sábado, 18 de fevereiro de 2012


LÁ FORA

                                                       Hugo Martins



               Silêncio cavo na sala em que leio. À medida que vou virando as páginas do romance, chove lá fora e coloco no aparelho de som A Serenata de Schubert... O apartamento se envolve numa atmosfera de puro romantismo: de um lado, a música do compositor alemão; do outro, a historieta de Machado, ainda atrelada à estética dos amores bem-comportados. Súbito, olho para as paredes e vejo o rosto tranqüilo de Maria Clara numa fotografia. Olha-me ela com gravidade. Seus olhos estão serenos. A boca, fechada em lábios voluntariosos. Sobre a cabeça, uma espécie de tiara, adornando os cabelos lisos e castanhos, que lhe descem pelos ombros. Traja uma blusa branca em que se vê, na frente, um X cortado ao meio por um grande P. Em grego, tais letras fazem alusão ao Cristo. Minha filha estava paramentada para receber a primeira comunhão.

            Na parede oposta, pende outra fotografia. É minha filha Maria Cecília. Os longos cabelos negros partem-se ao meio e se esparramam nos ombros estreitos. Os olhos de um negrume profundo também me espreitam. Apoia ela o rosto redondo nos quatro dedos da mão esquerda, em forma de concha. O sorriso de dentes perfeitos se abre como a exprimir a satisfação de fruir seus então dezesseis anos...

            A chuva cessa, mas alguns pingos ficam a tamborilar aguda e ritmadamente na varanda em que se encontra permanentemente armada uma rede de corda, meu recreio para leitura de revistas e jornais. Um ou outro carro desliza na grande avenida. Ouvem-se ecos de vozes. Novamente o silêncio se instala.

            Olho para o lado e vejo meu avô materno num velho quadro carcomido pelos anos. Lembrou-me Carlos Drummond de Andrade, no poema Os Mortos de Sobrecasaca, em que o poeta de Itabira folheia um velho álbum de fotografia, já tingidas pela marca do tempo, este operário das ruínas.  O velho de cabelos ralos olha-me com gravidade, e me vem à lembrança o tempo em que passávamos férias em sua casa na cidade de Paracuru.

            Figura ímpar o pai de minha mãe. Estatura mediana, carantonha fechada, com ar de quem não gasta conversa gratuita com ninguém, vovô não era autoritário, tinha autoridade. Provindo de uma família de velhos coronéis da Guarda Nacional, cedo se acostumou ao mando. Foi, por muito tempo, chefe político da região de Paracuru, Paraipaba, Trairi e Mundaú. Não era difícil perceber a popularidade de que gozava o Coronel Antônio Barroso de Souza. Era querido em toda a região.

            Por trás daquela aparência carrancuda, acentuada por uma voz extremamente grave, escondia-se um homem terno e bondoso, cuja humanidade se revelava em atos os mais comezinhos. Era honesto de doer e religiosamente fervoroso.

            Nas férias escolares, quem lá estivesse havia de observar as regras da casa. À hora de qualquer refeição feita em torno à mesa, quem primeiro sentava era o velho. Depois de uma pequena oração de agradecimento, era também o primeiro a se servir. Educação da época.

            A casa de meu avô ainda existe. Não aquela de atmosfera respeitável. De largo e comprido alpendre, em que se estendiam algumas redes de corda, a casa de meu avô é semelhante àquela do avô de Manuel Bandeira, descrita no poema Evocação do Recife: “tudo lá parecia impregnado de eternidade.”            A que hoje lá se encontra em nada lembra a casa de meu avô porque, parafraseando Fernando Pessoa, a casa de meu avô era a casa de meu avô...

            Saio dos devaneios da infância. Olho a manhã chuvosa. A música de Schubert finda. A um canto, vejo meu violão e junto a ele um caderno de pautas musicais... Pego do violão, abro o caderno, faço um acorde de mi maior, tanjo o bordão e dedilho no pinho as duas primeiras lições práticas recebidas no Conservatório Alberto Nepomuceno. Depois ensaio, a custo, alguns acordes, a fim de tornar os dedos mais lestos na troca de uma posição para outra, bem como para manter a sincronia dos movimentos da mão esquerda com a mão direita. Repito o exercício várias vezes até alcançar a melhor forma de executá-lo...

            Novamente rendo-me às lembranças. Por que, a esta altura, estudar música? Primeiro por amar perdidamente essa arte. Segundo, porque todas as tentativas que fiz em apreender restauram baldadas, pois os “professores” que contratava não passavam de mandriões de marca maior, sem nenhuma cultura musical. Aventureiros de três meses. Cedo sua incompetência ficava patenteada. Terceiro, no Conservatório, além de aprender música tecnicamente, preencho uma parte do meu tempo ocioso com uma arte que tem tudo a ver com a literatura. Além da prática musical com o violão, temos aulas de teoria musical e canto coral. Num tempo em que se fala tanto de qualidade de vida, vou gastar quatro anos alimentando o espírito com esta arte sublime, aliando-a à literatura, coisa que preenche de todo os espíritos inquietos.

            Lá fora o movimento de veículos se acentua. Soergo-me da cadeira e dirijo-me à minha velha “fianga”, abro o volume de Iaiá Garcia e dou continuidade à viagem nas asas da arte literária.

            Antes me pergunto: por que escrever texto numa manhã de sábado carnavalesco quando momo e seus sequazes fazem apelo a que eu caia na folia? Talvez porque o Carnaval tenha perdido, para mim, seu encanto. Quem sabe por temer a violência que acompanha todos os passos dos festejos... Ou, coisa mais provável, por desejar manter-me preso ao sábio preceito de Cícero: “nenhum dia sem nenhuma linha.”            Escrever por escrever...

           

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