LÁ FORA
Hugo Martins
Silêncio cavo na sala em que
leio. À medida que vou virando as páginas do romance, chove lá fora e coloco no
aparelho de som A Serenata de Schubert... O apartamento se envolve numa
atmosfera de puro romantismo: de um lado, a música do compositor alemão; do
outro, a historieta de Machado, ainda atrelada à estética dos amores
bem-comportados. Súbito, olho para as paredes e vejo o rosto tranqüilo de Maria
Clara numa fotografia. Olha-me ela com gravidade. Seus olhos estão serenos. A
boca, fechada em lábios voluntariosos. Sobre a cabeça, uma espécie de tiara,
adornando os cabelos lisos e castanhos, que lhe descem pelos ombros. Traja uma blusa
branca em que se vê, na frente, um X cortado ao meio por um grande P. Em grego,
tais letras fazem alusão ao Cristo. Minha filha estava paramentada para receber
a primeira comunhão.
Na
parede oposta, pende outra fotografia. É minha filha Maria Cecília. Os longos
cabelos negros partem-se ao meio e se esparramam nos ombros estreitos. Os olhos
de um negrume profundo também me espreitam. Apoia ela o rosto redondo nos
quatro dedos da mão esquerda, em forma de concha. O sorriso de dentes perfeitos
se abre como a exprimir a satisfação de fruir seus então dezesseis anos...
A
chuva cessa, mas alguns pingos ficam a tamborilar aguda e ritmadamente na
varanda em que se encontra permanentemente armada uma rede de corda, meu
recreio para leitura de revistas e jornais. Um ou outro carro desliza na grande
avenida. Ouvem-se ecos de vozes. Novamente o silêncio se instala.
Olho
para o lado e vejo meu avô materno num velho quadro carcomido pelos anos.
Lembrou-me Carlos Drummond de Andrade, no poema Os Mortos de Sobrecasaca, em
que o poeta de Itabira folheia um velho álbum de fotografia, já tingidas pela
marca do tempo, este operário das ruínas. O velho de cabelos ralos olha-me com
gravidade, e me vem à lembrança o tempo em que passávamos férias em sua casa na
cidade de Paracuru.
Figura
ímpar o pai de minha mãe. Estatura mediana, carantonha fechada, com ar de quem
não gasta conversa gratuita com ninguém, vovô não era autoritário, tinha
autoridade. Provindo de uma família de velhos coronéis da Guarda Nacional, cedo
se acostumou ao mando. Foi, por muito tempo, chefe político da região de
Paracuru, Paraipaba, Trairi e Mundaú. Não era difícil perceber a popularidade
de que gozava o Coronel Antônio Barroso de Souza. Era querido em toda a região.
Por
trás daquela aparência carrancuda, acentuada por uma voz extremamente grave,
escondia-se um homem terno e bondoso, cuja humanidade se revelava em atos os mais
comezinhos. Era honesto de doer e religiosamente fervoroso.
Nas
férias escolares, quem lá estivesse havia de observar as regras da casa. À hora
de qualquer refeição feita em torno à mesa, quem primeiro sentava era o velho.
Depois de uma pequena oração de agradecimento, era também o primeiro a se
servir. Educação da época.
A
casa de meu avô ainda existe. Não aquela de atmosfera respeitável. De largo e
comprido alpendre, em que se estendiam algumas redes de corda, a casa de meu
avô é semelhante àquela do avô de Manuel Bandeira, descrita no poema Evocação
do Recife: “tudo lá parecia impregnado de eternidade.” A que hoje lá se encontra em nada lembra a
casa de meu avô porque, parafraseando Fernando Pessoa, a casa de meu avô era a
casa de meu avô...
Saio dos devaneios da infância. Olho a manhã chuvosa.
A música de Schubert finda. A um canto, vejo meu violão e junto a ele um
caderno de pautas musicais... Pego do violão, abro o caderno, faço um acorde de
mi maior, tanjo o bordão e dedilho no pinho as duas primeiras lições práticas
recebidas no Conservatório Alberto Nepomuceno. Depois ensaio, a custo, alguns
acordes, a fim de tornar os dedos mais lestos na troca de uma posição para
outra, bem como para manter a sincronia dos movimentos da mão esquerda com a
mão direita. Repito o exercício várias vezes até alcançar a melhor forma de
executá-lo...
Novamente
rendo-me às lembranças. Por que, a esta altura, estudar música? Primeiro por
amar perdidamente essa arte. Segundo, porque todas as tentativas que fiz em
apreender restauram baldadas, pois os “professores” que contratava não passavam
de mandriões de marca maior, sem nenhuma cultura musical. Aventureiros de três
meses. Cedo sua incompetência ficava patenteada. Terceiro, no Conservatório,
além de aprender música tecnicamente, preencho uma parte do meu tempo ocioso
com uma arte que tem tudo a ver com a literatura. Além da prática musical com o
violão, temos aulas de teoria musical e canto coral. Num tempo em que se fala
tanto de qualidade de vida, vou gastar quatro anos alimentando o espírito com
esta arte sublime, aliando-a à literatura, coisa que preenche de todo os
espíritos inquietos.
Lá
fora o movimento de veículos se acentua. Soergo-me da cadeira e dirijo-me à
minha velha “fianga”, abro o volume de Iaiá Garcia e dou continuidade à viagem
nas asas da arte literária.
Antes
me pergunto: por que escrever texto numa manhã de sábado carnavalesco quando
momo e seus sequazes fazem apelo a que eu caia na folia? Talvez porque o Carnaval
tenha perdido, para mim, seu encanto. Quem sabe por temer a violência que
acompanha todos os passos dos festejos... Ou, coisa mais provável, por desejar
manter-me preso ao sábio preceito de Cícero: “nenhum dia sem nenhuma linha.”
Escrever por escrever...
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