quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012


ELES ESTÃO SURDOS



                                        Hugo Martins





                    A fábula é uma narrativa ligeira, curta e vivaz, cujo fecho encerra, explícita ou implicitamente, uma lição. Possui, pois, natureza pedagógica. Aliás, Jean de la Fontaine, fabulista francês, seguidor do grego Fedro, cujas histórias nos chegavam pela pena sensível de Monteiro Lobato, dizia, ironicamente, que recorria aos animais para educar os homens, como desejando colocar em evidência as absurdidades e contradições de um ser dotado de inteligência e liberdade de agir...



                        Nunca nos fugiram da memória as saborosas historietas do francês.  Eram formigas, cigarras, asnos, leões, rãs, bois, lobos, cordeiros, personagens alegóricos que nos povoavam a imaginação sem que nos déssemos conta de que por trás daquela aparente ingenuidade se escondiam verdades imorredouras, pois muito diziam da condição humana.



                        Cada narrativa tinha um sabor. Se uma punha às claras a necessidade da existência da arte, em a Formiga e a Cigarra; outra deblaterava contra a vaidade vã de uma rã pretensiosa, tentando assumir as proporções físicas de um touro, inflando, inflando, terminando por estourar. O bom de tudo isso é a contemporaneidade de cada narrativa, pois cada uma delas eterniza em placa de bronze a secular estupidez humana, sempre lembrada pelo “bruxo do Cosme Velho”.



                        É conhecida de todos a fábula do Lobo e do Cordeiro, cujo entrecho mostra o diálogo tenso entre um lobo e um cordeiro, que matavam a sede à beira de um regato. Ora, embora o frágil cordeirinho recorresse a um caudal de argumentos irrefutáveis que convenceria, no contexto, ao mais obtuso dos lobos, este recorreu ao argumento supremo dos loucos e insensatos: a força e a destruição.



                        Ora, não nos parece muito plausível a recorrência a protestos e orações para conter a insânia de poderosos que se engalfinham em conflitos dantescos, marcados pelo supremo desrespeito ao ser humano, porque a tudo isso se sobrepõe a sede pelo poder e pela glória efêmera. Encham as ruas as passeatas, entoando grito de protestos; ensaiem-se nos meios de comunicação pantomimas, em que rostos teatralmente indignados de artistas televisivos, deblateram contra o absurdo do conflito; reze, no Vaticano, sofregamente e grávido de fé Sua Santidade, pedindo ao Criador que o conflito chegue ao fim, tudo isso é inócuo ante a verdade incontestável de que CONTRA A FORÇA NÃO HÁ ARGUMENTO.



                        Não existe na História registro algum de que esses anelos humanos tenham impedido que homens ambiciosos e sem escrúpulo algum hajam sucumbido a esses apelos. Eles sempre estão surdos. Eis por que os fabulistas Fedro e Jean de La Fontaine continuam tão atuais.



                                              

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