domingo, 26 de fevereiro de 2012


10ª

Maria Helena,

hoje estou triste. Bateu-me uma saudade gritante de minha mãe. Foi-se desse mundo há vinte e dois anos. Não me sai da lembrança. Não há um só dia que sua imagem não me venha à mente. Aliás, quando se fala de amor verdadeiro, vem-me à cachola uma frase de para-choque de caminhão que diz: AMOR? SÓ DE MÃE. A frasezinha é singela, mas irretorquível.

Quando meu pai morreu, perguntei-lhe o que nos deixara ele de herança. De modo irônico dizia: deixou uma casa, doze filhos e um pote cheio d´água... Era mulher de fibra, que nunca regateou esforços para que os filhos estudassem. Foi com ela que aprendi a amar os livros. Sendo professora, lia intensamente. Quando a ela perguntávamos o significado de uma palavra, ela dizia; diga a frase! Eu achava aquilo maravilhoso porque, inconscientemente, comecei a perceber a relação umbilical existente entre as palavras e as coisas; a “palavramundo” a que se refere Drummond, a palavra grávida de mundo...

Quando resolvi cursar letras, de nossa família foi a única que aplaudiu a idéia. Perguntou-me o porquê da escolha. Disse-lhe que sentia natural inclinação para isso, pois as Belas Letras sempre me encantaram. Ela aduziu que atender aos chamamentos das vocações era uma dádiva.
Que seguisse meu caminho. Não me arrependi...

Lembro, certa feita, que ela não dispunha do dinheiro suficiente para pagar o curso pré-vestibular do filho... Não titubeou, vendeu um botijão de gás para completar o valor da prestação. Aquilo era amor demais. Para mim, pelo menos, aquele era uma espécie de ato heróico, não encontradiço nas narrativas épicas. Só no coração do filho agradecido ecoou e calou fundo...

Sempre a vejo, deitada numa rede, os óculos na ponta do nariz, balançando-se e lendo sofregamente. Eu não entendia, mas intuía que ler deveria ser algo muito cativante. Com o tempo fui descobrindo que meu amor pelos livros vem dela, daquela senhora que, hoje habitante do sobrenatural, ainda se mantém viva nas minhas vivas lembranças. O amor que sentia por ela e curtia em silêncio, sem arroubos ou declarações formais, ainda permanece indelével na minha alma.

Toda vez que alguém se refere a heróis ou quejandos, comparo-os à minha mãe e vejo que ela ganha de longe daqueles. Era lutadora, justa, bondosa e compreensiva, apesar dos sofrimentos que a vida lhe impôs.

Na velhice, vivia cercada dos filhos e, vez por outra, reclamava a ausência deles. Dias havia que cinco ou seis filhos a visitavam e ela, ainda assim, reclamava. Penso que desejava ver todos juntos para compartilhar o grande amor que por eles sentia...

Nunca deixei de encher os olhos d´água quando falo dela. É a saudade grande que me enche o coração de lembranças caras ao homem, menino de calças curtas, que, nas noites de medo de almas do outro mundo, corria para a rede da mãe e ali se aninhava seguro. Ela sempre me mandava, nessas horas, rezar para Nossa Senhora do Carmo. Dava certo. Só sei que eu dormia. Não sei se pelo calor que vinha da mãe ou se pelo rezar para Nossa Senhora do Carmo.

Perto de morrer, chamou os filhos e lhes disse que tinha uma poupança na Caixa Econômica. Ninguém precisava se preocupar com as despesas do funeral. A quantia ali depositada era suficiente... A velha era única...

Teu pai.




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