CARTAS À MINHA FILHA
5ª
Maria Helena,
em tua última carta, pediste-me ler
um trabalho acadêmico de tua lavra, em cujo bojo fazes considerações sobre
crítica literária. Ressaltaste a desonestidade de alguns críticos, que se
banqueteiam em, dos seus altiplanos, no regozijo de manchar reputações de
escritores de escol. Lembraste até mesmo a crítica iracunda e invejosa de
Sílvio Romero, que não se continha, montado num intolerável despeito, em
assacar catilinárias contra o “bruxo do Cosme Velho.” Vale lembrar que, quando
Machado lançou As Memórias Póstumas de Brás Cubas, o crítico sergipano não
regateou elogios rasgados ao criador de Quincas Borba. Machado, impassível,
manteve-se silente... e mais e mais criativo. Não perdeu tempo em agradecer o
discurso laudatório daquele que, desprovido de qualquer sentimento de justiça,
dizia ser Tobias Barreto literariamente melhor que o baiano Castro Alves.
Esquecia ele que este era poeta; enquanto Tobias, se bem escrevia, não fazia
literatura, mas produzia trabalhos de cunho literário. Neste havia o
conhecimento conceptual da filosofia alemã e das reflexões jurídicas da época;
em Antônio de Castro Alves, a inventividade, o uso estético da linguagem,
profusa, tiradas encantadoras que ainda hoje, e sempre, embevecem e embevecerão
as gerações.
Em teu belo texto, bem costurado e
prenhe de ajustados conceitos, deixas revelar certo receio do que pensa a
crítica literária e que influência tem ela no espírito do leitor.
Eu te aconselho: manda a crítica às
favas e colhe, aqui e ali, posições que te possam ajudar sem te preocupares se
se trata do crítico da moda. Lembra-te de que a teoria literária que melhor se
ajusta ao espírito do leitor é, sem dúvida, a do poeta romano Horácio. Este diz
que a literatura enfeixa em si mesma duas coisas indispensáveis: o prazer e o
aprender. O mais não passa de elucubrações que, pelo menos para mim, não me
batem a passarinha. Devemos ler o que nos apetece. Com o hábito, a mania por
livros se instala, e nosso senso crítico, paulatinamente, vai se afiando e se
refinando. Foge, pois, aos modismos e lê gratuita e prazerosamente. É o que
basta. É o que é suficiente para te tornares uma apreciadora madura do fazer
literário.
Lembro-te, ainda, que, na acepção
mais profunda do termo, crítico é o juiz, aquele que avalia, tira conclusões e
profere sentenças, montado num juízo estético. Não é crítico o que perversamente
se diverte em lançar verrinas à criação de fulanos e beltranos. Não há por que,
pois, filiar-se a essa ou àquela linha crítica para fazer bom número.
Nada mais agradável que a leitura
divorciada da opinião de quem quer que seja. Ler é ato gratuito porque
enriquece a existência e a ela dá sentido, com ou apesar do crítico.
Teu pai Hugo
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