CARTAS À MINHA FILHA
4ª
Maria Helena,
seria temerário a quem reflete
assumir posição contrária à gramática, pois toda língua rege-se por uma
gramática própria. Toda língua tem suas idiossincrasias. Enfim, por essa razão,
não devemos nos postar numa atitude de combate frente à gramática. Seria uma
atitude quixotesca de lutar contra moinhos de vento. O que se deve abominar é o
vezo gramatiqueiro, a gramatiquice inócua e ingênua dos garimpos gramaticais. Aliás,
qualquer usuário da língua internaliza naturalmente a gramática: conditio sine qua non: ler... Ler tudo
que lhe caia nas mãos, mas, sobretudo, a obra literária, pois nela se encontram
todas as normas. É ela uma supranorma, isto é, registra as demais normas: a
padrão culta, a familiar tensa, a familiar distensa, o jargão, a gíria... Não é
à toa que os bons escritores são leitores empedernidos. Érico Veríssimo mal
terminou o curso ginasial, hoje fundamental e, no entanto, ministrou aulas de
literatura e cultura brasileiras nas universidades norte-americanas. Quando o
crítico literário Alceu Amoroso Lima, deixando o cargo de embaixador cultural
do Brasil Nos Estados Unidos e instado a indicar um nome, não titubeou: Érico
Veríssimo. O escritor gaúcho não só bem representou nosso país como também
concebeu algumas obras, tendo por assunto as “coisas americanas”. Em Gato Preto
em Campo de Neve e A Volta do Gato Preto, Veríssimo procedeu a uma análise do
modo de ser do povo norte-americano, em que põe a nu a alma daquele povo, relevando
o pragmatismo-utilitarista bem próprio dos yankes. Fê-lo sem ser portador de
diplomas acadêmicos, a leitura intensa lhe bastava.
Além de Veríssimo, outros escritores
de escol deram prova bastante de que para adquirir cultura humanística
prescindiram de títulos pomposos e pretensiosos. Capistrano de Abreu
historiador cearense, nascido em Maranguape lia tudo que lhe caía nas mãos. Vindo
depois de Varnhagen, também historiador e pioneiro dos estudos históricos no
Brasil, a este superou e contestou-lhe as teses. Era homem simples, de
temperamento fleumático, arredio e, repita-se, lia e lia. Se escreveu menos do
que se esperava, isso se deve a uma espécie de preguiça física que o levava
para a rede, onde, balançando-se, lia horas a fio.
Ler gratuitamente, sem visar a
vantagens pecuniárias, tão-somente, é a forma mais legítima de não só adquirir
uma certa dose de cultura humanística como também de lançar-se olhar crítico ao
que nos rodeia. Por isso, em tua escalada acadêmica faze todos os cursos que te
apetecem, mas, sobretudo, lê e lê e lê...
Teu pai. Francisco Hugo
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