quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


SAUDADE

                                                                Hugo Martins



                    Hoje senti falta de alguma coisa, embora estivesse ocupado a ler Fanáticos e Cangaceiros, do jornalista e sociólogo Abelardo Montenegro. Deitado em minha rede de corda, armada na varanda do apartamento, olhei o firmamento. Morcegos ziguezagueavam, e um pequeno bando de andorinhas fazia revoluteios no ar. Foi então que me apareceu a coisa que me faltava. Nada de muito especial, só uma leve recordação de quando eu menino, na minha cidade natal, ouvia tocar o sino da igreja matriz e, nesse momento, uma nuvem de andorinhas partia do alto da torre em barulhenta revoada. Não sei por que, mas aquela cena significava para mim poesia. Nem sonhava eu o que essa palavra significava.  Noel Rosa, na bela letra de Quando o Samba Acabou, descrevendo uma mulata, dizia que a cabrocha tinha nos olhos “um não sei quê”. Assim, toda vez que capto um momento lírico instantâneo e não consigo dar a ele uma definição, parafraseio aquele verso do poeta da Vila.

            Hoje senti falta de uma coisa. Relendo o soneto SAUDADE, do poeta piauiense Da Costa e Silva, ali vi, na ultima estrofe, o poeta assim querer definir saudade:

                        Saudade! O Parnaíba – velho monge

                        As barbas brancas alongando... E ao longe

                        O mugido dos bois da minha terra.



            Esse mugido, não sei por que cargas d´ água me dói lá no fundo da alma. Vejo-me, de calças curtas de suspensórios, sentado no muro de nossa casa, à hora crepuscular, ouvindo, ao longe, nas quebradas do sertão, os chocalhos dos bois, que soltavam mugidos lancinantes naquele fim de tarde, como a compor, com o aboio dos vaqueiros, melancólica sinfonia pastoral.

          Hoje senti falta de outra coisa. Da pracinha nas cidades do interior aonde íamos passar as férias escolares.  Depois da novena, a bandinha de música executava dobrados no patamar da igreja e, na pracinha em frente, ocorriam leilões e a meninada passeava de bicicleta. Os mais crescidos e taludos costumavam caminhar em volta da praça em posição contrária à das meninas. Era uma forma de tornar mais fácil o jogo do flerte.  

            A primeira vez que fui arrebatado pelas coisas do coração ainda está bem configurada nas minhas lembranças. Não lembro o nome de minha musa; nem sei mesmo se ainda é viva, com quem vive ou por onde anda. Vi-a passar em uma bicicleta, em torno da pracinha. Cabelos louros, densos, compridos, arrumados em forma de trança, em cujas pontas via-se um pequeno e delicado laço. Alva, lábios finos, olhar intensamente esverdeado, sorriso franco, entregue à gratuidade do pedalar. Meu coração se alegrava, minha alma exultava e uma pequena alegria tomava conta de mim toda vez que eu via aquela menina ali na pracinha. Na minha solidão de menino tímido, não encontrava explicação daquele meu entusiasmo por aquela lolita, protótipo universalizado da menina-moça em flor...

            Coisas simples, aparentemente fugidias, mas que nos fazem falta, por trazerem de volta a nós momentos e flagrantes de nossa vida, perdidos na voragem dos tempos...


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