ENSINO
DE LÍNGUA PORTUGUESA (uma concepção).
Hugo Martins
Não
se deve conceber o ensino do idioma pátrio senão tendo por suporte o texto.
Qualquer que seja ele. Escolas há que se expõem ao ridículo de possuir em seu
quadro um professor de redação, um professor de gramática, um professor de
literatura e outros bichos, como se a língua fosse uma colcha de retalhos, com
um especialista para cada retalho. O mais trágico é que muitos dos
especialistas nisso ou naquilo, muitas vezes não ostentam competência
profissional nem mesmo para alinhavar um punhado de frases, a elas emprestando
aparência de texto. Outros ensinam literatura, mas não lêem os livros a que se
referem em sala de aula, pois, se a eles fazem alusão, as mais das vezes
conhecem-nos de outiva ou en passant,
pescando, aqui e ali, alguma informação falseada de livros didáticos elaborados
apressadamente por editoras que só raciocinam por cifrões. Quando não,
quedam-se na pura historiografia, por si mesma estéril, pois desvinculada dos
textos representativos de cada estilo de época em literatura.
O ensino da gramática é feito de forma
descontextualizada. É oferecida por meio de um menu em que o aluno é obrigado a
decorar regras, exceções e coisas que tais. Absurdo dos absurdos, a sintaxe
parece não servir para coisa nenhuma, pois não é vista como instrumento de o
aluno tornar-se leitor mais percuciente e mais crítico. Antes, revela-se
instrumento de tortura intelectual e veicula uma verdade nada verdadeira: a
língua portuguesa é complicada. Parece-nos que complicado é o professor de
língua portuguesa levar à sala de aula a gramática pela gramática, a gramática
como um fim em si mesma. Negligenciar a leitura do texto, sua escritura, a
consulta ao dicionário, a observação do estético no texto literário significa,
como diz o vulgo, o mesmo que “chover no molhado”, o mesmo que vender geladeira
na Antártida... Ao aluno não interessa aprender uma língua que ele já conhece.
Érico Veríssimo mal concluiu o curso
ginasial (hoje curso fundamental); Machado de Assis não freqüentou academias
escolares, aprendeu com um padre, quando menino, alguns rudimentos de latim e
de francês; Monteiro Lobato tinha verdadeira ojeriza à gramatiquice
pretensiosa. Uma coisa é certa: estes e muitos escritores consagrados
tornaram-se o que são porque, sobretudo liam, liam e liam. Eram ratos de
biblioteca, metáfora feliz com que alguém rotulou Clóvis Beviláqua e Capistrano
de Abreu. Em outras palavras: a aprendizagem da língua, em não importa que
nível (culto, familiar tenso ou familiar distenso) dá-se pela leitura.
Simplesmente.
Deixe-se, pois de lado, o
autoritarismo do discurso gramatiqueiro, as poses doutorais e bacharelescas.
Recorra-se ao sadio autodidatismo, ao amor gratuito pelos livros e leve-se à
sala de aula o entusiasmo pelas possibilidades múltiplas que a língua
portuguesa esconde em seu bojo. Basta que se descubram. Assim, a língua se
“descomplica”, e o mundo será mais belo... Sem gramática ou apesar dela.
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