CARTAS À MINHA FILHA
7ª
Maria Helena,
perguntas-me a diferença entre
saudade e nostalgia. Confesso-te minha ignorância sobre o assunto. Parece-me
que ambas as palavras, por pertencerem ao mesmo universo semântico, apontam
para uma acepção próxima daquilo que chamamos insatisfação afetiva por nos
faltar alguma coisa que nos era agradável e que de nós se afastou. A ausência
de quem amamos, um lugar e um tempo que nos foram caros e até episódios de
nossa vida, que nos pareciam sem importância, podem motivar esse “doer” na
alma”, que chamamos saudade ou nostalgia.
Há saudade que mata, como aquela de que eram
acometidos os negros africanos quando obrigados a deixar seu torrão natal por imposição
da cupidez e maldades humanas. Padeciam do banzo, choravam, definhavam,
morriam. Quem bem traduziu isso foi o poeta parnasiano Raimundo Correia, no
soneto Banzo. Também o vate baiano
Castro Alves, no poema de tom épico O
Navio Negreiro: tragédia do mar.
Temos saudades dos entes amados, hoje
habitantes do sobrenatural; alimentamos saudade do tempo em que nossos filhos,
hoje crescidos, eram nossos e lamentamos tenham deixado de ser as eternas
crianças, que nosso egoísmo projeta; padecemos de saudade com a perda da mulher
amada, lembrando de seus gestos, cheiro e faceirice... Saudade é, pois, perda
de algo que se diluiu nas fímbrias e esquinas do tempo.
A nostalgia se instala como saudade
mais dolorida e obsedante. Assenta-se no irresgatável, embuça-se nas sombras da
melancolia inevitável. Uma ruazita, um bando de meninos em folguedos, jogando
bila, soltando arraia, correndo descalças, sem nenhum temor de violência;
famílias conversando nas calçadas ao sabor do balanço das cadeiras de vime; o
café coado na hora; as solteironas com os cotovelos apoiados nas janelas a
bisbilhotar e comentar a vida do próximo; o cair da tarde, saudado pelo dobre
melancólico dos sinos plangentes; o aboio dolorido do vaqueiro, misturado ao
dorido mugir da boiada, quebrando o silêncio no bimbalhar monocórdio dos
chocalhos de reses, que, no ritmo cadenciado das cabeças, recolhem-se, em
silêncio filosófico, ao redil, tudo é nostalgia.
Existe coisa mais doída que a
lembrança dos bichos da casa? A eles dávamos nomes. Na minha infância, havia a
vaca Pretinha, que tinha uma mancha branca na testa que semelhava um coração; a
vaca Pixuna, de chifres tortos, cujo ar de poucos amigos nos impedia de ir ao
grande quintal; o cachorro Glutão, da raça viralatier,
de orelhas grandes, com os dentes à mostra e a língua no vaivém contínuo, a nos
fitar com grandes olhos vivos e ternos, todos eles não nos saem da lembrança.
Habitam eles as nossas recordações,
quando a alma, tomada de nostalgia ou ungida de saudades, queda-se, absorta, no
que foi e não mais é, mas que desejaríamos sempre fosse.
No mais fundo de nossos escaninhos
mentais, somos proustianos, isto é, estamos sempre entregues à tarefa de buscar
o tempo perdido. E este se encontra sempre na infância, tempo em que todos
estamos despojados de preocupações, sonhos vãos e tolas vaidades...
Saudade e nostalgia habitam a
infância. Lamentável termos de crescer e ouvir algumas vozes insinceras e
mecânicas bradarem “é o novo”, quando apenas estamos querendo trazer à tona as
coisas que o tempo levou.
A propósito, em literatura, poucos
são os escritores que não tenham volvido à infância. Quase toda a obra de José
Lins do Rego encarece esse tempo; Graciliano Ramos intitulou um de seus livros
Infância; a aparente sisudez de Érico Veríssimo produziu Música ao Longe e
Clarissa; o compositor Ataulfo Alves imortalizou Meus Tempos de Criança, aquela
dos versos “eu era feliz e não sabia”. Quando não implícito, o tema esconde-se
nas entrelinhas.
Não há escritor, poeta, sonhador ou
escrevinhador que não tenha afinado as cordas do coração com o tema da eterna
infância. E viva a infância!
Voilà!
Teu pai
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