quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


VIOLÊNCIA

                                                                                                                    Hugo Martins



            Para muitos, violência é o que se estampa nas páginas sangrentas de jornais e revistas ou na tela sensacionalista da “máquina de fazer doido”. Chamamos a isso violência visível, explícita e, por si mesmo, violência à sensibilidade das pessoas. Por trás da essência das coisas (como quer Exupéry), porém, esconde-se uma violência mais execranda, aquela para a qual estamos cegos e sobre a qual se estende o pálio da alienação.

            Existe violência na incompetência deslavada do profissional, cujo ofício desconhece: o médico que deveria ser açougueiro; o advogado que deveria ser camelô ou o professor ignaro, que deveria ser apodado “dador de aulas”. Não há violência maior que ser desonesto consigo mesmo.

            Há violência na mentira pedagógica, na prática de ensino em que se enxerga apenas e tão-somente o atingimento do sucesso profissional, olvidando-se a hominização e instaurando-se a reificação do indivíduo. Manifesta-se a violência na eleição de modelos pedagógicos alienígenas, totalmente distantes da realidade nacional. Veja-se o caso brasileiro... Na época negra da última ditadura, adotou-se o ensino profissionalizante, tão hipócrita e mentiroso quanto aqueles que, subservientes ao modelo norte-americano, daqui expurgaram um modelo, que vinha dando certo, para impor o tal ensino profissionalizante. Na última década do século passado readotou-se a Lei de Diretrizes e Bases. A violência, nesse sentido é tamanha, que o Brasil sempre figura como campeão quando se trata de desempenho sofrível e incompetência para oferecer educação escolar de boa qualidade ao povo, que paga extorsivos tributos.

            Vislumbra-se a violência no apresentador televisivo, regiamente pago para inocular a descerebração da juventude; no político pilantra, por trás de cujos discursos se esconde o gângster inescrupuloso; no diretor de escola, cujo talento é mais consentâneo com a mercancia própria dos mercadores de feira, destes distinguindo-se pelo pregão. O daqueles vem à tona pelo apelo esgoelado; o destes, pela mágica televisiva ou pelos cartazes em que figuram estudantes bem sucedidos nos exames vestibulares, de sorrisinho amarelo e sem graça, reafirmando a verdade incontestável de que obtiveram sucesso naqueles exames por causa da interferência magistral desta ou daquela bodega pedagógica, patroas de professores que mais parecem magos, tal seu poder e sua “especialidade” em colocar alunos nas nossas pobres universidades. Esta violência se reafirma quando se trata o aluno como um cãozinho bem treinado e robotizado, um lulu obediente e atento a “bizus”, e a outras tolices do mesmo naipe.

            Outra violência traduz-se na inércia e na ontológica e antológica morosidade da aplicação da lei com vistas ao atingimento da justiça. Recorrer a esta, muitas vezes, é aborrecer-se, é chatear-se, é render-se a um descrédito sem precedentes, é convencer-se de sua ineficiência, é desistir pelo cansaço. Muito parece a justiça brasileira com um personagem da peça teatral Esperando Godot. Espera-se, espera-se, espera-se e espera-se... Isso é mais violência ainda...

            As violências latentes e aparentemente invisíveis são muitas. Destacaram-se, aqui, apenas algumas a fim de se abrirem ensanchas ao redator para a produção de outros textos neste diapasão. Voltaremos...







           


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