domingo, 5 de fevereiro de 2012


GIULLIA

                                                                           Hugo Martins



Se todos trocaram presentes, ganharam-nos ou deixaram de ganhar, da minha parte, o grande presente que ganhei nos festejos natalinos foi conhecer uma pessoa. Parece ter sido paixão à primeira vista, pelo menos da minha parte. Da parte dela não sei. Sua pureza, candura e inocência não permitem a ela guiar-se por convenções...  Ela simplesmente abre o coração e vive a experiência. Embora minha estratégia não tenha sido estudada, quando a vi, quedei-me estonteado e tentei uma aproximação. Ela tergiversou e, com olhar desconfiado, olhava-me a advertir-me de que eu não devia aproximar-me. Fiquei na minha, fingindo ar de indiferença, enquanto ela mantinha-se de pé a encarar-me, a lançar-me olhares, mas nada amigáveis. Desconfiei das reais intenções dela e resolvi mudar a estratégia.

Ela era o protótipo da figura de criança. O rostinho redondo, boquinha voluntariosa, olhos brilhantes e ar de infinita confiança. O cabelo estava amarrado em forma de rabo-de-cavalo e vestia-se como criança de sua idade: short, blusa e sandália, embora, naquele momento, estivesse com os pés descalços. Abraçava uma boneca que ganhara da avó, produto industrializado, inspirado nos quadrinhos de Maurício de Souza. Tinha nas mãos a Mônica, meninota de vestido vermelho, com os dentes da frente sempre à mostra, a lembrar um pequeno coelho. Seria aquele o momento mais propício para a aproximação. Todos sabemos do encanto que aquela menina sapeca, por revistas e desenhos animados, exerce fascínio irresistível sobre o espírito desarmado das crianças. Olhei para Giulia e perguntei se aquela boneca era mesmo a Mônica. Os olhinhos brilharam e convenci-me de que minha conquista se concretizaria.

Daí por diante, iniciamos conversa, cujo ponto principal eram os personagens do educador Maurício de Souza. A doce menininha demonstrava conhecer todas as peripécias e o modo de ser da cada personagem. Comecei por fazer-lhe duas perguntas: que gostava de comer Magali e que personagem não era muito afeito a banhos. Ela não titubeou: melancia, Cascão. Não satisfeito, indaguei-lhe o nome do coelhinho que a Mônica usava para castigar quem não a respeitava. Ela disse: Sansão. Comecei a rir  e a perguntar-me como a danada da menina já detinha na cachola tanta informação.

Houve um momento em que sua avó armou uma rede para mim. A menina cismou que queria a rede. Como eu poderia resistir a argumento tão irrespondível?! Ela deitou e eu tive que contentar-me em ficar numa cadeira, perto da rede. Iniciei com ela outra atividade. Contei-lhe histórias pertinentes ao mundo fantasioso das crianças. Falei-lhe do Lobo Mau, de Chapeuzinho Vermelho. Ela então se referiu á música que Chapeuzinho cantava quando se dirigia, na floresta, à casa da Avó. Para testar-lhe, entoei a música do Lobo. A peralta da menina deu continuidade. Terminada a história, falei-lhe da Bela Adormecida e de João e Maria. Ela deu mostra de já conhecer o enredo... Eu disse de mim para mim: “tá danado”! O pior é que ela, vez por outra, saía da rede e borboleteava pela sala, distraída com outros brinquedos. Segurou um coelhinho de cor azul e dentes para fora e cismou de que o bichinho era o Sansão da Mônica. E girava o coelhinho com a mão e fazia menção de lançá-lo contra alguém como fazia Mônica nos momentos em que se irava com Cascão e Cebolinha. Eu a observar. Depois ela vinha mim e dizia: conta a história do Lobo e da Bela Adormecida. Nesse momento, convenci-me de aquela meninota seria uma grande leitora por gostar de revisitar textos já lidos, talvez para descobrir neles novas nuanças e outros significados... Eu dizia que noutro dia em que nos encontrássemos, eu contaria, pois ela já estava de saída com o pai e a mãe. Fiquei com uma dívida. A menina juntou os quatro dedinhos e denunciou-me devedor de quatro histórias... Um dia qualquer honrarei a dívida. Ela se foi, deixando-me uma marca no espírito. Para mim, aquela petiz era o espírito da infância encarnado no semblante doce e brando da meninota que me deu um grande presente de natal.

Não posso mostrar meu presente. Ele adormece nos escaninhos de minha alma. Nem Giulia saberá, nem ninguém, pois tais momentos só pertencem a quem os vivencia. São alimentos, são pastos da alma, cujo sabor é perene. Permanecem, ficam e servem de esteio espiritual em meio aos embates da vida e a mesmice dos dias vãos.

Não agradeci de viva voz à Giullia. Ela não compreenderia. Se isso fizesse, talvez só seus olhinhos vivazes adquirissem o brilho da infinita e inefável incapacidade nossa de alcançar o que vai no mundo feérico e intraduzível da alma da criança.

De qualquer modo, aqui fica minha infinita gratidão à menina Giulia, cuja alminha tem sabor de candura, docilidade e gratuidade no existir.

Que ela seja feliz e saiba enfrentar, no futuro, as agruras da existência e também lamente haver de perder a única coisa que dá sentido à existência: a eterna busca que todo homem faz do sentido maior da eterna infância, que nos habita o espírito e nunca se vai.

Obrigado à Giullia por este dia de Natal...



             

             






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