Em
que estou pensando agora? Estou pensando em várias coisas e, por isso, estou
sentindo dificuldade de arrumar as idéias. Levanto-me da cadeira, encaminho-me
para a geladeira e dali retiro uma garrafa de água mineral gaseificada. Coloco
uma porção de água em um copo de vidro e, aos poucos vou sorvendo, em pequenos
goles, o líquido gelado de goela a baixo... Nesse ritual, grande é o silêncio
em volta, com exceção do ronco dos veículos que se arrastam numa avenida
próxima. Nada me vem à cabeça... Volto à cadeira e folheio A Essência do
Cristianismo, do pensador alemão Ludwig Feuerbach, obra que contém radical
crítica à teologia e uma espécie de “desmitologização” das pretensões teóricas
da religião. Por tratar-se de obra voltada à Filosofia da Religião,
perlustrei-a aos pulos, pois o pensamento que me assaltou quando virei suas
folhas, levou-me a indagar-me o porquê do zelo das pessoas deste século sem
luzes em mostrar o quanto são pias, generosas e tão fiéis aos seus deuses.
É
comum se afixarem adesivos em vidros de automóveis em que se lêem inscrições
como “Deus é Fiel”, “Propriedade do Senhor Jesus” e outras que tais... Isso
cheira a farisaísmo chão. Afinal, no Evangelho Segundo São Mateus, há uma
passagem em que o Cristo adverte os fiéis de que a oração deve ser feita no
silêncio da alma e não como fazem os fariseus, que oram nas sinagogas, à
vista de todos, para serem vistos como devotados ao seu Senhor.
“Os
sepulcros caiados”, “a raça de víboras”, “a geração adúltera”, epítetos que o
Cristo cola “como tatuagem” no espírito dos fariseus de seu tempo, vêm bem a
calhar como rótulo das atitudes farisaicas dos tempos hodiernos. Ora, se o sujeito
é de opinião de que Deus é fiel, que se apóie nessa fidelidade e, não saia da
sua certeza para apregoar algo que, em sua essência, já é, pois é essência e
não aparência. É o mesmo que dizer que toda pedra é dura. Risível... Agora,
aquela história de o sujeito comprar um bem, como um automóvel, no caso, e
fazer dela proprietário o pobre Jesus é desejar desvirtuar a natureza do
Nazareno. Aliás, alguém, em tom jocoso, já disse que, em Fortaleza, o dono de
maior frota de automóveis é o filho de Deus. Mentira. Jesus é sujeito
desprendido e nunca pensou o mundo pela ótica capitalista. Era manso de
espírito, além de generoso e pródigo em distribuir. E, ao que parece, só andava a pé.
O
resto é conversa fiada de quem quer “se amostrar” para os outros, como a dizer:
Olhem como eu sou fiel a Jesus...
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