quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012




CARTAS À MINHA FILHA

14ª

Maria Helena,

a filosofia de mesa de bar quando não envereda pelas sendas do lugar comum da crueza do cotidiano ou da sempiterna patifaria de políticos e outros bichos da mesma fauna, indaga-se sobre temas eternos, os quais serão sempre apanágio da vulnerabilidade humana. Cientes de sua finitude e pacientes também, como todo bom mortal, da inexorabilidade do eterno devir, os filósofos de mesa de bar, inebriados pela plangência de violões, apoiados no cajado de aguardentes e tira-gostos, vez e outra, tangenciam a metafísica e, tocados pelos eflúvios etílicos deixam escapar suas perplexidades acerca do tempo, da morte e da felicidade... De regra, não conhecem os meandros da filosofia, mas exercem o sagrado direito de filosofar. Quem os observa testemunha surdir, de alvoroçados colóquios, verdadeiras pérolas, que evocam os pensadores de escol. Nada de cômico em tudo isso, apenas espanto metafísico, sintonizado pelo inconsciente coletivo e pelas dores do mundo...

Certo dia, num canto de bar, bebericando umas e outras cervejas geladas, vi que duas e três pessoas, sentadas a uma mesa próxima, sustentavam uma comprida arenga acerca da felicidade. Falavam alto, gesticulavam embebiam sucessivos copos de uísque ou cerveja e, de soslaio, passeavam o olhar pelos circundantes a ver se pescavam alguma avaliação, traduzida por algum olhar cúmplice ou pelo rítmico balançar anuente de algumas cabeças...

As teses sustentavam-se em argumentos de todo jaez. Um sujeito barbudo, de boina que lembrava a figura austera de Che, dizia que a felicidade era algo movediço, que nos iludia com refulgentes nuanças, mas logo se evanescia, tal qual bolha de sabão. Lembrei-me dos versos de Vinícius “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor: brilha tranqüila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor.” Aprovava-se o argumento. Porém, logo se aduzia outra tese. Um magricela esgrouvinhado coçou o queixo e comparou a felicidade ao episódio envolvendo Tântalo, que experimentou o tormentoso suplício a ele imposto pelos deuses do Olimpo, de, premido pela fome e pela sede, esticar a mão para alcançar alimento e bebida a ele próximo, mas aqueles dele se afastavam. Dizia o magrelo que a felicidade nos está sempre próxima, porém nossas tentativas são sempre baldadas e temos de amargar, por todo o tempo, o dissabor de persegui-la sem nunca alcançá-la. Veio-me à mente um soneto de Vicente de Carvalho, declamado pela poetisa Cora Coralina, já na mais extrema velhice, quando lhe perguntaram qual era mesmo o sentido da existência para quem experimentara tão larga longevidade: Assim diz o vate santista.







Velho Tema



                                   Só a leve esperança em toda a vida

                                   Disfarça a pena de viver, mais nada;

                                   Nem é mais a existência, resumida,

                                   Que uma grande esperança malograda



                                   O eterno sonho da alma desterrada,

                                   Sonho que a traz ansiosa e embevecida

                                   É uma hora feliz, sempre adiada

                                   E que não chega nunca em toda a vida.



                                   Essa felicidade que supomos,

                                   Árvore milagrosa que sonhamos

                                   Toda arreada de dourados pomos,



                                   Existe, sim: mas nós não alcançamos

                                    Porque está sempre apenas onde a pomos

                                   E nunca a pomos onde nós estamos.



O soneto corroborava o argumento do “magão”.

Enquanto outras teses se aduziam, paguei a despesa, fui me esgueirando e saí caminhando no rumo de casa. Na cabeça martelava uma idéia interessante sobre o tema, pescado da poesia do poeta latino Virgílio. Este dizia que o homem pode experimentar a tal felicidade. Basta-lhe dar-se ao luxo de mergulhar no otium (ócio). Para o autor das Bucólicas, otium é dedicar-se o homem ao cultivo das Belas Letras. É pensar como Flaubert, que escrevendo a uma tal Mademoiselle Leroyer de Chantepie, dizia que  O único meio de suportar a existência é afogar-se na literatura como numa orgia perpétua. O vinho da Arte causa uma profunda embriaguez e é inesgotável...” Ou dizer, com Machado de Assis, “Esta é a alegria que fica, eleva, honra e consola.”

Com efeito, nas horas de folga, existe maior carga de prazer em deliciar-se com a leitura que, esparramado num sofá, deixar-se levar pela programação imbecilizante provinda da “máquina de fazer doido”, que mantém o “televidiota” fisgado e narcotizando-se com os apelos consumistas e reificantes?

Não há uma fórmula para experimentar a felicidade. Há um sentir e um intuir. Faz ela parte de nossa vida. Como se transfigura, isso depende de cada um. A inteligência, a sensibilidade e a disposição para captar essências muito contribui para as multímodas cosmovisões e vivências.

E viva o filosofar nos bares e onde quer que nos encontremos...



                                      Teu pai.

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