VIOLÊNCIA
Hugo Martins
Para
muitos, violência é o que se estampa nas páginas sangrentas de jornais e
revistas ou na tela sensacionalista da “máquina de fazer doido”. Chamamos a
isso violência visível, explícita e, por si mesmo, violência à sensibilidade
das pessoas. Por trás da essência das coisas (como quer Exupéry), porém,
esconde-se uma violência mais execranda, aquela para a qual estamos cegos e
sobre a qual se estende o pálio da alienação.
Existe
violência na incompetência deslavada do profissional, cujo ofício desconhece: o
médico que deveria ser açougueiro; o advogado que deveria ser camelô ou o
professor ignaro, que deveria ser apodado “dador de aulas”. Não há violência
maior que ser desonesto consigo mesmo.
Há
violência na mentira pedagógica, na prática de ensino em que se enxerga apenas
e tão-somente o atingimento do sucesso profissional, olvidando-se a hominização
e instaurando-se a reificação do indivíduo. Manifesta-se a violência na eleição
de modelos pedagógicos alienígenas, totalmente distantes da realidade nacional.
Veja-se o caso brasileiro... Na época negra da última ditadura, adotou-se o
ensino profissionalizante, tão hipócrita e mentiroso quanto aqueles que,
subservientes ao modelo norte-americano, daqui expurgaram um modelo, que vinha
dando certo, para impor o tal ensino profissionalizante. Na última década do
século passado readotou-se a Lei de Diretrizes e Bases. A violência, nesse
sentido é tamanha, que o Brasil sempre figura como campeão quando se trata de
desempenho sofrível e incompetência para oferecer educação escolar de boa
qualidade ao povo, que paga extorsivos tributos.
Vislumbra-se
a violência no apresentador televisivo, regiamente pago para inocular a
descerebração da juventude; no político pilantra, por trás de cujos discursos
se esconde o gângster inescrupuloso; no diretor de escola, cujo talento é mais
consentâneo com a mercancia própria dos mercadores de feira, destes
distinguindo-se pelo pregão. O daqueles vem à tona pelo apelo esgoelado; o
destes, pela mágica televisiva ou pelos cartazes em que figuram estudantes bem
sucedidos nos exames vestibulares, de sorrisinho amarelo e sem graça,
reafirmando a verdade incontestável de que obtiveram sucesso naqueles exames
por causa da interferência magistral desta ou daquela bodega pedagógica,
patroas de professores que mais parecem magos, tal seu poder e sua
“especialidade” em colocar alunos nas nossas pobres universidades. Esta
violência se reafirma quando se trata o aluno como um cãozinho bem treinado e
robotizado, um lulu obediente e atento a “bizus”, e a outras tolices do mesmo
naipe.
Outra
violência traduz-se na inércia e na ontológica e antológica morosidade da
aplicação da lei com vistas ao atingimento da justiça. Recorrer a esta, muitas
vezes, é aborrecer-se, é chatear-se, é render-se a um descrédito sem
precedentes, é convencer-se de sua ineficiência, é desistir pelo cansaço. Muito
parece a justiça brasileira com um personagem da peça teatral Esperando Godot.
Espera-se, espera-se, espera-se e espera-se... Isso é mais violência ainda...
As
violências latentes e aparentemente invisíveis são muitas. Destacaram-se, aqui,
apenas algumas a fim de se abrirem ensanchas ao redator para a produção de
outros textos neste diapasão. Voltaremos...
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