TRANSFIGURAÇÃO
Hugo Martins
Por
não ser capaz de exprimir todas as coisas - o indizível, o inefável – a
linguagem abre ensanchas a que seu usuário recorra à metaforização; em outras
palavras, à linguagem figurada para se aproximar o mais possível daquilo que
pretende exprimir. Assim ocorre quando, por exemplo, Castro Alves, no poema O
Navio Negreiro, ao enxergar o sofrimento por que passavam os negros cativos nos
porões dos navios tumbeiros, brada: “Era um sonho dantesco.... Neste passo, o
poeta associa o suplício do negro trasladado da África com os sofrimentos que
Dante Alighieri testemunha, quando, guiado pelo poeta latino Virgílio,
atravessa a instância do inferno na poema A Divina Comédia. Este poema é
grávido de metáforas...
A
metaforização não é apanágio da linguagem literária. Na comunicação do dia a
dia, ela está sempre presente, basta que nosso espírito estabeleça comparações
e proceda a relações de contigüidade. Você nunca toma uma Bohêmia ou uma
Antártica, você saboreia cerveja com referidos nomes. Quando diz que ouviu
Chico Buarque, na realidade, você ouviu música de autoria desse compositor.
Estar morrendo de fome ou de cansaço são metáforas tão constantes no cotidiano,
que chegaram a desmetaforizar-se, a perder sua aura poética
Quem
tiver a pachorra de ouvir as músicas Apesar de Você, de Chico Buarque e
Disparada, de Geraldo Vandré, verá que a palavra “você” aparece algumas vezes
prenhe de metaforização. Não se trata de um pronome de tratamento, como diria o
gramático. Não, na realidade a palavrinha designa a figura e a truculência do
ditador e todos os males dele advindos. Para o caso específico de nossa
História, fazia alusão velada a todos os Presidentes militares que governaram este
País entre 1964 a 1985. Seu grau de universalidade, porém, se estende a
qualquer ditador de qualquer tempo e de qualquer lugar.
Lembra-me
que, naqueles negros tempos, o desejo ufanístico dos militares gerou a criação
de slogans enaltecedores do Brasil.
Um deles assim dizia: “BRASIL, AME-O OU DEIXE-O.” Em outras palavras: quem não
concordasse com os desmandos, a falta de respeito e o autoritarismo grosseiro,
que batia e arrebentava, que arrumasse seus bregueços e daqui saísse... Um
humorista da época, fazendo outra leitura da coisa, recorreu a uma metáfora
genial e a frase ficou assim completada: “O ÚLTIMO A SAIR DESLIGUE AS LUZES DO
AEROPORTO.” Tempos depois, outro ditador editou o seguinte slogan ufanista: O
BRASIL É UM PAÍS FEITO POR NÓS”. O mesmo
humorista, demonstrando conhecer os segredos da língua, completou a
sentença com essa metáfora terrivelmente deliciosa: RESTA SABER QUEM VAI
DESATÁ-LOS. O demoníaco gozador apenas considerou o pronome “nós” e o leu como
substantivo plural de nó... Por evidente, o humorista acrescentou mais dois
processos judiciais na sua longa lista...
Quem,
a nosso ver, melhor exprimiu a incapacidade da linguagem no vão esforço de
traduzir determinados estados da alma foi o poeta parnasiano Olavo Bilac no
soneto Inania Verba, locução latina
que, numa tradução livre restaria “palavras impotentes”
Transcrevamos
o soneto:
INANIA VERBA
Olavo Bilac
Ah! Quem há de exprimir, alma
impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não
escreve?
- Ardes, sangras, pregada à tua cruz,
e, em breve,
Olhas desfeito em lodo o que te
deslumbrava...
O Pensamento ferve, e é um turbilhão
de lava;
A Forma, espessa e fria, é um
sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia
leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e
voava.
Quem o molde achará para a expressão
de tudo?
Ah! Quem há de dizer as ânsias
infinitas
Do sonho? E o céu que foge à mão que
se levanta?
E a ira muda? E o asco mudo? E o
desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram
ditas?
E as confissões de amor que morrem na
garganta?
Leitor,
o nosso desejo de alcançar a precisão no que desejamos exprimir é tão intenso e
tão próprio de nós, que, por muitas vezes, lendo determinados trechos de
autores que temos à mão, com eles nos identificamos e dizemos, de nós para nós,
eu tinha vontade de ter dito isto.
Veja
você mesmo. No facebook, grande parte
das pessoas se compraz em copiar trechos dos outros e enviar aos amigos
exprimindo algo que ela própria pensa não ser capaz de exprimir.
É o
encanto, é o feitiço de se tentar traduzir, pelo a linguagem, o homem e o mundo
nas suas diversas nuanças.
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