CARTAS À MINHA FILHA
6ª
Maria Helena,
no Evangelho segundo São Mateus, o
Cristo deblatera contra os fariseus, a quem ele lança o labéu de “raça de
víboras”, “geração adúltera” e “sepulcros caiados”. Rótulos bem apropriados ao
homem dos novos tempos, os quais escondem a desfaçatez, escamoteiam a ignomínia
e fazem pouco da boa-fé dos homens de boa vontade. Nada mais fere que a mentira
embuçada em atitudes hipócritas; nada mais insulta que a falta de sinceridade
consigo mesmo; nada mais intolerável que o tartufismo baboso.
De que adianta falar em ética, quando
nas mais comezinhas ações do cotidiano nos revelamos falsos e dissimulados? De
que adianta se prosternar ante imagens de santos, balbuciar orações e estar com
o coração dilacerado por inevitáveis contradições? Como explicar o pai de
família e seus filhos, que não respeitam a pessoa que lhes presta serviços,
assediando-a para satisfazer seus instintos bestiais?
E o professor que, sem nenhuma
vocação para o magistério se arrasta para a sala de aula ou dela foge, fingindo
estar “pesquisando”? E o professor que, desejando engordar o contracheque faz
cursos de pós-graduação, cuja área de interesse nada tem a ver com sua
formação? Conheço gente que cursa, por exemplo, informática, e se pós-gradua em
meio ambiente. É mole?
Pior é o professor de língua
portuguesa que, arrotando erudição e posando de bem informado, indica ao
alunado a leitura de obra literária que ele mesmo não leu, ou fingiu ler,
recorrendo a resenhas ou orelhas de livros. Deles há que se aferram ao ensino
da gramática pela gramática e deixam de lado a leitura do texto, com suas
implicações lógico-semânticas, e se regozijam em falar de regrinhas e mais
regrinhas, sem importância porque descontextualizadas. Quando não, montam em
exceções e atingem um orgasmo gramatical em que só ele goza e deixa os alunos a
ver navios.
Maria Helena, minha filha, tais
impostores deviam ser chicoteados como o Cristo fez com os vendilhões do
templo. São mercadores de boas intenções e cometem o pecado maior de ser
desonestos consigo mesmos. Por isso, te precata.. Teu pai Hugo
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