sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


EM QUE ESTOU PENSANDO? Num poema de Machado de Assis, o que abre o volume Ocidentais. Trata-se de um soneto intitulado O Desfecho, em que o escritor fluminense, inspirando-se no mito de Prometeu, escreve apertados quatorze versos, que constituem um verdadeiro tratado de filosofia, tal a força e a exuberância com que Machado enxerga e interpreta a condição humana.

Não seria ocioso dizer que Prometeu, misto de Herói e Divindade, passava por ser ente dotado de extrema inteligência, rivalizando com seu primo Júpiter. Pois bem, para o que aqui interessa, Prometeu corresponde na mitologia hebraica ao mito de Adão. Ambos cometeram o erro (não direi pecado, conceito judaico-cristão desconhecido dos povos antigos) da desobediência. Adão foi expulso do Éden, e Prometeu foi acorrentado num monte, onde diariamente tinha o fígado devorado por uma grande águia. Seu suplício era eterno, pois, devorado, o fígado renascia no dia seguinte. Hércules o liberta, o que metaforicamente significa que a morte o tragou. 

A leitura não só do mito quanto do poema de Machado permite que vejamos, pelas lentes da metáfora, o fígado devorado e renascido como a sucessão dos dias e das noites. Quando o homem dorme, é devorado pelo sono, primo da morte; quando acorda, renasce para a vida. Só que, um dia, ele dormirá e não mais acordará. Para Machado, nesse poema, vida é sinônimo de dor, coisa entranhada no homem logo que ele nasce. Morrendo, liberta-se do suplício, que é a vida.

A categoria tempo também se entremostra como algo colado à condição existencial do homem. Machado, tal como no capítulo O Delírio, no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, trata o tema com a mesma  ironia. Se n´O Delírio traz à baila o elemento identificador do homem – ânsia irrefreável pela glória, busca incessante poder e cupidez incontrolável pela riqueza – no soneto,  mesmo que a História flua permeada por apequenamentos e grandezas do homem, este será o mesmo, sua dor será a mesma, seu destino também . Só se libertará do suplício quando “a indesejada das gentes” o surpreender e exilá-lo para o esquecimento ou para outras instâncias criadas pelas religiões.

Transcrevamos o soneto:

O DESFECHO

            Prometeu sacudiu os braços manietados

E súplice pediu a eterna compaixão,

Ao ver o desfilar dos séculos que vão

Pausadamente como um dobre de finados.



Mais dez, mas cem, mais mil e mais um bilião,

Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...

Súbito, sacudindo as asas de tufão,

Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.



Pela primeira vez a víscera do herói

Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,

Deixou de renascer às raivas que a consomem.



Uma invisível mão as cadeias dilui;

Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;

Acabara o suplício e acabara o homem.





Voilà.


Nenhum comentário:

Postar um comentário