sábado, 18 de fevereiro de 2012


CARTAS À MINHA FILHA


Maria Helena,

em tua última carta, pediste-me ler um trabalho acadêmico de tua lavra, em cujo bojo fazes considerações sobre crítica literária. Ressaltaste a desonestidade de alguns críticos, que se banqueteiam em, dos seus altiplanos, no regozijo de manchar reputações de escritores de escol. Lembraste até mesmo a crítica iracunda e invejosa de Sílvio Romero, que não se continha, montado num intolerável despeito, em assacar catilinárias contra o “bruxo do Cosme Velho.” Vale lembrar que, quando Machado lançou As Memórias Póstumas de Brás Cubas, o crítico sergipano não regateou elogios rasgados ao criador de Quincas Borba. Machado, impassível, manteve-se silente... e mais e mais criativo. Não perdeu tempo em agradecer o discurso laudatório daquele que, desprovido de qualquer sentimento de justiça, dizia ser Tobias Barreto literariamente melhor que o baiano Castro Alves. Esquecia ele que este era poeta; enquanto Tobias, se bem escrevia, não fazia literatura, mas produzia trabalhos de cunho literário. Neste havia o conhecimento conceptual da filosofia alemã e das reflexões jurídicas da época; em Antônio de Castro Alves, a inventividade, o uso estético da linguagem, profusa, tiradas encantadoras que ainda hoje, e sempre, embevecem e embevecerão as gerações.

Em teu belo texto, bem costurado e prenhe de ajustados conceitos, deixas revelar certo receio do que pensa a crítica literária e que influência tem ela no espírito do leitor.

Eu te aconselho: manda a crítica às favas e colhe, aqui e ali, posições que te possam ajudar sem te preocupares se se trata do crítico da moda. Lembra-te de que a teoria literária que melhor se ajusta ao espírito do leitor é, sem dúvida, a do poeta romano Horácio. Este diz que a literatura enfeixa em si mesma duas coisas indispensáveis: o prazer e o aprender. O mais não passa de elucubrações que, pelo menos para mim, não me batem a passarinha. Devemos ler o que nos apetece. Com o hábito, a mania por livros se instala, e nosso senso crítico, paulatinamente, vai se afiando e se refinando. Foge, pois, aos modismos e lê gratuita e prazerosamente. É o que basta. É o que é suficiente para te tornares uma apreciadora madura do fazer literário.

Lembro-te, ainda, que, na acepção mais profunda do termo, crítico é o juiz, aquele que avalia, tira conclusões e profere sentenças, montado num juízo estético. Não é crítico o que perversamente se diverte em lançar verrinas à criação de fulanos e beltranos. Não há por que, pois, filiar-se a essa ou àquela linha crítica para fazer bom número.

Nada mais agradável que a leitura divorciada da opinião de quem quer que seja. Ler é ato gratuito porque enriquece a existência e a ela dá sentido, com ou apesar do crítico.

Teu pai Hugo


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