SAUDADE III
Hugo Martins
Grande saudade de Dona
Ângela, que abriu para mim as portas do conhecimento formal. Sua casa ficava
numa esquina, por trás da igreja matriz. Não era uma catedral em que se
comercializava educação. Simplesmente uma escola. Era uma casa simples para onde acorriam levas
de meninos que se iniciavam nas primeiras letras, antes do exame de admissão ao
Ginásio. Entrávamos por uma espécie de jardim, juncado de plantas. Nunca me
saiu da lembrança olfativa o cheiro doce de uma planta a que davam o nome de
Riso do Prado. Pensava eu tratar-se de um pé de bogari. Entrávamos em silêncio
e nos acomodávamos.
Sentados,
dois a dois, em velhas carteiras já desgastadas pelo uso e pela ação do tempo,
ficávamos em silêncio à espera de que a velha mestra entrasse. Quando avultava
à porta, todos se levantavam. A velha professora, depois de nos olhar pelas
lentes grossas dos óculos a cavaleiro no nariz, erguia o braço, balançava, como
abanando, a mão para cima e para baixo numa espécie de comando a que todos se
sentassem. Em seguida, ordenava que todos se erguessem. Era o momento de cantar
o Hino Nacional. Só depois começavam as atividades de ler, escrever e contar.
A leitura era feita de forma silenciosa e,
depois, expressivamente. Quando alguém errava, por exemplo, na pronúncia, a
veneranda mestra corrigia e mandava que o aluno repetisse. Certa ocasião, um
colega leu a palavra “ouricuri”, colocando o acento de intensidade na penúltima
sílaba. A professora corrigiu, aduzindo que a palavra era oxítona. Por causa
disso, o colega recebeu o apelido de “ouricúri”. Esta palavra é de origem tupi,
e Alencar, descrevendo o cair da tarde, utilizou-a no capítulo A Prece, do
livro O Guarani. Era esse o texto que o colega lia.
A escritura resumia-se aos
ditados e cópias, prática pedagógica considerada obsoleta pelos educadores
modernos. Sempre fui de opinião que o ditado e a cópia são formas divertidas de
o aluno ler. Com isso, sem dúvida, a familiaridade com a ortografia oficial se
dará com maior eficácia. Hoje, com os modernismos, com a valorização da imagem
em detrimento do texto, a preguiça mental parece tomar conta da moçada. Os
deslizes são tantos e tão comuns, que servem de piada e pasto para mangoça na
internet e nos meios de comunicação de massa... Se se aplicasse o “chá de
copilina”, nos moldes dos tempos de outrora, as coisas seriam diferentes e os
moços se afeiçoariam mais à leitura, forma mais eficiente de se aprender o modo
de ser da língua.
O contar nada mais era que
as aulas de aritmética, que se aprendia, de cor e salteado, na velha tabuada.
Àquela época, o uso da palmatória era de largo uso nas escolas. Dona Ângela
dela fazia uso de modo indireto. Chamava dois dos alunos e a um deles fazia uma
pergunta. Aquele que errasse e tivesse o erro corrigido pelo colega levava
deste uma palmatoada na palma da mão. A pancada era desferida dependendo do
grau de amizade existente entre os dois. Havia ocasiões, em que alguns se
excediam e, por isso, ouvia-se muito o “lá fora eu te pego...”
Finda a aula, todos se
retiravam ordeiramente da sala. Não havia rebuliços, nem a professora era tia
de ninguém, a não ser dos filhos de seus irmãos. O ocaso se anunciava no surdo
silêncio da tarde, quebrado apenas por longínquos mugidos de bois.
Dona Ângela nunca me saiu da
cabeça. Aquela senhora de cabelos esbranquiçados pelo giz do tempo, de olhar
bondoso e rosto grave por quem nunca nutri senão máxima reverência e profundo
respeito, é uma das habitantes de minhas eternas saudades.
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