EM QUE ESTOU PENSANDO? Num poema
de Machado de Assis, o que abre o volume Ocidentais. Trata-se de um soneto
intitulado O Desfecho, em que o escritor fluminense, inspirando-se no mito de
Prometeu, escreve apertados quatorze versos, que constituem um verdadeiro
tratado de filosofia, tal a força e a exuberância com que Machado enxerga e
interpreta a condição humana.
Não seria ocioso dizer que
Prometeu, misto de Herói e Divindade, passava por ser ente dotado de extrema
inteligência, rivalizando com seu primo Júpiter. Pois bem, para o que aqui
interessa, Prometeu corresponde na mitologia hebraica ao mito de Adão. Ambos
cometeram o erro (não direi pecado, conceito judaico-cristão desconhecido dos
povos antigos) da desobediência. Adão foi expulso do Éden, e Prometeu foi
acorrentado num monte, onde diariamente tinha o fígado devorado por uma grande
águia. Seu suplício era eterno, pois, devorado, o fígado renascia no dia
seguinte. Hércules o liberta, o que metaforicamente significa que a morte o
tragou.
A leitura não só do mito quanto
do poema de Machado permite que vejamos, pelas lentes da metáfora, o fígado
devorado e renascido como a sucessão dos dias e das noites. Quando o homem
dorme, é devorado pelo sono, primo da morte; quando acorda, renasce para a vida.
Só que, um dia, ele dormirá e não mais acordará. Para Machado, nesse poema,
vida é sinônimo de dor, coisa entranhada no homem logo que ele nasce. Morrendo,
liberta-se do suplício, que é a vida.
A categoria tempo também se
entremostra como algo colado à condição existencial do homem. Machado, tal como
no capítulo O Delírio, no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, trata o tema
com a mesma ironia. Se n´O Delírio traz
à baila o elemento identificador do homem – ânsia irrefreável pela glória,
busca incessante poder e cupidez incontrolável pela riqueza – no soneto, mesmo que a História flua permeada por
apequenamentos e grandezas do homem, este será o mesmo, sua dor será a mesma,
seu destino também . Só se libertará do suplício quando “a indesejada das gentes”
o surpreender e exilá-lo para o esquecimento ou para outras instâncias criadas
pelas religiões.
Transcrevamos o soneto:
O DESFECHO
Prometeu sacudiu os
braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente como um dobre de finados.
Mais dez, mas cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a víscera do herói
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.
Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.
Voilà.
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