo a crítica iracunda e invejosa de Sílvio Romero, que não se continha, montado num intolerável despeito, em assacar catilinárias contra o “bruxo do Cosme Velho.” Vale lembrar que, quando Machado lançou As Memórias Póstumas de Brás Cubas, o crítico sergipano não regateou elogios rasgados ao criador de Quincas Borba. Machado, impassível, manteve-se silente... e mais e mais criativo. Não perdeu tempo em agradecer o discurso laudatório daquele que, desprovido de qualquer sentimento de justiça, dizia ser Tobias Barreto literariamente melhor que o baiano Castro Alves. Esquecia ele que este era poeta; enquanto Tobias, se bem escrevia, não fazia literatura, mas produzia trabalhos de cunho literário. Neste havia o conhecimento conceptual da filosofia alemã e das reflexões jurídicas da época; em Antônio de Castro Alves, a inventividade, o uso estético da linguagem, profusa, tiradas encantadoras que ainda hoje, e sempre, embevecem e embevecerão as gerações.

Em teu belo texto, bem costurado e prenhe de ajustados conceitos, deixas revelar certo receio do que pensa a crítica literária e que influência tem ela no espírito do leitor.

Eu te aconselho: manda a crítica às favas e colhe, aqui e ali, posições que te possam ajudar sem te preocupares se se trata do crítico da moda. Lembra-te de que a teoria literária que melhor se ajusta ao espírito do leitor é, sem dúvida, a do poeta romano Horácio. Este diz que a literatura enfeixa em si mesma duas coisas indispensáveis: o prazer e o aprender. O mais não passa de elucubrações que, pelo menos para mim, não me batem a passarinha. Devemos ler o que nos apetece. Com o hábito, a mania por livros se instala, e nosso senso crítico, paulatinamente, vai se afiando e se refinando. Foge, pois, aos modismos e lê gratuita e prazerosamente. É o que basta. É o que é suficiente para te tornares uma apreciadora madura do fazer literário.

Lembro-te, ainda, que, na acepção mais profunda do termo, crítico é o juiz, aquele que avalia, tira conclusões e profere sentenças, montado num juízo estético. Não é crítico o que perversamente se diverte em lançar verrinas à criação de fulanos e beltranos. Não há por que, pois, filiar-se a essa ou àquela linha crítica para fazer bom número.

Nada mais agradável que a leitura divorciada da opinião de quem quer que seja. Ler é ato gratuito porque enriquece a existência e a ela dá sentido, com ou apesar do crítico.

Teu pai Hugo


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? Num poema de Machado de Assis, o que abre o volume Ocidentais. Trata-se de um soneto intitulado O Desfecho, em que o escritor fluminense, inspirando-se no mito de Prometeu, escreve apertados quatorze versos, que constituem um verdadeiro tratado de filosofia, tal a força e a exuberância com que Machado enxerga e interpreta a condição humana.

Não seria ocioso dizer que Prometeu, misto de Herói e Divindade, passava por ser ente dotado de extrema inteligência, rivalizando com seu primo Júpiter. Pois bem, para o que aqui interessa, Prometeu corresponde na mitologia hebraica ao mito de Adão. Ambos cometeram o erro (não direi pecado, conceito judaico-cristão desconhecido dos povos antigos) da desobediência. Adão foi expulso do Éden, e Prometeu foi acorrentado num monte, onde diariamente tinha o fígado devorado por uma grande águia. Seu suplício era eterno, pois, devorado, o fígado renascia no dia seguinte. Hércules o liberta, o que metaforicamente significa que a morte o tragou. 

A leitura não só do mito quanto do poema de Machado permite que vejamos, pelas lentes da metáfora, o fígado devorado e renascido como a sucessão dos dias e das noites. Quando o homem dorme, é devorado pelo sono, primo da morte; quando acorda, renasce para a vida. Só que, um dia, ele dormirá e não mais acordará. Para Machado, nesse poema, vida é sinônimo de dor, coisa entranhada no homem logo que ele nasce. Morrendo, liberta-se do suplício, que é a vida.

A categoria tempo também se entremostra como algo colado à condição existencial do homem. Machado, tal como no capítulo O Delírio, no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, trata o tema com a mesma  ironia. Se n´O Delírio traz à baila o elemento identificador do homem – ânsia irrefreável pela glória, busca incessante poder e cupidez incontrolável pela riqueza – no soneto,  mesmo que a História flua permeada por apequenamentos e grandezas do homem, este será o mesmo, sua dor será a mesma, seu destino também . Só se libertará do suplício quando “a indesejada das gentes” o surpreender e exilá-lo para o esquecimento ou para outras instâncias criadas pelas religiões.

Transcrevamos o soneto:

O DESFECHO

            Prometeu sacudiu os braços manietados

E súplice pediu a eterna compaixão,

Ao ver o desfilar dos séculos que vão

Pausadamente como um dobre de finados.



Mais dez, mas cem, mais mil e mais um bilião,

Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...

Súbito, sacudindo as asas de tufão,

Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.



Pela primeira vez a víscera do herói

Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,

Deixou de renascer às raivas que a consomem.



Uma invisível mão as cadeias dilui;

Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;

Acabara o suplício e acabara o homem.





Voilà.