GIULLIA
Hugo Martins
Se todos trocaram presentes,
ganharam-nos ou deixaram de ganhar, da minha parte, o grande presente que
ganhei nos festejos natalinos foi conhecer uma pessoa. Parece ter sido paixão à
primeira vista, pelo menos da minha parte. Da parte dela não sei. Sua pureza,
candura e inocência não permitem a ela guiar-se por convenções... Ela simplesmente abre o coração e vive a
experiência. Embora minha estratégia não tenha sido estudada, quando a vi,
quedei-me estonteado e tentei uma aproximação. Ela tergiversou e, com olhar
desconfiado, olhava-me a advertir-me de que eu não devia aproximar-me. Fiquei
na minha, fingindo ar de indiferença, enquanto ela mantinha-se de pé a
encarar-me, a lançar-me olhares, mas nada amigáveis. Desconfiei das reais
intenções dela e resolvi mudar a estratégia.
Ela era o protótipo da
figura de criança. O rostinho redondo, boquinha voluntariosa, olhos brilhantes
e ar de infinita confiança. O cabelo estava amarrado em forma de rabo-de-cavalo
e vestia-se como criança de sua idade: short, blusa e sandália, embora, naquele
momento, estivesse com os pés descalços. Abraçava uma boneca que ganhara da
avó, produto industrializado, inspirado nos quadrinhos de Maurício de Souza.
Tinha nas mãos a Mônica, meninota de vestido vermelho, com os dentes da frente
sempre à mostra, a lembrar um pequeno coelho. Seria aquele o momento mais
propício para a aproximação. Todos sabemos do encanto que aquela menina sapeca,
por revistas e desenhos animados, exerce fascínio irresistível sobre o espírito
desarmado das crianças. Olhei para Giulia e perguntei se aquela boneca era
mesmo a Mônica. Os olhinhos brilharam e convenci-me de que minha conquista se
concretizaria.
Daí por diante, iniciamos
conversa, cujo ponto principal eram os personagens do educador Maurício de
Souza. A doce menininha demonstrava conhecer todas as peripécias e o modo de
ser da cada personagem. Comecei por fazer-lhe duas perguntas: que gostava de
comer Magali e que personagem não era muito afeito a banhos. Ela não titubeou:
melancia, Cascão. Não satisfeito, indaguei-lhe o nome do coelhinho que a Mônica
usava para castigar quem não a respeitava. Ela disse: Sansão. Comecei a
rir e a perguntar-me como a danada da
menina já detinha na cachola tanta informação.
Houve um momento em que sua
avó armou uma rede para mim. A menina cismou que queria a rede. Como eu poderia
resistir a argumento tão irrespondível?! Ela deitou e eu tive que contentar-me
em ficar numa cadeira, perto da rede. Iniciei com ela outra atividade.
Contei-lhe histórias pertinentes ao mundo fantasioso das crianças. Falei-lhe do
Lobo Mau, de Chapeuzinho Vermelho. Ela então se referiu á música que
Chapeuzinho cantava quando se dirigia, na floresta, à casa da Avó. Para
testar-lhe, entoei a música do Lobo. A peralta da menina deu continuidade.
Terminada a história, falei-lhe da Bela Adormecida e de João e Maria. Ela deu
mostra de já conhecer o enredo... Eu disse de mim para mim: “tá danado”! O pior
é que ela, vez por outra, saía da rede e borboleteava pela sala, distraída com
outros brinquedos. Segurou um coelhinho de cor azul e dentes para fora e cismou
de que o bichinho era o Sansão da Mônica. E girava o coelhinho com a mão e
fazia menção de lançá-lo contra alguém como fazia Mônica nos momentos em que se
irava com Cascão e Cebolinha. Eu a observar. Depois ela vinha mim e dizia:
conta a história do Lobo e da Bela Adormecida. Nesse momento, convenci-me de
aquela meninota seria uma grande leitora por gostar de revisitar textos já
lidos, talvez para descobrir neles novas nuanças e outros significados... Eu
dizia que noutro dia em que nos encontrássemos, eu contaria, pois ela já estava
de saída com o pai e a mãe. Fiquei com uma dívida. A menina juntou os quatro
dedinhos e denunciou-me devedor de quatro histórias... Um dia qualquer honrarei
a dívida. Ela se foi, deixando-me uma marca no espírito. Para mim, aquela petiz
era o espírito da infância encarnado no semblante doce e brando da meninota que
me deu um grande presente de natal.
Não posso mostrar meu
presente. Ele adormece nos escaninhos de minha alma. Nem Giulia saberá, nem
ninguém, pois tais momentos só pertencem a quem os vivencia. São alimentos, são
pastos da alma, cujo sabor é perene. Permanecem, ficam e servem de esteio
espiritual em meio aos embates da vida e a mesmice dos dias vãos.
Não agradeci de viva voz à
Giullia. Ela não compreenderia. Se isso fizesse, talvez só seus olhinhos
vivazes adquirissem o brilho da infinita e inefável incapacidade nossa de
alcançar o que vai no mundo feérico e intraduzível da alma da criança.
De qualquer modo, aqui fica
minha infinita gratidão à menina Giulia, cuja alminha tem sabor de candura,
docilidade e gratuidade no existir.
Que ela seja feliz e saiba
enfrentar, no futuro, as agruras da existência e também lamente haver de perder
a única coisa que dá sentido à existência: a eterna busca que todo homem faz do
sentido maior da eterna infância, que nos habita o espírito e nunca se vai.
Obrigado à Giullia por este
dia de Natal...
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