sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA


Maria Helena,

seria temerário a quem reflete assumir posição contrária à gramática, pois toda língua rege-se por uma gramática própria. Toda língua tem suas idiossincrasias. Enfim, por essa razão, não devemos nos postar numa atitude de combate frente à gramática. Seria uma atitude quixotesca de lutar contra moinhos de vento. O que se deve abominar é o vezo gramatiqueiro, a gramatiquice inócua e ingênua dos garimpos gramaticais. Aliás, qualquer usuário da língua internaliza naturalmente a gramática: conditio sine qua non: ler... Ler tudo que lhe caia nas mãos, mas, sobretudo, a obra literária, pois nela se encontram todas as normas. É ela uma supranorma, isto é, registra as demais normas: a padrão culta, a familiar tensa, a familiar distensa, o jargão, a gíria... Não é à toa que os bons escritores são leitores empedernidos. Érico Veríssimo mal terminou o curso ginasial, hoje fundamental e, no entanto, ministrou aulas de literatura e cultura brasileiras nas universidades norte-americanas. Quando o crítico literário Alceu Amoroso Lima, deixando o cargo de embaixador cultural do Brasil Nos Estados Unidos e instado a indicar um nome, não titubeou: Érico Veríssimo. O escritor gaúcho não só bem representou nosso país como também concebeu algumas obras, tendo por assunto as “coisas americanas”. Em Gato Preto em Campo de Neve e A Volta do Gato Preto, Veríssimo procedeu a uma análise do modo de ser do povo norte-americano, em que põe a nu a alma daquele povo, relevando o pragmatismo-utilitarista bem próprio dos yankes. Fê-lo sem ser portador de diplomas acadêmicos, a leitura intensa lhe bastava.

Além de Veríssimo, outros escritores de escol deram prova bastante de que para adquirir cultura humanística prescindiram de títulos pomposos e pretensiosos. Capistrano de Abreu historiador cearense, nascido em Maranguape lia tudo que lhe caía nas mãos. Vindo depois de Varnhagen, também historiador e pioneiro dos estudos históricos no Brasil, a este superou e contestou-lhe as teses. Era homem simples, de temperamento fleumático, arredio e, repita-se, lia e lia. Se escreveu menos do que se esperava, isso se deve a uma espécie de preguiça física que o levava para a rede, onde, balançando-se, lia horas a fio.

Ler gratuitamente, sem visar a vantagens pecuniárias, tão-somente, é a forma mais legítima de não só adquirir uma certa dose de cultura humanística como também de lançar-se olhar crítico ao que nos rodeia. Por isso, em tua escalada acadêmica faze todos os cursos que te apetecem, mas, sobretudo, lê e lê e lê...

Teu pai. Francisco Hugo

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