CARTAS
À MINHA FILHA
14ª
Maria
Helena,
a
filosofia de mesa de bar quando não envereda pelas sendas do lugar comum da
crueza do cotidiano ou da sempiterna patifaria de políticos e outros bichos da
mesma fauna, indaga-se sobre temas eternos, os quais serão sempre apanágio da
vulnerabilidade humana. Cientes de sua finitude e pacientes também, como todo
bom mortal, da inexorabilidade do eterno devir, os filósofos de mesa de bar,
inebriados pela plangência de violões, apoiados no cajado de aguardentes e
tira-gostos, vez e outra, tangenciam a metafísica e, tocados pelos eflúvios
etílicos deixam escapar suas perplexidades acerca do tempo, da morte e da
felicidade... De regra, não conhecem os meandros da filosofia, mas exercem o
sagrado direito de filosofar. Quem os observa testemunha surdir, de alvoroçados
colóquios, verdadeiras pérolas, que evocam os pensadores de escol. Nada de
cômico em tudo isso, apenas espanto metafísico, sintonizado pelo inconsciente
coletivo e pelas dores do mundo...
Certo
dia, num canto de bar, bebericando umas e outras cervejas geladas, vi que duas
e três pessoas, sentadas a uma mesa próxima, sustentavam uma comprida arenga
acerca da felicidade. Falavam alto, gesticulavam embebiam sucessivos copos de
uísque ou cerveja e, de soslaio, passeavam o olhar pelos circundantes a ver se
pescavam alguma avaliação, traduzida por algum olhar cúmplice ou pelo rítmico
balançar anuente de algumas cabeças...
As
teses sustentavam-se em argumentos de todo jaez. Um sujeito barbudo, de boina
que lembrava a figura austera de Che, dizia que a felicidade era algo movediço,
que nos iludia com refulgentes nuanças, mas logo se evanescia, tal qual bolha
de sabão. Lembrei-me dos versos de Vinícius “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor: brilha
tranqüila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor.”
Aprovava-se o argumento. Porém, logo se aduzia outra tese. Um magricela
esgrouvinhado coçou o queixo e comparou a felicidade ao episódio envolvendo
Tântalo, que experimentou o tormentoso suplício a ele imposto pelos deuses do
Olimpo, de, premido pela fome e pela sede, esticar a mão para alcançar alimento
e bebida a ele próximo, mas aqueles dele se afastavam. Dizia o magrelo que a
felicidade nos está sempre próxima, porém nossas tentativas são sempre baldadas
e temos de amargar, por todo o tempo, o dissabor de persegui-la sem nunca
alcançá-la. Veio-me à mente um soneto de Vicente de Carvalho, declamado pela
poetisa Cora Coralina, já na mais extrema velhice, quando lhe perguntaram qual
era mesmo o sentido da existência para quem experimentara tão larga longevidade:
Assim diz o vate santista.
Velho Tema
Só a leve
esperança em toda a vida
Disfarça a
pena de viver, mais nada;
Nem é mais a
existência, resumida,
Que uma
grande esperança malograda
O eterno
sonho da alma desterrada,
Sonho que a
traz ansiosa e embevecida
É uma hora
feliz, sempre adiada
E que não
chega nunca em toda a vida.
Essa
felicidade que supomos,
Árvore
milagrosa que sonhamos
Toda arreada
de dourados pomos,
Existe, sim:
mas nós não alcançamos
Porque
está sempre apenas onde a pomos
E nunca a
pomos onde nós estamos.
O
soneto corroborava o argumento do “magão”.
Enquanto
outras teses se aduziam, paguei a despesa, fui me esgueirando e saí caminhando
no rumo de casa. Na cabeça martelava uma idéia interessante sobre o tema,
pescado da poesia do poeta latino Virgílio. Este dizia que o homem pode
experimentar a tal felicidade. Basta-lhe dar-se ao luxo de mergulhar no otium (ócio). Para o autor das
Bucólicas, otium é dedicar-se o homem
ao cultivo das Belas Letras. É pensar como Flaubert, que escrevendo a uma tal
Mademoiselle Leroyer de Chantepie, dizia que “O único
meio de suportar a existência é afogar-se na literatura como numa orgia
perpétua. O vinho da Arte causa uma profunda embriaguez e é inesgotável...”
Ou dizer, com Machado de Assis, “Esta é
a alegria que fica, eleva, honra e consola.”
Com
efeito, nas horas de folga, existe maior carga de prazer em deliciar-se com a
leitura que, esparramado num sofá, deixar-se levar pela programação
imbecilizante provinda da “máquina de fazer doido”, que mantém o “televidiota”
fisgado e narcotizando-se com os apelos consumistas e reificantes?
Não
há uma fórmula para experimentar a felicidade. Há um sentir e um intuir. Faz
ela parte de nossa vida. Como se transfigura, isso depende de cada um. A
inteligência, a sensibilidade e a disposição para captar essências muito
contribui para as multímodas cosmovisões e vivências.
E
viva o filosofar nos bares e onde quer que nos encontremos...
Teu pai.