CARTAS À MINHA FILHA
2ª
Maria Helena,
cuidado com os discursos em que se
vislumbram meros devaneios intelectuais, apanágio de alguns rebanhos
pretensiosos que dizem fazer universidade. Alguns deles adoram o discurso
salpicado de lugares comuns e de subserviência intelectual ao que dizem as
“autoridades”. Render-se a eles é concordar com algo sem uma prévia leitura de
mundo. Um amigo meu, de forma um pouco grosseira, mas franca, diz, de modo
muito apropriado: nas universidades brasileiras deve-se peidar em uníssono. Em
outras palavras: se em algum centro de pensamento sai uma novidade, tal como
papagaios amestrados, repete-se monotonamente a coisa até que outra novidade
surja. Assim, se um professor peida alto, todos os demais que o seguem também
procuram peidar no mesmo diapasão. Se baixar o tom do peido, também o rebanho
de peidões procura afinar sua flatulência em atendimento à boa orquestração. E
assim é...
Lembra-me um contista português,
Branquinho da Fonseca. No conto o Barão, o personagem principal passando um dia
montado em seu ginete em frente à Universidade de Coimbra, olha para seu
interior e brada: “meu cavalo, um dia, estudou aqui!” Não sei se o contista
estava a fazer “blague” com os alunos que dali saíam ou procurava insultar sua
montaria. Segredos de contistas...
Outra coisa monótona é a recorrência
à terminologia pretensiosa dos tolos. Com elas, conseguem dificultar aquilo que
é claro por si mesmo. Por exemplo: o conceito de literatura fornecido por
Aristóteles na Arte Poética é imorredouro: “literatura é mimesis, imitação da realidade”. Por evidente o Estagirita esgotou
todas as possibilidades, pois forneceu o conceito essencial à criação
literária. Pois bem: desde então, os conceitos surgidos para o mesmo objeto
dizem a mesma coisa, mas de uma maneira a complicar o que é claro por si mesmo.
De Aristóteles, infere-se que o fenômeno literário “copia” o real, mas sem a
fidelidade da fotografia, pois em seu conceito entra a imaginação, a recriação
do real a partir da cosmovisão de cada recriador. O mais é devaneio e vontade
de impressionar. E, nessa narcotização, provinda do caldo terminológico, o
alunado finge que tudo entende e o que deveria ser vira não-ser
Por isso, é bom precatar-se: é
digerir o que dizem os doutos, saborear a salada sem fugir aos autores mais
sinceros, que dizem aqueles ser tradicionalistas e superados... Às favas esses
senhores. Aliás, com a leitura dos bons romancista, contista, poetas e
cronistas, vamos intuindo o que vem ser a literatura. Daí concluímos que, como
diz um amigo meu: o novo não passa de rodapé daquilo que disseram os gregos.
Teu pai, Hugo
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