AH! NORMAIS.
Hugo Martins
Antigamente, em toda cidade
do interior, havia um doido oficial. Era uma espécie de repositório das
neuroses coletivas da cidade. Hoje é difícil distinguir os doidos oficiais,
existem muitos candidatos para isso. Aliás, Machado de Assis, no conto O
Alienista, bem como a Psiquiatria moderna não traçam fronteiras nítidas entre
lucidez e loucura... Todos estamos pisando essa linha imaginária, pendendo ora
para um lado, ora para o outro...
Na
minha meninice em Itapipoca, conheci dois deles: Zezim do Mocambo e Pinta Cega.
Zezim
era um negro alto, magro, cujas vestes se reduziam a um saco de estopa com dois
buracos por onde ele introduzia suas pernas finas e longas. A boca do saco
fazia as vezes de cós, a que ele amarrava uma embira à moda cinto. Era visível
o contraste entre aquela figura e a voz, cujo timbre era acutíssimo.
Zezim
era um louco manso. Andava pela feira a catar restos de comida para se
alimentar. Não mexia com ninguém. Só uma coisa o irritava, e a população sádica
e os moleques de rua disso sabiam. Quando ele passava, em seu andar
desengonçado, as pessoas se escondiam e gritavam a todo pulmão: TRÁ LÁ LÁ, TRÁ
LÁ LÁ... Palavrões de todas as cores saltavam aos borbotões nos gritos
“assopranados” de Zezim. Nessas ocasiões, o alienado lançava mão de pedras e
cacos de telhas e os arremessava para onde partia a ofensa. Em seguida, punha
as mãos abertas como a tapar as orelhas e saía em desembalada carreira rumo ao
açude, lugar onde provavelmente encontrava segurança.
Pinta
Cega costuma ficar na pracinha em frente à igreja matriz. Passeava de um lado
para o outro, parava, sentava-se, levantava-se, sentava-se... Trazia um pano
sujo sobre os cabelos revoltos e vestia saia estampada. A psicologia malsã da
molecada já conhecia o espírito iracundo de Pinta Cega. Um grito espichado
ecoava de um dos cantos da praça: Piiiiiinta Ceeeega. Possessa, a louca bradava
toda sorte de palavrão cabeludo. Era pródiga na arte de pespegar palavrões nos
insultantes.
Um
dia, ao ouvir o apelido odiento, sem atinar de onde partira, como bode
expiatório experimentado, elegeu um para depositar sua ira e sua indignação. Saíram-lhe
espontaneamente da gorja, esses versos abaixo transcritos acompanhados de uma
música que ela improvisara:
O
negro João Barroso
É
um negro sem-vergonha
Eu
ainda pego os ovos dele
E
faço assim, assim ,assim...
Ao
proferir o último verso, fechava a mão, apertando o polegar à parte lateral do
indicador, baixava-se com a mão em direção ao chão e fazia movimentos
circulares, como se sustivesse os” pissuídos” do homem entre os dedos...
Gritos, apupos e gargalhadas politonavam como coro naquela tristonha
tragicomédia.
Vai
longe o tempo em que os conheci. Mesmo na minha ingenuidade de menino
interiorano, não lembro haver me alegrado com a pantomima que tinha como
personagens aqueles dois malucos e a súcia coadjuvante. Na verdade, sentia por
eles uma espécie de ternura por vê-los tão desarmados e desamados. E, se me
fosse dado protegê-los, não hesitaria em pôr em fuga todos aqueles que se regozijavam
com a desgraça que sobre aqueles se abateu...
Os
malucos formam o mesmo time, o de artistas o de criança e de filósofos. Todos
os três são uns insatisfeitos com o mundo enxergado por nossas lentes. Daí o
descompasso entre o seu comportamento insólito e o comportamento certinho dos
demais membros da sociedade. Criam mundo imaginários, fictícios e aparentemente
irreais para suprir uma espécie insatisfações que só eles mesmos saberiam
explicar.
Ai
do mundo não existissem esses sublimes loucos... Aliás, a História dos homens é
construída pelos loucos...
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