domingo, 19 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA


Maria Helena,

no Evangelho segundo São Mateus, o Cristo deblatera contra os fariseus, a quem ele lança o labéu de “raça de víboras”, “geração adúltera” e “sepulcros caiados”. Rótulos bem apropriados ao homem dos novos tempos, os quais escondem a desfaçatez, escamoteiam a ignomínia e fazem pouco da boa-fé dos homens de boa vontade. Nada mais fere que a mentira embuçada em atitudes hipócritas; nada mais insulta que a falta de sinceridade consigo mesmo; nada mais intolerável que o tartufismo baboso.

De que adianta falar em ética, quando nas mais comezinhas ações do cotidiano nos revelamos falsos e dissimulados? De que adianta se prosternar ante imagens de santos, balbuciar orações e estar com o coração dilacerado por inevitáveis contradições? Como explicar o pai de família e seus filhos, que não respeitam a pessoa que lhes presta serviços, assediando-a para satisfazer seus instintos bestiais?

E o professor que, sem nenhuma vocação para o magistério se arrasta para a sala de aula ou dela foge, fingindo estar “pesquisando”? E o professor que, desejando engordar o contracheque faz cursos de pós-graduação, cuja área de interesse nada tem a ver com sua formação? Conheço gente que cursa, por exemplo, informática, e se pós-gradua em meio ambiente. É mole?

Pior é o professor de língua portuguesa que, arrotando erudição e posando de bem informado, indica ao alunado a leitura de obra literária que ele mesmo não leu, ou fingiu ler, recorrendo a resenhas ou orelhas de livros. Deles há que se aferram ao ensino da gramática pela gramática e deixam de lado a leitura do texto, com suas implicações lógico-semânticas, e se regozijam em falar de regrinhas e mais regrinhas, sem importância porque descontextualizadas. Quando não, montam em exceções e atingem um orgasmo gramatical em que só ele goza e deixa os alunos a ver navios.

Maria Helena, minha filha, tais impostores deviam ser chicoteados como o Cristo fez com os vendilhões do templo. São mercadores de boas intenções e cometem o pecado maior de ser desonestos consigo mesmos. Por isso, te precata..                                                                       Teu pai Hugo

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