quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA




Maria Helena,

perguntas-me a diferença entre saudade e nostalgia. Confesso-te minha ignorância sobre o assunto. Parece-me que ambas as palavras, por pertencerem ao mesmo universo semântico, apontam para uma acepção próxima daquilo que chamamos insatisfação afetiva por nos faltar alguma coisa que nos era agradável e que de nós se afastou. A ausência de quem amamos, um lugar e um tempo que nos foram caros e até episódios de nossa vida, que nos pareciam sem importância, podem motivar esse “doer” na alma”, que chamamos saudade ou nostalgia.

 Há saudade que mata, como aquela de que eram acometidos os negros africanos quando obrigados a deixar seu torrão natal por imposição da cupidez e maldades humanas. Padeciam do banzo, choravam, definhavam, morriam. Quem bem traduziu isso foi o poeta parnasiano Raimundo Correia, no soneto Banzo. Também o vate baiano Castro Alves, no poema de tom épico O Navio Negreiro: tragédia do mar.

Temos saudades dos entes amados, hoje habitantes do sobrenatural; alimentamos saudade do tempo em que nossos filhos, hoje crescidos, eram nossos e lamentamos tenham deixado de ser as eternas crianças, que nosso egoísmo projeta; padecemos de saudade com a perda da mulher amada, lembrando de seus gestos, cheiro e faceirice... Saudade é, pois, perda de algo que se diluiu nas fímbrias e esquinas do tempo.

A nostalgia se instala como saudade mais dolorida e obsedante. Assenta-se no irresgatável, embuça-se nas sombras da melancolia inevitável. Uma ruazita, um bando de meninos em folguedos, jogando bila, soltando arraia, correndo descalças, sem nenhum temor de violência; famílias conversando nas calçadas ao sabor do balanço das cadeiras de vime; o café coado na hora; as solteironas com os cotovelos apoiados nas janelas a bisbilhotar e comentar a vida do próximo; o cair da tarde, saudado pelo dobre melancólico dos sinos plangentes; o aboio dolorido do vaqueiro, misturado ao dorido mugir da boiada, quebrando o silêncio no bimbalhar monocórdio dos chocalhos de reses, que, no ritmo cadenciado das cabeças, recolhem-se, em silêncio filosófico, ao redil, tudo é nostalgia.

Existe coisa mais doída que a lembrança dos bichos da casa? A eles dávamos nomes. Na minha infância, havia a vaca Pretinha, que tinha uma mancha branca na testa que semelhava um coração; a vaca Pixuna, de chifres tortos, cujo ar de poucos amigos nos impedia de ir ao grande quintal; o cachorro Glutão, da raça viralatier, de orelhas grandes, com os dentes à mostra e a língua no vaivém contínuo, a nos fitar com grandes olhos vivos e ternos, todos eles não nos saem da lembrança.

Habitam eles as nossas recordações, quando a alma, tomada de nostalgia ou ungida de saudades, queda-se, absorta, no que foi e não mais é, mas que desejaríamos sempre fosse.

No mais fundo de nossos escaninhos mentais, somos proustianos, isto é, estamos sempre entregues à tarefa de buscar o tempo perdido. E este se encontra sempre na infância, tempo em que todos estamos despojados de preocupações, sonhos vãos e tolas vaidades...

Saudade e nostalgia habitam a infância. Lamentável termos de crescer e ouvir algumas vozes insinceras e mecânicas bradarem “é o novo”, quando apenas estamos querendo trazer à tona as coisas que o tempo levou.

A propósito, em literatura, poucos são os escritores que não tenham volvido à infância. Quase toda a obra de José Lins do Rego encarece esse tempo; Graciliano Ramos intitulou um de seus livros Infância; a aparente sisudez de Érico Veríssimo produziu Música ao Longe e Clarissa; o compositor Ataulfo Alves imortalizou Meus Tempos de Criança, aquela dos versos “eu era feliz e não sabia”. Quando não implícito, o tema esconde-se nas entrelinhas.

Não há escritor, poeta, sonhador ou escrevinhador que não tenha afinado as cordas do coração com o tema da eterna infância. E viva a infância!

Voilà!

Teu pai


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