quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA


Maria Helena,

cuidado com os discursos em que se vislumbram meros devaneios intelectuais, apanágio de alguns rebanhos pretensiosos que dizem fazer universidade. Alguns deles adoram o discurso salpicado de lugares comuns e de subserviência intelectual ao que dizem as “autoridades”. Render-se a eles é concordar com algo sem uma prévia leitura de mundo. Um amigo meu, de forma um pouco grosseira, mas franca, diz, de modo muito apropriado: nas universidades brasileiras deve-se peidar em uníssono. Em outras palavras: se em algum centro de pensamento sai uma novidade, tal como papagaios amestrados, repete-se monotonamente a coisa até que outra novidade surja. Assim, se um professor peida alto, todos os demais que o seguem também procuram peidar no mesmo diapasão. Se baixar o tom do peido, também o rebanho de peidões procura afinar sua flatulência em atendimento à boa orquestração. E assim é...

Lembra-me um contista português, Branquinho da Fonseca. No conto o Barão, o personagem principal passando um dia montado em seu ginete em frente à Universidade de Coimbra, olha para seu interior e brada: “meu cavalo, um dia, estudou aqui!” Não sei se o contista estava a fazer “blague” com os alunos que dali saíam ou procurava insultar sua montaria. Segredos de contistas...

Outra coisa monótona é a recorrência à terminologia pretensiosa dos tolos. Com elas, conseguem dificultar aquilo que é claro por si mesmo. Por exemplo: o conceito de literatura fornecido por Aristóteles na Arte Poética é imorredouro: “literatura é mimesis, imitação da realidade”. Por evidente o Estagirita esgotou todas as possibilidades, pois forneceu o conceito essencial à criação literária. Pois bem: desde então, os conceitos surgidos para o mesmo objeto dizem a mesma coisa, mas de uma maneira a complicar o que é claro por si mesmo. De Aristóteles, infere-se que o fenômeno literário “copia” o real, mas sem a fidelidade da fotografia, pois em seu conceito entra a imaginação, a recriação do real a partir da cosmovisão de cada recriador. O mais é devaneio e vontade de impressionar. E, nessa narcotização, provinda do caldo terminológico, o alunado finge que tudo entende e o que deveria ser vira não-ser

Por isso, é bom precatar-se: é digerir o que dizem os doutos, saborear a salada sem fugir aos autores mais sinceros, que dizem aqueles ser tradicionalistas e superados... Às favas esses senhores. Aliás, com a leitura dos bons romancista, contista, poetas e cronistas, vamos intuindo o que vem ser a literatura. Daí concluímos que, como diz um amigo meu: o novo não passa de rodapé daquilo que disseram os gregos.

Teu pai, Hugo


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