CARTAS À MINHA FILHA
1ª
Maria Helena,
embora tardiamente, pois já te
encontras cursando o terceiro semestre do Curso de Letras, quero levar-te meus
efusivos parabéns pela escolha. Esta me parece acertada, afinal sempre
demonstraste gosto pela leitura. Por evidente, passaste por um natural período
de aprendizagem: lias tudo sem atentar para um critério. Depois, com o gradativo
amadurecimento, aflorou o rigor das escolhas: ias deixando de lado a leitura de
entretenimento, trocando-a por outras mais consentâneas com a reflexão e
ensaiaste o encanto por aquelas em que a vida, o homem, suas perplexidades,
dores, dissabores, alegrias e tristezas se revelam mais intensamente à
superfície de teu olhar e calam mais fundo nas tuas mundividências. Isso é o
bastante para quem se aventura no mundo das Belas-Letras.
Na tua caminhada acadêmica,
encontrarás alguns óbices: gente incompetente, tartufos, enganadores da boa-fé
dos outros e histriões metidos a bestas. Essa gente pode te servir de
desestímulo... Graças aos céus, encontrarás também muita gente boa, pessoas
abnegadas, responsáveis, bondosas e estudiosas, cujo entusiasmo pelo ensino
sempre manterão tua alma intelectualmente alegre e disposta a aprender e
aprender mais e mais, sobretudo a sabedoria de que, quanto mais pensamos que
estamos aprendendo, mais disso necessitamos. Se as primeiras são por si mesmas
estéreis, as últimas são o sal da terra a que se refere Cristo no Sermão das
bem-aventuranças no Evangelho de Mateus.
Também encontrarás, em tua caminhada,
febres terminológicas, fruto da vaidade intelectual e da leitura mal digerida.
À primeira vista, impressionam, depois caem no mesmismo e, por fim, esbarram na
certeza de que nada dizem de novo. Apenas confirmam o dito e redito pelos
gregos. Aliás, um amigo meu, deliciosamente sarcástico, diz que tudo que se
diz, sobretudo acerca da literatura, não passa de pé de página do pensamento
grego. Claro que vai aí uma ironia cortante, que não deixa de ser verdade,
malgrado a evolução da teoria literária. É o velho nihil novi sub sole (nada de novo sob o sol), referido no
Eclesiastes, livro sapiencial bíblico atribuído a Salomão. Só com o tempo te apartarás
da subserviência intelectual, que as universidades nos impõem a muque.
Alcançada a liberdade, a leitura se torna atividade realmente necessária à
compreensão das complexidades da existência. No mais, é ler, é ler e ler para
que tuas aulas sejam mais proveitosas no sentido de despertar no aluno o amor
pela leitura. Essa tarefa é o bastante, o resto é subsídio. O aluno que lê mais
por influência de seu professor tem ciência de que a tarefa do mestre não é,
senão, despertar no educando o gosto pela leitura. O resto vem por acréscimo, e
todos lucram: o cidadão, a escola e a sociedade. Porque a leitura, entre outros
predicados, nada mais é que uma maneira de formar homens bons.
Teu pai, Hugo
Nenhum comentário:
Postar um comentário