terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA


         Maria Helena,



embora tardiamente, pois já te encontras cursando o terceiro semestre do Curso de Letras, quero levar-te meus efusivos parabéns pela escolha. Esta me parece acertada, afinal sempre demonstraste gosto pela leitura. Por evidente, passaste por um natural período de aprendizagem: lias tudo sem atentar para um critério. Depois, com o gradativo amadurecimento, aflorou o rigor das escolhas: ias deixando de lado a leitura de entretenimento, trocando-a por outras mais consentâneas com a reflexão e ensaiaste o encanto por aquelas em que a vida, o homem, suas perplexidades, dores, dissabores, alegrias e tristezas se revelam mais intensamente à superfície de teu olhar e calam mais fundo nas tuas mundividências. Isso é o bastante para quem se aventura no mundo das Belas-Letras.

Na tua caminhada acadêmica, encontrarás alguns óbices: gente incompetente, tartufos, enganadores da boa-fé dos outros e histriões metidos a bestas. Essa gente pode te servir de desestímulo... Graças aos céus, encontrarás também muita gente boa, pessoas abnegadas, responsáveis, bondosas e estudiosas, cujo entusiasmo pelo ensino sempre manterão tua alma intelectualmente alegre e disposta a aprender e aprender mais e mais, sobretudo a sabedoria de que, quanto mais pensamos que estamos aprendendo, mais disso necessitamos. Se as primeiras são por si mesmas estéreis, as últimas são o sal da terra a que se refere Cristo no Sermão das bem-aventuranças no Evangelho de Mateus.

Também encontrarás, em tua caminhada, febres terminológicas, fruto da vaidade intelectual e da leitura mal digerida. À primeira vista, impressionam, depois caem no mesmismo e, por fim, esbarram na certeza de que nada dizem de novo. Apenas confirmam o dito e redito pelos gregos. Aliás, um amigo meu, deliciosamente sarcástico, diz que tudo que se diz, sobretudo acerca da literatura, não passa de pé de página do pensamento grego. Claro que vai aí uma ironia cortante, que não deixa de ser verdade, malgrado a evolução da teoria literária. É o velho nihil novi sub sole (nada de novo sob o sol), referido no Eclesiastes, livro sapiencial bíblico atribuído a Salomão. Só com o tempo te apartarás da subserviência intelectual, que as universidades nos impõem a muque. Alcançada a liberdade, a leitura se torna atividade realmente necessária à compreensão das complexidades da existência. No mais, é ler, é ler e ler para que tuas aulas sejam mais proveitosas no sentido de despertar no aluno o amor pela leitura. Essa tarefa é o bastante, o resto é subsídio. O aluno que lê mais por influência de seu professor tem ciência de que a tarefa do mestre não é, senão, despertar no educando o gosto pela leitura. O resto vem por acréscimo, e todos lucram: o cidadão, a escola e a sociedade. Porque a leitura, entre outros predicados, nada mais é que uma maneira de formar homens bons.

Teu pai, Hugo




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